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“A TROCA” de Clint Eastwood

A TROCA de Clint Eastwood

Foto: divulgação

Suspense e drama na moldura de luta heróica contra os podres poderes

“A TROCA” de Clint Eastwood

Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Apaixonante na caracterização da mãe que não desiste de procurar seu rebento. Óbvio no desdobramento das cenas que mostrarão a perversão da polícia e de uma parte do poder médico a ela associado. Elegante no modo de tratar a rede de poderes que se atravessam e se conflitam em torno do caso de Christine Collins. Violento ao explicitar o destino das crianças seqüestradas e expor a perversidade que as cercou. Cada uma dessas idéias poderia ser aplicada a “The Changeling”, trabalho mais recente do premiado diretor Clint Eastwood. Contudo, o mais desconcertante neste filme é que todas elas juntas também se aplicam, deixando no espectador a sensação de um excesso de abordagens, cuja riqueza corre o risco de perder-se pela ausência de um olhar mais próximo e específico a alguma delas.

Ainda assim, o filme encanta e prende a atenção até o final, quando até mesmo o suspense se esgotou.Porque?

Em primeiro lugar o tratamento dado ao sofrimento e à insistência da “mãe coragem”. Aqui, para além de alguns clichês nas marcações, diálogos e destinações da personagem (poucos, é verdade), se põe a idéia de que a positividade de uma luta no campo social não requer que seu objetivo final seja literal e absolutamente alcançado. Os caminhos trilhados a partir do momento em que se decide ir adiante, não se submetendo às imposições mesquinhas e chantagens perversas, são múltiplos e desafiadores em relação aos esquemas que supõem a obediência e submissão como destino do cidadão comum.

Deste ponto de vista o trabalho de Eastwood possui um traço épico, cativando a todos na ótima fotografia, capaz de traduzir a melancolia e o ódio dos tempos (não apenas de Christine Collins) e das pessoas que se cruzam a partir do caso. Há também, como proposição que alicerça o percurso de alguns personagens, o valor da esperança como alimento cotidiano para suportar as argúrias e imaginar (antever) um mundo melhor.

Em segundo lugar, o andamento da trama que chega nos seus principais momentos a se parecer com um thriller, dadas as várias conexões que vão se fazendo nos jogos dos poderes e as revelações factuais do conluio perverso que sustenta (até involuntariamente) a brutalidade contida no desaparecimento das crianças (não apenas o filho da protagonista). A reviravolta via justiça, com jeito de vingança do bem que acontece próxima á parte final, é captada em sequências ótimas, com uma velocidade e concisão admiráveis. Não cansa e prepara os pontos derradeiros nos quais se apoiarão as cenas finais.

Dessa maneira, o filme afirma uma estética em que suspense e ação se combinam, sem prejuízo da reflexão que perpassa a história (real, mas nem por isso sem uma leitura ética e imagens adequadas a ela).

Para apimentar ainda mais essa receita temos uma ótima atuação do par Angelina Jolie (Collins) e John Malkovich (o reverendo que combate a polícia e a corrupção, e que se torna responsável direto pela volta por cima de Christine). Ela, demonstrando a maior parte do tempo o semblante sofrido mas igualmente batalhador e ousado que marca um dos motes da história. Ele, preciso na sua pungência e nas marcações faciais e de voz que especificam alguém que funciona ao mesmo tempo como pastor e político, sem abrir mão de explicitar isto aos seus “fiéis”. O resto do elenco funciona de maneira aceitável, sem destaques nem deslizes.

Digamos que o roteiro (a cargo de J. Michael Straczinski) e a direção se combinam e afinam-se em torno do projeto de mostrar uma realidade dura que pode ser enfrentada pela garra e a esperança, mesmo quando esta última se mostra factualmente infundada. Além disso, algumas tomadas de cena relativas ao clima de horror que se instaura em algum momento e à perseguição policial em toprno do desaparecimento das crianças são bem feitas, o mesmo valendo para a reconstituição de época. A música, do próprio diretor é simples e bonita, retratando bem a afetividade soturna que paira sobre a personagem.

Por tudo isto “A Troca” é um bom filme e merece ser visto. É mais uma prova de que Clint Eastwood ainda tem vigor para contar histórias que nos afetam e obrigam ao debate.

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