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30 de Julho de 2010

Comentários de filmes

FILME

“A PARTIDA” de Yojiro Takita

“A PARTIDA” de Yojiro Takita

Foto: divulgação

Sensível convite para uma estranha cerimônia chamada vida

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

A PARTIDA - Direção de Yojiro Takita

• Produzir no espectador, a partir de imagens em movimento que contam uma estória, uma afetação capaz de afirmar a dimensão sonho e ao mesmo tempo, no interior dessa demoníaca máquina de ilusões, criar realidades que obriguem ao pensamento, violentando as comodidades que o fixam no registro passivo de projeções e identificações é tarefa para poucos. Agora, trazer para as muitas cenas que se atravessam na complexa relação espectador/filme, a possibilidade da criação, forçando a compreensão das sutilezas e detalhes que impregnam a visão de mundo dos personagens e a singularidade de seus caminhos, sem que isso se reduza ao óbvio dos clichês explicativos e da narrativa ficcional heróica é tarefa para pouquíssimos. Yojiro Takita, com o premiadíssimo “A Partida” (Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009, Grand Prix de Ameriques em Montreal, dentre outros), se inscreve nesse seleto rol de cineastas que produzem o encantamento próprio do cinema sem abrir mão da perspectiva que se abre quando se recusa a resignação e as facilidades dos códigos de compreensão impostos pela cultura globalizada e pelos saberes a ela submissos.

Por aí, por essa recusa em se dobrar aos traiçoeiros chamados da mediocridade cotidiana, tão em voga nos propalados signos da pós-modernidade, se faz a grandeza de um filme que além de contar uma estória repleta de referências que nos escapam de forma mais imediata (até por se tratar de experiências de uma outra cultura) inventa tempos e existências outras, sem desprezar questões que nos são caras na compreensão que temos do sentido da vida e da morte. Talvez até fosse mais exato falar de sentidos, forjados e refeitos nos encontros inesperados, nas urgências que obrigam ao risco, nas apostas que singram as fantasias, na insistência do indizível em se fazer ouvir à luz do dia, com as palavras que brotam da carne mais pulsante. Aqui se põe uma curiosidade: na tradução do título na tela lemos “Partidas”, no plural, algo que está muito mais adequado, seja ao plano mais direto da trama, seja a outros planos menos diretos, mas fundamentais para o acompanhamento do filme. Sim, é de pluralidade que se trata, e é na riqueza de situações concretas e acontecimentos subjetivos que o filme jorra intensidades que nos arrebatam e incendeiam.

Tudo parece muito simples e banal: Daigo Kobayashi, jovem violoncelista de uma orquestra de Tóquio, vê-se repentinamente desempregado com sua dissolução. Casado há pouco tempo e com uma alta dívida adquirida na compra do instrumento, decide vendê-lo e rumar para o interior, na cidade de Yamagata, cidade de sua infância, onde reencontra a antiga casa de seus pais que a mãe lhe deixou após a morte. Acolhido pela mulher e disposto a repensar antigas escolhas Daigo registra a possibilidade de um emprego que lhe parece estar ligado a viagens. E está mesmo, só que, por efeito de um mal entendido, fabricado por um erro na impressão do jornal, a viagem de que se trata diz respeito à partida do mundo dos vivos! Em suma, Daigo é convocado para trabalhar como um Nokau, um agente funerário que prepara e acondiciona os corpos, antes de colocá-los no caixão para a posterior cremação. Isso lhe causa um evidente estranhamento, mas pressionado pela necessidade de arrumar um emprego e seduzido pelo alto salário que lhe é oferecido pelo chefe da agência resolve ficar. A partir daí Daigo viverá experiências que obrigarão a desconstrução de velhas certezas, permitindo aberturas de sentido tais que numa leitura retrospectiva produzirão sua vida anterior como vazia e inexpressiva.

O trabalho que exerce não é bem visto, embora participe de uma tradição importante e que muitos desejam manter. De todo modo, o contato com todos os atos do ritual de preparação, incluindo aí a necessária recepção da dor dos que vivem a perda traz pouco a pouco um outro desenho para sua vida, com laços cada vez mais fortes. O desenrolar da trama sugere a existência de outros fios condutores. Assim, o abandono pelo pai na infância, a difícil discussão sobre sua vida como músico, a amizade estabelecida com Sasaki, dono da agência, os conflitos familiares provocados por tratar diretamente com mortos são outros pontos de apoio para o exercício reflexivo que perpassa todo o filme. Contudo, é possível reconhecer que no limite das questões apresentadas está exatamente o compromisso com o destino e a responsabilidade em aceitar a presença do acaso e do trágico. Neste ponto morte e vida não se fazem excludentes (quer se queira adotar idéias religiosas, ou não), mas são parceiras necessárias no processo de forjar diferenças e cuidar de si.

