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“A Culpa é do Fidel” filme de Julie Gravas

A Culpa é do Fidel

Foto: divulgação

Bela versão sobre a perda da “inocência” infantil

Luiz Felipe Nogueira de Faria

A Culpa é do Fidel - Filme Julie Gravas

• “Filmar as transformações ocorridas nos já míticos anos 60/70, com toda a carga de dramaticidade (e até de tragicidade) que isto comporta não constitui exatamente uma novidade. Muitos importantes cineastas se devotaram a essa tarefa, inclusive o ótimo Costa Gravas que vem a ser o pai de Julie Gravas, autora desse ensaio sobre os efeitos das práticas políticas-ideológicas na organização da cultura familiar, tratando especialmente do universo infantil e seu específico modo de apreensão/construção da realidade. O problema, posto com gravidade, mas também com bom humor, se dirige para o acompanhamento das mutações ocorridas no seio de uma típica família de classe média francesa por conta da entrada em cena da perspectiva ideológica relacionada principalmente à luta socialista (com destaque para a experiência chilena). É aí que surge Anna, filha mais velha que assume a tarefa de contar esta história, desde a sua ótica bem particular, claro.

Pois a proposta fundamental é mostrar os fatos e acontecimentos desenvolvidos no início dos anos 70 a partir da leitura dessa (questionadora) menina (Nina Kervel-Bey, linda que só ela e com uma atuação magistral) que se depara com um mundo adulto conturbado e até confuso - tantas são as mensagens contraditórias, opostas, excludentes entre si. Em seu esforço de dar sentido ao mundo que a cerca e que começa a conhecer, Anna encontra a paixão dos “mais velhos” como marca de suas falas e atitudes desmesuradas, adequadas ao “clima” de rivalidades e confrontos, mas desproporcional à possibilidade de compreensão da jovem – a cena onde se dá a fala que enseja o título do filme, com a governanta é um dos melhores exemplos.

Nessa trilha, Anna vai acumulando perdas: a casa com jardim (a nova moradia é bem mais modesta), a imagem do pai (que começa a usar barba), a proximidade da mãe (cada vez mais voltada para um trabalho com as mulheres que questionam a “lei do aborto”), mudanças constantes de governantas (que passam a exercer a função materna), e, fato ainda mais “estarrecedor”, a convivência (forçada) com outros barbudos, desconhecidos que freqüentam a casa numa atmosfera regada a fumaça de cigarros constantes, palavras de ordem revolucionárias e discussões sobre as estratégias de combate aos imperialistas (até mesmo o hino chileno é cantado com fervor numa dessas reuniões, onde se comemora uma conquista de Allende).

Ao mesmo tempo em que Anna vive e investe seus afetos no mundo infantil -caracterizado pelas brincadeiras com o irmão François (o ótimo Benjamin Feuillet, com caras e bocas deliciosas) e as companheiras do colégio, as demandas dirigidas às governantas que dela se ocupam na ausência dos pais, e nas insistentes consultas aos avós, pais e “amigos” revolucionários sobre o comunismo e o sentido de suas propostas -, há em marcha uma mudança fundamental: a que diz respeito à curiosidade por aquele até então detestável modo de vida imposto pelos pais.

Então, assistimos ao interesse pelas palavras que compõem o ideário socialista (como solidariedade), ao questionamento das idéias religiosas (das quais já estava afastada por ordem dos pais) diante das freiras-professoras, a defesa de seu modo de viver confrontando-se com as amigas que criticam seus pais. No ponto extremo disto acontece a aproximação do universo feminino na escuta, a princípio clandestina, mas logo consentida pela mãe, das histórias de mulheres que ousam interrogar sua condição de subalternidade e colaboram de maneira intensa para o livro que a mãe escreve. Anna bebe e se banha em outras águas, e com isso se faz outra. (a última cena do filme é em sua simplicidade linda e diz de maneira lírica esse acontecimento).

O que mais impressiona no filme é a explícita proposta de mostrar as passagens que cravam inexoravelmente a vida de Anna. Os enquadramentos, movimentos de câmera, closes das várias expressões da protagonista, além, é claro, dos afiados diálogos que perpassam todas as cenas visam dar conta das conturbações próprias da existência de menina sem esquecer do meio onde elas ocorrem e se constroem, sem negar os atravessamentos que a história pessoal recebe positivamente da história cultural-política (a cena da passeata é absolutamente genial, mostrando literalmente do olhar da menina um mundo “incompreensível” que logo passará a ser o dela própria). Julie Gravas exercita, sempre com humor inteligente e crítico das idéias totalitárias que se querem mais verdadeiras e naturais do que as outras, um cinema que sem deixar de ser pensante é também delicado e feminino.

As atuações são também um ponto forte do filme. Além dos irmãos Julie Depardieu (como a mãe, Marie) e Stefano Accorsi (o pai, Fernando, de ascendência espanhola, fato importante na trama) fazem ótimos trabalhos, segurando na “ponta do laço” personagens em trânsito que também se interrogam, estupefatos, sobre os acontecimentos e a si mesmos como protagonistas e objetos da história que se desenrola, como a menina Anna, aliás. A fotografia também produz ótimas e significativas imagens da atmosfera revolucionária que toma conta da casa de Anna tanto quanto do tradicionalíssimo colégio religioso e a trilha sonora acompanha com destreza as peripécias do enredo em suas várias nuances.

Enfim, “La faute à Fidel” (título original) é um filme brilhante, que merece ser visto com muita atenção e carinho. Atenção e carinho que sua autora devota aos movimentos transformadores, às mulheres e às crianças.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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