Comentários de filmes

FILME

"À Deriva" de Heitor Dhalia

À Deriva” de Heitor Dhalia

Foto: divulgação

Mergulho sem concessões na cruel adolescência de todos nós.

Comentário

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

À Deriva” de Heitor Dhalia

É possível afirmar que o novo filme de Heitor Dhalia fala sobre a perda da inocência e suas drásticas consequências. Ou que fala sobre as dores (não apenas dos jovens) de viver e relacionar-se, especialmente nos assuntos amorosos. Ou que faz uma reflexão sobre a experiência de desconstrução dos códigos que sustentam as certezas de cada um, vivências em geral marcadas por descompassos e radicais volteios no modo de ver o mundo e produzir o futuro. Para estarmos mais próximos da realidade que o filme traz basta reconhecermos que todos esses pontos fazem sua aparição, com uma grande carga de afetos, os mais variados, que explodem a cada instante. E isso sem que nos sejam proporcionadas válvulas de escape, por assim dizer, racionais, para dialogarmos com a profusão de imagens que vão desde o retrato paradisíaco de Búzios e Arraial do Cabo até os olhares cravados de angústia e solidão, especialmente da doce Filipa, que ousa experimentar o limite sempre tênue entre o mais traumático e o mais desejante na construção daquilo que será chamado a responder pelas escolhas que a carne deverá sustentar, de algum modo. Heitor mais uma vez não nos poupa, e, tal como um intruso que brinca matreiramente com nossos sonhos nos carrega para os pesadelos dos personagens, não sem provocar fantasias e tesões intensos.

Seguindo essa trilha, não devem nos espantar as muitas cenas nas quais constatamos mergulhos e planos que destacam a experiência de estar sem chão, boiando ao sabor das marés (literalmente à deriva), ou mesmo os planos mais gerais que observam um certo abandono dos personagens diante das potências naturais (mar, montanhas), que no caso não fazem apenas figuração, mas servem, na sua geografia e concretude, para situar as trajetórias que se encontram e desencontram de maneira incessante, marcando a mistura de solidão e erotismo que ocorrem nas transformações que vão se sucedendo.

A atmosfera de sensualidade e crueldade juvenil que se faz com os arroubos adolescentes de Filipa e sua trupe contrasta com a paixão ressentida dos adultos, capazes de matar e fazer sofrer a si mesmos e àqueles com quem convivem, notadamente os filhos, no caso dos pais de Filipa, Matias e Clarice. Ao mesmo tempo, esse mundo a princípio tão estranho é também fascinante e é exatamente por aí que o filme carrega suas principais fichas. O abismo entre o mundo dos adultos e o mundo dos adolescentes vai se desfazendo, em parte, pela insistência de Filipa em testemunhar, para além de suas forças e até de sua compreensão, as paixões que movem seus pais, esgarçando sua curiosidade até o ponto em que o que lhe retorna é o retrato de seu próprio desamparo. Agravado pela constatação do desamparo dos próprios pais, também adolescentes diante do destino e do sem sentido de suas paixões.

Parece ser este o traço mais forte do filme. Adolescentes, púberes e adultos apesar das óbvias diferenças de vida, discurso e expectativas se encontram com o trágico, e neste sentido, são todos crianças (ou adolescentes) diante da potência disruptiva da vida: todos estão à deriva, pisando em chão movediço, mergulhando em águas que por mais límpidas que pareçam são desconhecidas, vivendo as dores e delícias do sexo, do amor, das separações, das descobertas inomináveis. Além disso, há sempre um mistério que todas as explicações não alcançarão, algo que permanecerá indizível. Filipa busca respostas nas condutas dos seus pais, mas mesmo eles se curvam a esse destino e se mostram meninos sofrentes e perdidos.

O cinema que Heitor Dhalia produz é fascinante principalmente porque consegue mostrar com clareza e coerência as idéias que sustentam o enredo, sem abrir mão do relato onírico, traduzido nas paisagens e nos gestos dos rapazes e moças que descobrem (literal e simbolicamente) os muitos lugares onde habitam as pulsações do humano. Os enquadramentos têm a peculiaridade de executarem variações, dançando com os corpos e as falas, seguindo suas rotas muitas vezes dispersas e surpreendendo ângulos que mostram o fascínio do encontro com o vazio, especialmente nas cenas com Filipa. A fotografia, de Ricardo Della Rosa, capta com destreza e iluminações inteligentes as afetações dos personagens, numa parceria genal com a linda música de Antonio Pinto. Desnecessário dizer que a fotografia das maravilhas da natureza que a seu modo enquadram as viagens são um deleite à parte.

Finalmente, todo o elenco se mostra afinadíssimo, com atuações excelentes, Débora Bloch acima de todos. A jovem Laura Neiva mostra competência rara para assumir na própria pele os encantos horrorosos (ou horrores encantadores) de uma adolescente corajosa que vai construindo o sentido para as coisas, nas bordas exatas dos atos e ditos misteriosos que presencia. Ponto para os preparadores de elenco.

O filme é muito bonito, mesmo. E se você for surpreendido, como eu, pela presença de alguma cena nos seus sonhos, aqueles que retomam a infância mais obscura, não se assuste. É apenas mais um dos encantos de estar à deriva.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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