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“À procura de Eric” de Ken Loach

“À procura de Eric” de Ken Loach

Foto: divulgação

Fábula pós-moderna sobre os poderes dos laços coletivos

Comentário do filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“À procura de Eric” de Ken Loach

Eric Bishop é um sujeito de meia idade, amargurado com sua vida atual, culpado com as conseqüências de suas escolhas no passado e com pouco dinheiro para cuidar da casa. Para piorar as coisas, tem que cuidar de dois adolescentes abusados, desorganizados (como tudo na casa, aliás) e, como se diz, metidos com (muito) más companhias. Uma filha do primeiro casamento lhe pede de vez em quando para cuidar da neta, ainda bebê e o trabalho de carteiro prossegue sem novidades. Para Eric tédio e tristeza, sem qualquer vislumbre do que possa ser o futuro, ao menos um futuro mais estimulante. Não sem motivo dirige seu carro na contramão até provocar um acidente - primeira cena, filmada de maneira primorosa com planos que destacam o alheamento do personagem, aliado ao desespero, e a trajetória inteiramente fora dos eixos do carro, filmada no acompanhamento da velocidade, mostrando com planos médios o aspecto desastrado da conduta.

Aí começa a fazer sentido o ponto principal do filme: cientes da situação delicada de Eric, seus companheiros de trabalho planejam ajuda-lo de alguma forma, trazendo para o centro da cena a solidariedade e amizade como recursos de sustentação para a solidão mortífera da ausência de horizontes e desencanto com a vida. Mas isso ainda não é tudo. Para a “recuperação” (bota aspas nisso!) ficar completa deverá entrar em cena alguém que está investido como ideal e capaz de despertar os mais intensos sentimentos de conquista e potência.

Então, esse ídolo funcionará como suporte dos questionamentos de Eric, ao mesmo tempo em que insistirá, como construção de sua imaginação (fantasia), a atravessar o real da vida de Eric, provocando efeitos inesperados. Só que este “fantasma” é ídolo de toda uma massa de torcedores do Manchester United, que aprenderam a admira-lo com seus goals e jogadas polêmicas (inclusive fora de campo): ele é Eric Cantona, atacante francês, um duplo de Eric (não bastasse ter o mesmo nome) capaz de tirar esse carteiro de seu marasmo e comodismo melancólico. Flertando com o realismo fantástico e próximo a uma certa linha da comédia dell’arte (com enquadramentos e planos que são precisos na caracterização das loucuras do personagem e das situações, suscitando o riso e um humor de certo modo acido), Ken Loach retira de uma estória banal como tantas outras, as ferramentas necessárias para dizer o quanto é empobrecedor o individualismo que nos assola nos dias de hoje. E, também, o quanto ficamos próximos de nos desumanizar quando admitimos passivamente os valores que daí derivam, como a brutalidade das (nas) relações e a ausência de movimentos criativos.

O desdobramento da trama inclui a aproximação de Eric com reminiscências pra lá de doloridas, atitudes de grande coragem e ousadia para defender a prole ameaçada pelo crime organizado e todo um processo que refaz para Eric (e para nós) a força daquilo que experimentamos com tanta intensidade nos estádios de futebol: proximidade erótica e laços fraternos, capazes de nos trazer amparo (mesmo que por breves instantes) e o conforto do laço forjado nos vários momentos que compõem a experiência do torcedor. Longe de ser um ópio do povo, o futebol com suas manifestações e efeitos pode ser um veículo de força coletiva. Porque não?

Seja como for, “Looking for Eric” fala de mais de uma procura. E também de mais de um encontro. O que se destaca é sempre múltiplo, nos desejos e modos de produzi-lo. Assim, o final, regado a uma hilariante cena de escárnio (como deve ser!) à brutalidade e bandidagem instituídas como solução para muitos segmentos da classe média, mostra que Eric, o carteiro, se aproxima, na simplicidade de sua estória, ao Eric, o ídolo: porque se põe a enfrentar as adversidades, como no melhor do futebol, com a molecagem do drible, a artimanha do passe e a ousadia do chute certeiro: o gol maior de Eric implica recuperar (desta vez sem aspas) a vida.

O roteiro é simples e bem construído, tal como a direção que economiza na dramaticidade para carregar as cores nos planos que fixam cada momento em que nosso (anti) herói se refaz, sempre sob os auspícios do ídolo. Sem muitas delongas e choros, a não ser aqueles que derivam dos grandes gols de Cantona. Que por sinal está muito bem como ele mesmo... (melhor ainda nos campos de futebol, com jogadas antológicas).

Os trabalhos de Steve Evets (Eric) e Stephanie Bishop (Lily, a primeira mulher) merecem elogios.

Que mais é preciso dizer para justificar a indicação? Aproveite. E lembre que ninguém precisa ser um Eric Cantona para realizar boas e belas jogadas. Sempre com o auxílio dos companheiros. Ken Loach nos diz que sem eles não há saída.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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