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Reflexões de um Psicanalista

A VENDA DA CASA

Por Sergio Rossoni
publicado em 20 de junho de 2008

Outro dia fui almoçar a convite de um grande amigo de infância na velha padaria do bairro. Durante o almoço, meu amigo começou a contar sobre o processo de venda da casa onde morou com sua família na infância, demonstrando certo cansaço mental. Órfão de mãe e agora de pai, meu amigo juntamente com seus irmãos colocaram a venda o tal imóvel, e eis que ele com sua impetuosidade e dinâmica, acabou assumindo a posição de intermediar a venda. Difícil na verdade estava intermediar as negociações entre os irmãos. Daí nosso almoço partiu para a discussão desta difícil relação entre pessoas vindas de uma mesma barriga.

No inicio se fez a luz.....e nasceu um bebê tão aguardado por um monte de gente eufórica e entusiasmada com sua chegada, fazendo sons estranhos e caretas em volta deste pequeno ser que ainda não percebe o mundo como algo diferente dele, pelo contrário, o percebe como sua extensão, sendo tudo a sua volta uma única coisa: Ele!

Logo, entra em cena a figura mais importante da sua vida: A mãe! Aquela que alimenta, protege, dá amor, etc, tornando-se seu universo, ou seja, tudo aquilo de que necessita.
Num próximo momento, o bebezinho começa a perceber e distinguir o mundo a sua volta. Este já não é uma extensão do seu próprio corpo, mas sim, criado para servi-lo. Logo, a mãe, bem como tudo a sua volta torna-se posse sua. Todo amor do mundo, toda atenção, lhe pertence. O bebezinho torna-se o centro de seu próprio universo. Até ai, tudo corre perfeitamente bem dentro do processo de desenvolvimento do ser. Todos nós passamos por este período que chamamos de narcísico, evoluindo em seguida para novas etapas. Freud escreveu sobre este processo em seu trabalho de nome “Sua majestade o bebê”. Particularmente, acho que este titulo traduz muito bem este estádio em que todos nós passamos, sendo absolutamente normal e necessário ao desenvolvimento do ser. Claro que nem tudo é tão simples assim, e algumas pessoas acabam por se fixar neste estádio, desejando ser eternas majestades bebês.

Imagine você bebê, neste período, detentor de todo o amor da mamãe, a atenção dos familiares, o carinho do papai, enfim, onde você exerce sua função de majestade o bebê, e de repente, do nada, a barriga da mamãe começa a ficar grande, surge um papo sobre cegonha e tudo o mais, e algum tempo depois, eis que para seu espanto, um novo ser surge dentro do seu reino.
Para piorar a situação, este ser é trazido para dentro do seu reino carregado pelos braços daquela que lhe deveria servi-lo exclusivamente. TRAIÇÃO!
Surge um sentimento de traição por parte da mãe tão querida e agora tão odiada. INVASÃO! – O novo ser parece querer se apossar de tudo aquilo que até então era meu!meu!somente meu! Minha mãe, meus brinquedos, meu quarto, meu bercinho, até mesmo aquela tia chata que vive me apertando as bochechas e que também era minha. O mundo começa a ser dividido. Para piorar tudo, ainda sou obrigado a amá-lo. Passado o susto, aos poucos o bebê percebe que sua adorada e odiada mãe continua lhe dando atenção, amor, carinho, não mais como antes, porém continua presente. Agora é preciso adaptar-se a uma triste realidade. Eu não sou mais o centro do universo! O amor da mamãe é dividido entre os irmãos, bem como o carinho do papai. O mundo é dividido entre os irmãos. Um reino foi dividido. Mas eis que surge um sentimento que promete um retorno seu a este reinado perdido: “Vou provar que sou melhor do que este ladrãozinho barato, e terei meu reino de volta!” - Começa então aquilo que conhecemos por competição.
E nesta guerra cuja disputa é somente o universo, algo vem para amainar os ânimos, apaziguar as agressividades. O amor materno. Graças a Deus o amor de mãe é imenso, não deixando nenhum de seus filhos se sentirem desamparados. De vez em quando, a balança pode pender para o lado de um, ou do outro, mas lá vem a mãezonha, trazendo a macarronada naqueles almoços dominicais, com sua sabedoria e paciência, e haja paciência, para equilibrar a balança, fazendo todos se sentirem amados e queridos.

Geralmente, quando tudo dá certo, irmãos se relacionam bem. Podem até mesmo não ser amigos do peito, mas se respeitam e se gostam como irmãos. Aliás, amigo é amigo. Irmão é irmão. Irmão pode ser amigo. Amigo pode ser irmão.
Contudo, um sentimento de competição segue guardado inconscientemente entre aqueles que um dia disputaram e ainda disputam por um reino perdido. Esta disputa pode continuar ao longo de uma vida, brigando pelo melhor emprego, a atenção de amigos em comum, atenção dos pais, o melhor carro, a melhor roupa, o melhor marido, a melhor esposa, o melhor time, que vença o melhor, etc.
A competição se expande entre amigos, chefes, colegas, esposas, enfim, e procuro afastar de mim qualquer coisa que represente uma ameaça. A ameaça de perceber que eu não sou o centro do universo. A ameaça de perceber que ser detentor do poder é uma ilusão. Mas podemos carregar para sempre esta sensação interna. A necessidade de competir. Reclamar por um reino um dia perdido. O difícil é perceber que tudo não passa de uma fantasia interna.
Não existe reino nenhum. Todos nós somos seres idênticos. Não existe super homem, nem mulher maravilha. Querer ser superior é algo fantasioso. Superior a quem?
Dono do mundo, dono do amor materno, dono do poder. Tudo isso não passa de fantasia narcísica.

Neste ponto, o caçula é aquele que já nasce levando patada do outro por apontar uma desilusão narcísica. De cara, ao nascer, mostra ao outro que tudo aquilo que um dia acreditou não passa de uma ilusão.
Crescemos, nos tornamos adultos e continuamos com este desejo interno de sermos os melhores, detentores do poder, os maiorais, o mais bonito, o mais astuto e inteligente, o mais amado, etc.
Continuamos a disputar com o irmão, com o amigo, com o mundo, utilizando ferramentas diversas: títulos, MBA, times de futebol, competições esportivas, etc. Cada vez que meu time ganha do outro, vem a satisfação do vencer. Vencer algo ou alguém. O importante é vencer! Eu venço através do futebol, dos títulos, da namorada, do carro, dos amigos, do salário, venço, venço, venço, venço. Infelizmente vivemos um momento narcísico tão grande em nossa sociedade que podemos observar a nova geração ser preparada para lutar e vencer. Vencer o que mesmo? Ah, vencer na vida! A ilusão é coletiva.
Triste é perceber o quanto de nossas vidas nos dedicamos a uma luta que somente existe em nossa cabeça. Vivenciamos situações que geram angustias e que não são reais. Morremos muitas vezes por uma fantasia, e muitas vezes somente percebemos isso no final do caminho. Doce ilusão. Não existe o tal reino perdido. Quanta paulada eu dei e também tomei para ter um poder que nunca existiu. E a mãe.....continua a sorrir, percebendo isso tudo. Procura dar um abraço em cada filho aguardando o dia em que também perceberão. Viva as mães e as macarronadas no domingo.
Irmão é irmão. Pode ser amigo. Pode ser irmão. Pode ser amigo irmão.

Sergio Rossoni é Psicanalista, Músico e Escritor
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