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“A Fronteira da Alvorada” de Philippe Garrel

A Fronteira da Alvorada

Foto: divulgação

A paixão nas cercanias do sonho e da loucura

Luiz Felipe Nogueira de Faria

A Fronteira da Alvorada filme de Philippe Garrel

• Um dos mais badalados presentes do último FEST RIO, “A Fronteira da Alvorada” baseia-se no livro “Spirite” de Theophile Gautier que traduz um quadro fantasmagórico no qual uma mulher morta faz uma aparição num espelho. Partindo da questão sobre os efeitos dessa experiência especular para um outro sujeito, Philippe Garrel (indicado à Palma de Ouro em Cannes) compõe uma reflexão ousada e intensa sobre os encontros amorosos, lidos pelo viés dos extremos e reconhecidos pela sua capacidade de conduzir os sujeitos a habitarem territórios radicalmente desconhecidos, no limite mesmo daquilo que costumamos chamar de medida, de acordo com o senso comum e geralmente aceito como critério de sanidade.

É, aliás, fora de um contorno definido pela sanidade (que no filme é nomeada como burguesa, isto é, tecida pelos ideais da ordem e da normalidade institucionalizada) que transitam os personagens da trama, especialmente o trio François, Éve e Carole. Paradoxalmente é exatamente isto que permite que suas vidas alcancem algum sentido (o que não quer dizer necessariamente entendimento sobre si e os outros) e possam clamar pelo outro, além de insistir nos vazios e fraturas das verdades estabelecidas, resistindo aos ideais de potência e identidade assegurada. Amantes que não cessam de despir as certezas no mesmo movimento em que se descobrem ultrapassados pelos próprios acontecimentos que ajudaram a construir. Então, eles podem ser vistos nas suas fraquezas, sem que isto retire sua potência disruptiva, ainda que excessivamente expostos à dor e ao enlouquecimento paralisante.

Assim é que François e Carole, fotógrafo e atriz, se encontram e se desencontram animados a princípio por um trabalho que lhes concerne de perto (primeira e sugestiva metáfora sobre o poder de fascinação do olhar), e, após, pelas circunstâncias próprias da vida de cada um, principalmente de Carole, que é casada. Além disso, Carole se deixa capturar nos códigos comuns do apaixonamento e experimenta um alheamento de si que a conduz literalmente para além da (tênue) fronteira que lhe servia de referência na vida e nos amores. François, não menos dilacerado, mas aparentemente capaz de refazer seu cotidiano, se põe ao alcance da amada sem evitar a separação. Surge então Éve, linda e frágil mulher que incita François a uma vida dita estável, com casamento e filhos.

Tudo resolvido? De jeito nenhum. As intensidades dessa nova relação não apagam as precedentes e, no vai e vem dos acasos e tempos que repetem para cada um outros triângulos (reais ou imaginários, pouco importa), re-atualizam-se os signos fundamentais que indicam para os amantes um destino pouco feliz, digamos. Para François uma captura inesperada se faz: a aparição de Carole no espelho, chamando por uma outra vida para ambos. Assombrado por essa alucinação François termina por seguir um caminho mais “fácil” e trágico, não sem antes ouvir conselhos mais racionais e ponderados (mas quem pode ouvi-los na condição de François?).

A estória possui nuances que não caberia trazer aqui. O que é digno de nota é o modo como a narrativa (com diálogos ácidos e diretos) articula os embaralhamentos próprios dos encontros, destacando os caminhos pelos quais eles se fazem fronteiriços, ao mesmo tempo prazerosos e doloridos, convocando os amantes a toparem com seus limites e dúvidas. O mais traumático e arriscado está muito próximo do desejo, até mesmo no ponto em que comparece a exacerbação patológica. A bela fotografia em preto e branco (William Lubtchansky) trabalha com sensibilidade as sombras e contrastes que acompanham a incidência dos fantasmas nas escolhas que cada personagem realiza, acompanhando os corpos e seus movimentos torcidos. A direção prima pela proximidade das incessantes mutações e ambivalências das relações, com enquadramentos que privilegiam um enfoque expressivo, carregando nos primeiros planos e movimentos de câmera que visam apreender (e até surpreender) os afetos mais atrozes, menos preocupada em oferecer uma visão crítica sobre o que cada personagem faz com suas paixões. Em algum momento parece mesmo que o principal personagem do filme é a própria fronteira, na qual os amantes transitam e se fazem.

Mas este trabalho tem outro ponto muito forte, estritamente afinado com as questões que propõe. Refiro-me à trilha sonora, composta com violino (em destaque) e piano. Esta não se reduz às clássicas pontuações das cenas, mas apresenta um acompanhamento afetivo extraordinário, induzindo o espectador a experimentar junto com os personagens o clima de grande solidão que atravessa todo o filme. Indicando regiões de indiscernibilidade mais do que descrevendo e interpretando os dramas que se dão a ver mais imediatamente, o trabalho de Jean Claude Vanier e Didier Lockwood faz um ótimo contraponto com as interpretações de Louis Garrel (François), Clémentine Poidatz (Éve) e Laura Smet (Carole), todas elas demonstrando uma radical entrega, de cada um dos atores, ao aspecto trágico que anima a vida dos personagens.

Assim, caminhando na contramão dos ideais mais próximos ao sucesso e ao domínio de si, com que somos bombardeados diariamente, Philippe Garrel pede licença para lembrar a presença inevitável da paixão, da loucura e da morte na feitura daquilo que se faz e diz humano. E que habitar as passagens e limites é inevitável, ainda que nos exponha ao risco de encontrar apenas os signos de nossas próprias impossibilidades.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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