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ABRAÇOS PARTIDOS

 ABRAÇOS PARTIDOS

Foto: divulgação

Paixão e ousadia em estória que homenageia o compromisso com a arte e a vida

Comentário do filme

“Abraços Partidos” filme de Pedro Almodóvar

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

Os filmes de Almodóvar são sempre um corte na carne. Repletos de loucuras e cores, afetações de todo o tipo – inclusive aquelas menos conjuntivas, como o ciúme, a inveja e os mortíferos impulsos de vingança -, volteios nas ações de maneira a exprimir ora o dilaceramento dos personagens, ora seu abandono diante dos traços inefáveis do desejo e do corpo, racionalidades que desafiam o mais fino rigor cartesiano. Tais caminhares seduzem e capturam não por mostrarem e demonstrarem teses voltadas ao elogio do bom comportamento e da vida sóbria, mas por insistirem na tecla de desmontagem das arrogâncias contidas numa certa padronização do amor e do sexo. Tanto é assim que o velho Almodóvar nem se preocupa em disfarçar a veia folhetinesca e até brega das tramas.

Brega? Folhetinesco? Qual o quê! Ao fundo de todo esse exercício de estranhos/óbvios encontros e expansões/dispersas dos personagens é ao trágico humano que chegamos. Cada um se experimenta a um só tempo companheiro sagaz e inimigo mortífero de si mesmo, e, numa empreitada onde é a própria vida que se presta às apostas de risco, alcança um dizer verdadeiro quando afirma a urgência de continuar, ainda que as dores e limites do corpo se mostrem fardos difíceis de suportar.

Dizer a palavra que respeita o transitar em estrada tão equívoca exige o silêncio necessário, longe das demasiadas justificativas e vazias interpretações. Por isso, neste como em outros filmes, o ato de fala é singrado nos gestos quase imperceptíveis, nos gritos e suspiros que embaralham, mais do que favorecem, a comunicação. No mais é o jeito de contar uma estória com graça e bom humor, qualidades que jamais faltaram ao mestre.

É interessante observar os triângulos que vão aparecendo e conotando tempos que retornam e permanecem, insistem e exigem tomadas de posição diferentes. Triângulos que se encaixam em alguma linha, intensificando a estórias e provocando surpresas no espectador (até mesmo nos personagens, cuja consistência maior está em viverem o fiapo de razão que os mantém com a noção exata da proximidade da morte). Triângulos e duplos, como Mateo Blanco/Harry Caine, esse mais explícito e conduzindo a trama, mas também Lena com suas várias faces, e também Judit com seus segredos...

Pode-se dizer que todas as linhas dos triângulos dialogam com o duplo, por vezes assustador, por vezes cômico, sempre presente e inevitável. O ritmo imprimido por Almodóvar não dá descanso, seus enquadramentos, mesmo os mais tradicionais, sugerem a presença da gota d’água que pode a qualquer momento transbordar. O modo como filma os rostos, no limite de um extenuante embate com os impulsos e convites ao absurdo, é belo. O jogo de imagens que se repetem para dizer algo nunca dito, que se apagam para permitir o surgimento de outras inesperadas, que se abrilhantam para destacar uma penumbra ou a beleza de um pedaço de corpo afetado, deixa perceber uma concepção de cinema muito próxima dos enlouquecimentos e tragicidades dos encontros. Ao final, não há nada de mirabolante nas soluções da trama e dos focos, “apenas” a simplicidade de filmar com cuidado o movimento de criar, na arte e na vida.

Almodóvar conta com grandes “coadjuvantes”. Como os atores, que a exemplo de Penélope Cruz (Lena) e Lluís Hornar (Mateo/Harry) se jogam inteiros nas viagens dos personagens, e o compositor (Alberto Iglesias) que capta a fina trilha de emoções que circulam em todos os instantes. Na verdade tudo é bonito (precisa dizer da fotografia?) e bem cuidado. O roteiro é bem construído a ponto de se dar ao luxo de quase fazer um filme detetivesco, para além dos outros enlaces que desnudam tipos bem exóticos.

Ninguém precisa pensar que se trata de uma obra prima, nem que se trata de alguma nova proposta estética na carreira do diretor. Mas está muito além da média, claro. Basta conferir. É Almodóvar, ponto final.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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