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COMENTÁRIO DE FILME

“Aconteceu em Woodstock” de Ang Lee

ACONTECEU EM WOODSTOCK

Foto: divulgação

Adorável passeio pelos microterritórios de uma revolução

“Aconteceu em Woodstock” de Ang Lee

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

Dizer que o evento Woodstock - com tudo o que significou em termos de mudanças de costumes e abertura de novas formas de linguagem - habita um lugar especial na história contemporânea tornou-se lugar comum. Contudo, após tantas leituras e releituras desse movimento, segue-se uma certa melancolia, em grande parte pela desconfiança de que a chamada contracultura (que teve outros marcos no final dos anos 60) foi engolida e esmaecida em sua força, chegando a habitar o imaginário atual nos seus aspectos mais caricatos e medíocres, ligada ao uso e abuso de drogas pesadas e a uma certa ingenuidade na concepção do amor e do sexo (ditos) livres. A ponto de, muitas vezes, lhe atribuirmos um ar de despolitização e descompromisso, rapidamente recuperado pela cultura de massas e pelo sistema oficial. O filme de Ang Lee, sem pretender qualquer revisionismo, à esquerda ou à direita, resgata o ouro perdido dessas experiências, sinalizando o que há de balbuciante e incontrolável em tudo que diz respeito às transformações que afetam o modo de viver, sentir e pensar.

E isto acontece no melhor estilo que Ang Lee desenvolve: apuro nas imagens e nos movimentos que dão a ver os detalhes paradoxais das vivências dos personagens (estes aqui bem reais, diga-se), descrição delicada do contexto histórico-cultural que dá (algum) sentido aos diversos atos que compõem a trama, sensualidade ao mostrar a trajetória dos corpos e dizeres que encontram sua maior beleza na dissimetria e no abandono das certezas e comodidades. Ao final percebemos que aquilo que realmente importa no cinema de Lee está muito próximo de uma observação de Maurice Blanchot, quando diz que na vizinhança da alegria e plenitude da imagem está o vazio.

Assim, ao fazer uma descrição que é também uma leitura, e sugerindo questões sem dispensar os fatos, “Taking Woodstock” (no original), traz como recurso do pensar a consideração pelo que se produz de importante nos bas-fonds, enfocando a perplexidade de pessoas simples no transitar a um novo cenário, os interesses comezinhos e nem sempre confessáveis que se situam no limiar de grandes experiências, as singulares e indispensáveis fricções entre sanidade e loucura na busca de novas dimensões para a realidade (referência respeitosa ao uso de drogas como recurso de transformação e construção de laços, algo que hoje se perdeu quase inteiramente).

Tudo isso funciona junto com a insistência conservadora, e há espaço para todos, numa grande mistura de valores e expectativas. Daí surgem tipos que convivem. Diferentes, bizarros, incongruentes, mesquinhos, desbundados (claro!), perdidos (porque não?). Woodstock é tudo isso, produzido nas relações cotidianas, desde as complexas questões de produção do evento, até as políticas que surgem entre os pequenos grupos (familiares inclusive), que exercem suas propostas e cantos.

O roteiro é delicioso, especialmente nos diálogos e sequências que permitem captar a atmosfera de encantamento e descoberta que atinge a todos. Os atores estão ótimos, com a grande Ismelda Staunton, excepcional como a mãe judia, ultraconservadora, que também alcança seu momento doidão, e Liev Schreiber, como o travesti de vanguarda que cuida da ordem (!) de um pequeno espaço da família Tiber, destacando-se dos demais. A fotografia, afinada com os tons psicodélicos ajuda a recriar as muitas viagens que os personagens vivem. Assim como a música.

Da direção pode-se ainda dizer que demonstra um enorme carinho por Woodstock. Não o evento idealizado e até empobrecido após tantas menções, mas ao acontecimento que também em seus bastidores inventou e ajudou a inventar muitas verdades que a pós-modernidade ainda não conseguiu calar.

Vá ver, leve os filhos. Vale a pena.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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