Comentários de filmes

FILMES

"A QUESTÃO HUMANA" de Nicolas Klotz

A QUESTÃO HUMANA de Nicolas Klotz

Foto: divulgação

Despojamento e ousadia na leitura dos encontros forjados na solidão

Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Durante todo o desenrolar da história contada em “La question Humaine” (título original) coloca-se a discussão, sempre atual e importante, sobre o surgimento e a aplicação de determinados conhecimentos, os jogos políticos nos quais estão enredados e as conseqüências disto para a vida concreta das pessoas (inclusive aquelas que estão autorizadas a praticar esses conhecimentos). No caso, trata-se do trabalho de um psicólogo de uma poderosa multinacional alemã, chamado a desenvolver técnicas variadas com o objetivo de aumentar a produtividade e motivação dos profissionais envolvidos, além de executar ações no sentido de enxugar o contingente de funcionários, com vistas a facilitar a recuperação financeira da empresa. Tudo parece funcionar a contento, muitos funcionários são demitidos e a produtividade desejada é retomada. Simples assim. Mas, não, as coisas não seguem este trajeto. Há uma rede de intrigas e de outras histórias que atravessam essa cômoda versão para os fatos. Aí começam a surgir outros interesses, alguns inconfessáveis...

O psicólogo Simon é chamado a investigar seu superior Mathias Jüst e oferecer uma “avaliação psicológica” que deve servir de suporte para uma estratégia de desmontagem do poder e influência de Jüst. Simon não se furta a esta tarefa. Contudo, os procedimentos que desenvolve bem como a proximidade com Jüst levarão Simon a descobertas que o confrontarão com horrores, sejam os que dizem respeito à função do seu trabalho, sejam os que remetem a experiências dolorosas de outros agentes, tão recalcadas quanto os fatos (históricos) que só aos se tornam compreensíveis.

Não bastasse isso a vida afetiva de Simon é singrada por encontros que o retiram da estabilidade a ele imposta por conta se seu cargo e imagem profissional. Simon vê sua identidade se espatifar diante de exigências que vão desde a investigação cada vez mais tormentosa das intrigas até o reconhecimento de alteridades insuspeitadas em si mesmo, fato que se apresenta com todo o colorido trágico na paixão “enlouquecida” e impotente pela cantora Louisa. O destino desse percurso o conduzirá a rever e de maneira radical seus atos, afetos, crenças e identidade profissional, aproximando-se da possibilidade de realmente humanizar-se.

Concebido simultaneamente como suspense e como crítica aos modos de produção social (leia-se exercícios de poder) que se baseiam na exclusão e até no extermínio das diferenças, “A questão humana” traz a questão da neutralidade do conhecimento (dito) científico como um dos seus pilares. Como podemos acompanhar nas falas de um de seus mais importantes personagens (Arie Neuman), o exercício de poder que exclui e mata (embora nem sempre de forma direta e explícita) se apropria de tudo aquilo que constitui o campo das relações humanas, desde a linguagem e os sentidos que ela impõe até o conjunto de regras e leis que permeiam os diversos encontros. A artimanha da neutralidade e do apoliticismo serve invariavelmente à violência e à brutalidade, como nos indicam as referências ao nazismo. Ao final, resta a exigência de desconstruir as certezas dos saberes, inclusive para não cairmos na armadilha da eficácia e da performance a todo custo. Simon perceberá que a eficácia de que tanto se orgulhava e que o situava num patamar de destaque na empresa possuía raízes muito pouco nobres.

Este último trabalho de Nicolas Klotz, baseado no livro de François Emanuel (mesmo título) prima pela dignidade na construção dos personagens e pela grande delicadeza com que elabora as imagens, lentificando-as para que possamos captar a densidade dos personagens, situações e momentos – menção honrosa para o roteiro de Elizabeth Perceval. Há também uma fotografia que respeita o andamento da história, carregando em tons lúgubres e contrastes magníficos os campos expostos. Além disso, as tomadas de cena têm o mérito de apresentar os conflitos e as diversas afetações de modo a convocar cada expectador a participar sem tréguas da reflexão que é proposta. Sem deixar de lado o clima de suspense.

Finalmente, é mais do que justo fazer muitos elogios a todo o elenco – Mathieu Amalric (Simon), Michael Lonsdale (Jüst) e a bela Laetitia Spigarelli (Louisa) em primeiro plano. Todas as interpretações estão no ponto. Assim como a música, angustiada e carnal.

Assim, este filme consegue impactar e nos conclamar à discussão de temas extremamente difíceis, sem que precisemos abrir mão do prazer do entretenimento.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

Poste um comentário

Navegue por NossaDica

Copyright © 2007 • Nossadica • Todos os direitos reservados • Mapa do siteWebMasterHostDica Serviço de Internet