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COMENTÁRIO DE FILME

“A MULHER INVISÍVEL” de Cláudio Torres

A MULHER INVISÍVEL

Foto: divulgação

Brincadeira inteligente com velhos clichês psicológicos

Comentário

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“A MULHER INVISÍVEL” de Cláudio Torres

• O argumento central de “A mulher invisível”, mais recente trabalho de Cláudio Torres (“O redentor”) não tem, a rigor, nada de original. Um sujeito vive o luto de uma relação amorosa rompida e a dor é grande porque esta relação era por demais idealizada. Aí, em meio a tentativas algo maníacas de superação e uma desistência dos investimentos cotidianos mais básicos, ele encontra uma outra mulher. Só que esta mulher não passa de uma construção alucinada, existindo só para ele. Isto é, o sujeito continua idealizando as mulheres e a si mesmo como amante, só que agora o quadro piorou: ele literalmente se relaciona com a própria fantasia, sem qualquer referência à realidade. Isto vai lhe render momentos estranhos (embora ele nem se dê conta) e a nós boas risadas.

É claro que o andamento da trama não se esgota neste aspecto. O tal sujeito vive no Rio de Janeiro, cercado de gente de todo tipo, possui um amigo que serve de fiel escudeiro, uma linda vizinha que o deseja secretamente e além de tudo, tem como profissão controlar o louco tráfego da cidade. Assim, os personagens vão fazendo sua aparição sem cerimônias e sempre na trilha do cômico: todos são tipos bem cariocas, irreverentes, às vezes bizarros, com uma linguagem que beira o cinismo e, sobretudo com o tesão à flor da pele. O erótico é um ponto de destaque para caracterizar a vida que segue e escoa num cotidiano engarrafado, frenético e solitário, marcas indeléveis da vida urbana. Talvez possamos compreender o filme, tanto quanto comédia de erros e desencontros, por um viés de crítica dos costumes, fazendo rir lá onde algumas certezas nos acodem, e propondo um certo estranhamento no ponto onde as obviedades da vida amorosa conduzem a expectativas fadadas à desilusão. Ao final resta, dentre outros pensares, a constatação de um desamparo imanente à vida amorosa, tão mais potente quanto mais negado.

Então, Pedro “encontra” Amanda, mulher maravilhosa, linda e adequada a todos os sonhos masculinos. Com ela vive as mais adoráveis ilusões, mas Vitória o espreita. Ambos são vizinhos de porta e apesar da proximidade, Vitória é invisível para Pedro. Bem mais visível é Carlos, amigo de muitas horas e ultra ligado nas performances sexuais. Suas e do amigo. Mais um solitário. Ambos trabalham controlando o tráfego, mas o fluxo de seus arrebatamentos eróticos não será possível domar. De outro lado, Vitória e sua irmã, a hilariante Lucia, espécie de mentora de Vitória para assuntos amorosos/sexuais, tramam uma aproximação de Pedro. Com muitas peripécias e casualidades típicas de uma zona sul aberta a todas as proximidades e encantamentos, seus caminhos se enlaçarão de maneira tragicômica. Claro, a paixão de Pedro por Amanda é um caso à parte. Empreendimento quixotesco seguirá valentemente com seus deleites, até que outros convites e atenções se façam com mais força. Qual poderá ser seu destino?

Bem, o principal objetivo do filme é fazer rir. É interessante notar que isso se faz através de diálogos espirituosos, com marcações de tempo precisas ao espírito humorístico e um andamento que não se detém demasiado nas situações de ligação externas à trama, o que mostra um roteiro enxuto e de fácil acompanhamento. Não há rebuscamentos psicologizantes além daqueles que estruturam o argumento e as soluções encontradas para os pontos de virada são plausíveis. Nos excelentes momentos onde acompanhamos Pedro (Selton Mello em mais uma extraordinária atuação) viajando com sua amada nos muitos lugares e a tal ponto que nada nem ninguém consegue dissuadi-lo de seu arrebatamento e entrega à alucinação, os enquadramentos e movimentos de câmera são fundamentais para construir as gargalhadas e o entendimento, por vezes cruel, da experiência de Pedro. Fazendo um vai e vem entre a visibilidade estonteante de Amanda (Luana Piovani, linda e com uma ótima pegada de mulher feita de sonhos) e a invisibilidade real observada apenas pelos outros (nós, inclusive), as sequências permitem em sucessão, mergulho e distanciamento. Assim, não ficamos privados da inteligência das questões e sarcasmos.

Do mesmo modo, os cortes e encadeamentos das cenas permitem que as estórias possam fazer sentido e graça sem que para isso seja necessário o recurso excessivo do pastelão. Há ainda o trabalho esmerado dos atores. Além de Selton e Luana, vemos Fernanda Torres e Vladmir Brichta com momentos de pura arte (especialmente Fernanda). Maria Manoella está perfeita (fazendo jus aos elogios que tem recebido) como Vitória, a vizinha tímida, porém dona de uma volúpia admirável, ela que não deixa de ser também invisível durante uma parte da trama, ainda que de outro modo. Enfim, Paul Betti e Maria Luiza Mendonça fazem boas aparições, assim com Marcelo Adnet e Gregório Duvivier.

Então, é possível reconhecer que a opção de Torres é pelo bom gosto e pelo apuro na construção das mensagens críticas que o filme traz. Sem desprezar a velha lição de que rir de nós mesmos é por si só uma excelente terapia. Aproveite.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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