Comentários de filmes

FILMES

"A ULTIMA AMANTE" filme de Catherine Breillat

A ULTIMA AMANTE de Catherine Breillat

Foto: divulgação

A paixão dos corpos vista com proximidade

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

A Última Amante

• No debate que se seguiu à apresentação de “Une Vielle Maîtresse” na pré-estréia ocorrida na mostra “Panorama de cinema Francês” ocorrida no final de junho, Catherine Breillat em resposta a uma das questões que versavam sobre as cenas de nudez e os temas tratados no filme, observou que um aspecto crucial da trama refere a personagem Vellini, possuidora de um estilo erótico (flamenco) arrebatador, como alguém que se encontra com uma estética que a situa como feia, porque sem medida e/ou fora dos padrões de beleza exigidos por uma certa aristocracia. Podemos tomar essa idéia como ponto de partida para pensar na proposta estética da própria Breillat, posto que em muitos aspectos ela não comunga com uma estética mais conservadora para falar nem tanto de sexo, mas do erotismo (sobretudo quando este alcança as raias do enlouquecimento) numa sociedade que, hipocritamente ou não, elege como medida de beleza e razão o recato e o pudor.

Trazer para a discussão a questão do que é belo e o que é feio e a(s) racionalidade(s) que presidem estas opções não é a único desafio trazido neste ótimo trabalho. Também somos instados a discutir questões que s encontram na “pré-história” dos valores e crenças que ainda hoje nos acossam quando se trata de fazer escolhas que orientam os encontros amorosos. Se hoje nos parece excessivamente simples o modo binário de relacionar paixão e amor, razão e desrazão, belo e feio, normal e anormal, que o filme retrata nos diálogos (muito bons) dos personagens, é necessário prestar atenção nas entrelinhas das falas e dos gestos para nos darmos conta dos movimentos que quebram as linhas mestras do tradicionalismo. Elas são igualmente bem retratadas no modo como cada um dos personagens vive sua condição paradoxal: afirmativos de uma certa lógica de existência - na qual não parecem acreditar muito, diga-se de passagem – e destruidores das certezas mais imediatas e naturalizadas do puritanismo burguês.

Assim, quando Rigno de Marigny, tido e havido como libertino e mantendo uma relação de 10 anos com a devassa Vellini resolve pedir em casamento a casta e pura Hermangarde, provocando espanto e até um certo horror nas famílias “de bem” parisienses, temos uma indicação clara dos efeitos da vigilância do poder sobre a sexualidade assim como as maneiras pelas quais as reviravoltas são operadas no seio desse mesmo dispositivo de poder. Aí encontramos o poder da confissão ao lado de um inusitado jogo voyeur-exibicionismo, a expressão do descontentamento com a opressão da mulher ao lado de um ritual permanente de submissão aos valores dominantes e católicos, a desconstrução de um certo congelamento das imagens que tipificam os atores sociais ao lado das tentativas de manutenção de identidades e afirmação de estratégias que as fixam.

Marigny é um “libertino” que pouco a pouco se vê capturado numa teia da qual não consegue se livrar, experimentando uma repetição demoníaca e assustadora no encontro com vellini. Esta é uma “devassa” que além dos poderdes adquiridos junto aos homens (pouco se importando até com sua condição marginal) vive no limite das intensidades carnais que a alimentam, sobrepujada e aprisionada pela sua paixão por Marigny, a ponto de não mais exercer a própria devassidão a ela atribuída. Hermangarde, produzida para ser a doce e pura mulher do lar, aos poucos desenvolve (não sem sofrimento) uma importante crueldade e senso de oportunidade (para os quais é ensinada pela Marquesa de Flers) nos eternos embates do enlace matrimonial. O entorno desses personagens representa toda a sociedade na qual eles podem viver e dar sentido aos seus atos. A questão é saber se esses sentidos dão conta das experiências.

O mais forte dessas encenações que situam com tanta argúcia alguns emblemas e desconcertos do século XIX está no modo como a diretora se põe a filmar os encontros (sexuais ou não). Sua opção de filma-los bem de perto (especialmente nas cenas de nudez) com uma temporalidade avessa ao estilo clipe e um enquadramento que deixa espaço para a emergência da intimidade e carnalidade mais explícitas, produz um efeito intenso e aguça a sensibilidade. A câmera não está de fora dos acontecimentos, representando uma história de paixões de todo tipo, ela se encontra lá, em cada respiração, na pele, nos olhares e falas doloridos, nos movimentos de êxtase, nos sofrimentos e ódios, nos arroubos que misturam erotismo e morte. Por isso, às vezes um desconforto, convocados que somos a testemunhar não a nudez formal dos corpos, mas suas intensidades e movimentos fora de uma beleza idealizada.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

Poste um comentário

Navegue por NossaDica

Copyright © 2007 • Nossadica • Todos os direitos reservados • Mapa do siteWebMasterHostDica Serviço de Internet

f