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“A Fita Branca” de Michael Haneke

“A Fita Branca” de Michael Haneke

Foto: divulgação

Estiloso exercício de desvelamento da brutalidade humana

Comentário do filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“A Fita Branca” de Michael Haneke

Numa recente entrevista Michael Haneke afirmou seu interesse em discutir as questões relativas ao advento do nazismo, indicando o que a seu ver representa uma lacuna importante: pouco se filma sobre os antecedentes históricos e culturais da formação da mentalidade e da prática que representou a maior tragédia do século XX. Em “A Fita Branca”, palma de ouro em Cannes, assistimos não apenas a uma reflexão sobre como se forma a geração nazista, mas também e sobretudo como se dá a produção do modo totalitário de existir, pautado essencialmente no desrespeito à vida do outro humano, destrutividade que implica em desconhecer absolutamente a hospitalidade e a diferença.

A questão é grave e a discussão complexa. Vai muito além deste filme. O que importa destacar é a maneira inteligente e elegante com que isso é realizado neste trabalho, com recursos cinematográficos que primam pela delicadeza estética, especialmente quando se trata de aludir, pelo próprio modo de filmar, ao mortífero jogo de submissões e omissões consentidas, diga-se, capazes de permitir a proliferação silenciosa da violência.

Acima de tudo Haneke e o diretor de fotografia Christian Berger trabalham com a possibilidade de transitar entre o visto e o não visto, o escutado e o não escutado, entre as ações que só se mostram nos seus efeitos de horror e aquelas que indicam na sua imediata concretude o peso lancinante da tortura. Sem deixar de mostrar um esforço de resistência ao ódio mais brutal, ainda que este esforço esteja fadado ao fracasso e ao cruel abandono.

Por volta de 1910, numa pequena aldeia alemã, tudo parece funcionar sem maiores sobressaltos. No entanto, aos poucos situações que parecem banais vão se avolumando, crimes hediondos vão ocorrendo. Mas na investigação que se segue, ninguém sabe, ninguém viu. Ninguém sabe? Quando adentramos na intimidade dos lares, todos eles repletos de crianças, nos damos conta da enorme cumplicidade de todos (ou quase todos), de modo que não saber (e não ver, não escutar) torna-se a palavra de ordem da vida na aldeia. De tal maneira que é possível pensar que o mistério que se faz, longe de ser acidental, é afirmação de um jeito de viver. Ou de morrer.

Seguindo com cuidado os movimentos dos personagens, a direção e o roteiro de Haneke destacam os efeitos da política higienista, da educação autoritária e hipócrita, da perversão nas relações entre pais e filhos, da submissão voluntária, da vingança mais desesperada e do soterramento da ternura infantil. As cenas são belas na sua concepção “noir”, o que permite apreender as tomadas elípticas como apresentação direta da questão que move o filme. Os recursos de fotografia criados por Berger permitem “ver” na penumbra e não “ver” na claridade. Exatamente como indica a história que se quer contar. Genial!

Assim, muito a propósito não há uma trilha sonora. O impacto das falas (ácidas, em sua maioria) e dos gestos silenciosos, bem como a narração em off (de um dos poucos personagens que mantém estranhamento dos fatos), é muito forte. As interpretações de todo o elenco mostram um esmero admirável, além de um excelente preparo.

Então, ver esse filme é obrigatório. Ele conjunta um enorme deleite cinematográfico à exigência de pensar sobre o agora dos silêncios e brutalidades que nos acossam diariamente. Michael Haneke conta uma história do século XX, com vistas a nos afetar no presente do século XXI.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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