Com um roteiro excepcionalmente preciso na condução da verossimilhança das situações e da evolução dos personagens e com diálogos densos na sua simplicidade formal (trabalho de Kundo Koyama), “A Partida” desbanca com otimismo a ilusão, sempre renovada no cotidiano, de que a vida dependeria apenas dos planejamentos que seríamos capazes de fazer com nosso Eu racional e consciente, independente das errâncias e abismos. Não, a vida tem uma sabedoria que vai muito mais além do conhecimento e da razão e se o sombrio é capaz de assustar tanto, isto se deve bem mais ao excessivo apego que teimamos em manter pelo bom senso e pelo código dado do que pela ação descentralizadora do inesperado. Além disso, como podemos aprender nas últimas sequências, a possibilidade de refazer uma lembrança fraturada pela intensa dor, fazendo pela primeira vez um laço afetivo jamais significado, diz dos mistérios da vida muito mais do que supomos com nossas bem fundadas (e afundadas!) defesas e fugas. Então, o luto é tarefa permanente, não se limita ao momento da morte de um próximo, posto que é condição de transformação das coisas e construção de novos modos de viver. Daigo aprende isso a duras penas e nós reaprendemos junto com ele.

Mas o fato é que essas mensagens encontram um meio de expressão que é magnífico. O cinema que experimentamos com Takita é de altíssimo nível. Cinema de sonho e poesia na caracterização dos vôos e da musicalidade de Daigo, sugeridas por lindos movimentos que oscilam em contre-plongeé e plongeé, panorâmicas de paisagens que destacam tanto o abandono e a solidão quanto a beleza de um céu acolhedor. Também o acompanhamento delicado dos gestos dos personagens visando captar as intensidades muitas e nuances que indicam mutações incompreensíveis para eles mesmos, além dos simples e eficazes primeiros planos que apresentam as cerimônias de adeus de que participam Sasaki e Daigo, fazendo-as belas em sua pungência e carinho. Na há nada escatológico e desrespeitoso ou idealizador, mesmo na primeira experiência, esta sim marcada pelo horror e pelo nojo.

Cinema que não esquece de marcar o jogo que se põe na concretude das relações, como, por exemplo, mostrar sem qualquer hipocrisia que a entrada de Daigo na cena do trabalho que irá depois (mas só depois) se constituir na sua escolha é pela via financeira, assim como nas cerimônias de acondicionamento comparecem ódios e desesperos jamais ditos ou pensados, o que torna o enlutamento ainda mais necessário. Quando se trata de mostrar de perto, bem perto, o resultado do trabalho dos agentes a fotografia se mostra tão deslumbrante quanto na caracterização do clima lúgubre da casa de Daigo, monumento vivo de profundas dores e desamparos. Contraste importante será a cena final, belíssima em seu arranjo simbólico com a luz trazendo uma grande contribuição. Assim podemos pensar que o cinema habita esse ponto onde se inscrevem os afetos mais desconhecidos e intensos e as palavras que apenas balbuciam a força dos corpos.

Há outros encantamentos a reconhecer. A atuação do trio Masahiro Mataki, Tsutomu Yamazaki e Ryoko Hirosue. O primeiro interpreta Daigo numa composição que percebe a perplexidade do personagem aliada a uma corajosa maneira de enfrentar as questões que lhe acossam. As angústias mais pesadas são mostradas sem excessos, mas sempre com um grande respeito aos fatos as quais aludem. O segundo destaca a extraordinária serenidade de Sasaki, homem idoso e calejado que dá a Daigo um suporte que vai mais além do aspecto financeiro. Já Ryoko Hirosue como Mikka, mulher carinhosa e parceira, surpreende pela beleza expressiva, seja nos vários momentos em que acolhe maternalmente Daigo, seja quando revela sua face mais intolerante diante da esquisita profissão do marido. Na verdade todo o elenco vai muito bem.

Na seria possível encerrar sem falar da música ou, melhor dizendo, das músicas: a trilha original de Joe Hisaish simples e bonita, com um piano reflexivo (com uma pontinha de dor), as músicas de Bethoven, Brahms, e Bach, todas como uma função muito precisa na trama e um lugar importante na vida do personagem. Todas lindas.

Você quer mais motivos para ver “A partida” ? Bem, digamos que o filme tem momentos lacrimejantes, bem dosados, diga-se. Mas, com todo choro que poderá brotar em algum momento repentino, tenha certeza de que a grande chamada é para a vida, essa vida que temos todos os dias e que se faz mais bela quanto maior é nossa aceitação de sua permanente finitude.

Não perca!!

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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