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“A Ilha do Medo” de Martin Scorsese

“A Ilha do Medo” de Martin Scorsese

Foto: divulgação

Para perturbar os espíritos cartesianos

Comentário

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria. Em 15 de Março de 2010.

“A ilha do medo” de Martin Scorsese

“Shutter Island” (no original), adaptação do romance homônimo de Dennis Lehane, pode ser visto como um filme policial e de suspense, ambientado como é no auge da guerra fria e dispondo personagens consagrados no imaginário da nossa cultura, como o honesto e dedicado detetive da polícia federal, Teddy Daniels. Também pode ser visto como uma parábola – ainda na atmosfera do pós-guerra e suas conseqüências - sobre os atos silenciosos e perversos do totalitarismo, materializados nas experiências criminosas de lavagem cerebral e violência contra loucos e outros que são feitos prisioneiros em masmorras afastadas, psiquiátricas ou não. Não seria nenhum exagero concebe-lo como uma epopéia trágica de um herói que (tal como Édipo Rex) passa o tempo a buscar o responsável pelo mal que aflige outros humanos, para, ao final, revelar-se a si mesmo alguém muito diferente do que pensava e/ou admitia.

Ainda é possível ler uma discussão – retomando aí velhas questões de Scorsese – sobre as fraquezas humanas, a violência como inescapável traço do mal-estar na cultura (bem freudianamente) e como tentativa de evitar a dor, a angústia e a solidão, presenças permanentes na experiência humana. Em qualquer um desses vieses estaríamos ambientados e seguros dos códigos e mensagens a decifrar. O que desconcerta é a opção de Scorsese de trabalhar com todos essas linhas simultaneamente, fazendo da multiplicidade de questões e (possíveis) respostas um meio apresentar cinematograficamente a desmontagem do pensamento mais tradicional, voltado para as oposições simples e excludentes como verdade/mentira, loucura/sanidade, civilidade/violência, ciência/ideologia.

Então, no Hospital Psiquiátrico Ashecliffe, localizado numa tenebrosa ilha, presença viva da política de exclusão da sociedade disciplinar, somos chamados a um encontro com personagens sinistros e que transitam, todos, no limite tênue (esta é uma indicação clara do filme) entre a mais lúcida loucura e a plena maldade, entre a ignorância própria ao saber e a pretensão perversa de tudo saber sobre o outro (inclusive e, sobretudo, pelas técnicas de manipulação), confrontados com o horror que já não distingue passado e presente, além de não permitir qualquer vislumbre do futuro. Um dos personagens diz que da ilha não é possível sair. É verdade. A fortaleza que nela é construída é feita para abrigar mortos-vivos, perigosos para a sociedade e que por isso já não detém nem mesmo a posse plena dos seus corpos. O que é curioso é o fato de que também os responsáveis pelo estabelecimento, como os médicos, são alvo desse destino. A monstruosidade de uns e de outros é separada apenas pelas grades e jogos de poderes. A presença do detetive Daniels, investigando junto com seu assistente Chuck Aule o desaparecimento de uma detenta parece seguir para a revelação de engrenagens próximas dos campos concentracionários. Mas seu caminho, já marcado por feridas não cicatrizadas, será ordenado pelas mesmas engrenagens que em algum momento julgou possível denunciar.

Tudo isso acontece de um modo que relembra os grandes momentos de Scorsese. A destacar principalmente, os planos gerais entremeados por closes que descortinam a mais lancinante dor de Daniels e dos detentos (principalmente), a frieza maquiavélica dos médicos, misturada com o fascínio sincero pelos instrumentos científicos ao seu alcance e a dureza defensiva dos guardas e outros enfermeiros. Além disso, uma inebriante oscilação entre movimentos de câmera e enquadramentos objetivos e subjetivos, colocando o espectador a par das vivências de Daniels (inclusive as passadas, que mostram a verdade no modo do sonho, sábio em seus deslocamentos, mas sempre com algo que não se deixa decifrar). O horror invisível da ilha, das histórias, das buscas, dos encontros, das lembranças, das ações violentas, se faz presente como atmosfera obrigatória, através de cortes inteligentes e um andamento que privilegia um ritmo mais lento. Ao final constatamos que a tirada Kafkaniana de uma as loucas, numa das mais emblemáticas cenas, é a mais sábia: até mesmo a mais simples verdade pode ser facilmente distorcida e calada quando os dispositivos de captura e silenciamento dos corpos trabalham para deter o controle dos códigos e modos de escuta. Tanto faz se esses dispositivos se servem da psiquiatria, psicanálise, medicina ou do direito penal. O maior mérito do filme é mostrar isso de muitas maneiras, sem descuidar-se de registrar a dimensão do engano, que também constitui as vidas das pessoas, sem exceção.

As interpretações de Leonardo DiCaprio (Teddy Daniels) e Ben Kingsley (Dr John Cawley) estão excepcionais. Mark Ruffalo (Chuck Aule, o companheiro de investigação de Daniels e figura fundamental da trama), Max Vaion Sydow (Dr. Jeremiah Maehring), Michelle Willians (Dolores Chanal, esposa de Daniels) se mostram bastante competentes. O roteiro, que tem a presença do próprio autor (Lehane) além de Laeta Kalogridis e Scorsese é bem costurado e construído de maneira a manter o suspense até o final, quando uma outra virada acontece. Também a fotografia, segue um ótimo padrão de criatividade.

É um belo filme! Vá ver.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato
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