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ÉTICA - ENSAIOS SOBRE EDUCAÇÃO FÍSICA
SAÚDE SOCIAL E ESPORTE

ÉTICA • Angelo Vargas

Foto: divulgação

Por Angelo Vargas

Apresentação

Os fatores que impulsionaram este livro de ensaios estão fortemente alicerçados no compromisso do Profissional de Educação Física com a promoção de dignidade humana e o compromisso com a qualidade de vida. Sendo a saúde considerada um bem público e a Educação Física um direito de todos, torna-se imperativa a intervenção (desse profissional) em favor da saúde individual e social/pública. Trata-se fundamentalmente de uma questão de ética. Para mais informações acess.

Angelo Vargas

• Professor de Educação Física
• Mestre em Educação
• Pedagogo
• Doutor em Ciência da Motricidade Humana • Advogado

Educar e Informar: Conflito e ética na sociedade contemporânea.

Corpo e Metafísica

“Por mais que me negue, me abstraia e tente ignorar minha presença no mundo (num dado instante, num momento da vida, na dor, na tristeza...) o corpo jamais foi meu cúmplice... Pelo contrário, ele testemunha contra mim. Seu depoimento: incessante, falante, bradante, armado e convincente sufoca meus argumentos e me condena ao veredicto da vida: sentir, compreender e transformar. Todavia, longe de ser um déspota, o corpo é um aliado no campo de batalha da vida social. Ele me conduz a convivência, as trocas, a notar e ser notado. Fiel a minha instância sensível, ele sente comigo o torpor da paixão, me leva a vertigem do amor e me conduz a transcender as fronteiras do risco; com ele sorrio, choro, tenho prazer e enxugo as lágrimas e mais, sinto o sorriso e sinto as lágrimas. Não há como negar, o corpo sou eu e meus pares são como uma espécie de espelho – a certeza de que ocupo um lugar no espaço e no tempo.”

(Vargas in “Sonata Noturna”, 2007) “Aqui, tudo é caminho de um co-responder que escuta e questiona. Todo caminho corre o perigo de desencaminhar-se. Para percorrer tais caminhos é preciso exercitar o passo. Exercício pede trabalho, trabalho de mãos. Permaneça no caminho da autêntica necessidade e aprenda, nesse estar errante a caminho...” (Heidegger, 2002)

I) Preâmbulo

Vivemos tempos difíceis em que valores alicerçados nas tradições não encontram abrigo no complexo axiológico contemporâneo. Critérios como espaço e tempo sempre foram, inequivocamente, os balizadores dos conceitos de moral e ética. Todavia, na história da humanidade, passamos por várias revoluções e guerras que abalaram so pilares de sustentação sócio-políticos e hoje num misto de revolução pós-industrial e pós-cibernética edificamos valores numa revolução digital que vislumbra a própria vida como um “mero acaso” virtual. Onde chegaremos? Seremos capazes de criar normas de controle daquilo que não é controlável? Como se manifestarão corações e mentes diante de uma realidade virtual em que as fronteiras do passado, do presente e do futuro se fundem num momento gigabyte? Onde estarão os nexos de direitos e deveres que resguardam a nossa privacidade no meio de uma internet cuja rede de comunicações transcende os significados daquilo que aprendemos a compreender como público ou privado? Como controlar a fusão daquilo que ontem fazia parte do nosso acervo pessoal (com todas a nuances, técnicas, tradições, costumes, sentimentos) e hoje torna-se por via das comunicações que transcendem a privacidade em aporte de domínio público? Não sabemos; contudo é mister que continuemos a caminhada rumo ao futuro que até então nos vislumbra como uma aporia: paramos ou continuamos? E ainda nos obriga a experienciar no presente uma antinomia: ao irmos em busca do máximo de controle do cosmos que nos rodeia encontramos, até então, o máximo de descontrole de nossas próprias possibilidades. Neste mundo de mega e gigabytes, a história está diluída na realidade presente, extremamente pragmática e desprovida de cultura; as instituições desmoronaram e dos seus escombros forjam-se valores que em nada se coadunam com o passado que nos ajudou a construir o presente. Contudo, é mister perceber que não procuramos o suicídio da espécie (numa hecatombe virtual e real), mas a sua perpetuação. Neste quadro de descontrole procuramos trazer a vida um homem novo, e este quem sabe “homovirtualis” precisará de uma nova ética como uma forma que lhe garanta o mínimo quem sabe de oxigênio para sobreviver.

II) O conflito

É possível ensinar ética? Eis a grande questão e a insofismável aporia do professor universitário. Como transmitir valores que possibilitem a compreensão por parte do aluno do que significa equidade, respeito as diferenças e dignidade humana?

Para Santos (2006) ética não se ensina, principalmente no sentido tradicional do repasse e da produção dos conteúdos e informações formatadoras de condutas. E assevera a autora ao citar Do Valle (2001): “ética não resulta de ensinamentos elaborados e teóricos, mas da prática, é, como podemos verificar de imediato, crucial para a educação, muito embora contrariamente ao que ocorreu entre os gregos do período democrático, nossa época a tenha quase relegado ao esquecimento”.

Em busca de uma síntese com objetivos didáticos, nos atrevemos a definir Ética como a ciência da moral, cuja lógica e estatuto encontram-se alicerçados na filosofia.

Na lição de Do Valle (2003) é possível depreender que a Ética para se constituir em ciência, não deve, portanto, limitar-se aos simples sintomas, às meras aparências. Deve ir às causas. E para ir às causas, deve, sem dúvida, estudar primeiro o que é ethos. Ética portanto é a ciência do Ethos; e o que os pensamentos antigo e moderno têm em comum acreca da ciência? Sentencia Aristóteles: “Scienta est cognitio per causas”. Assevera Bacon: “Vere scire est per causas scire”. Destarte, cabe aos professores que não concebam a palavra como um mero aglutinado de sons mas seus, como algo que tem essência cuja gênese está no espírito do processo civilizador.

Vale lembrar que como ciência a ética tem na moral o seu objeto de estudo. E o que significa moral? É possível depreender como complexo axiológico de uma sociedade (resguardando valores positivos e negativos) e portanto tem como condição suprema as variações no tempo e no espaço. Cabe portanto, à ética, como ciência, identificar os valores positivos para um determinado contexto de atuação humana, seja ele profissional ou não. A pergunta portanto ao clímax da ciência é: “o que é moral”? a resposta então será um resultado fidedignamente ético, já que, antes de ser concebida como resposta, ultrapassou os ritos metodológico sob o prisma da temporalidade e do espaço.

III) Ética profissional no magistério superior

Para Drummond (2004) a ética é uma condição essencial do ser humano porque ele é dotado de razão e livre arbítrio. Este ethos é essencial para balizar a conduta, faze-lo conhecer princípios universais e contribuir para a harmonização da relação entre pessoas e povos, promovendo a solidariedade e, por fim, laborando pela preservação da própria espécie humana no planeta que nos abriga.

Não basta ao professor deter informações. É mister que a transmissão destas seja feita sob a luz da ética que se consagra no discurso do interventor. É no discurso portanto que estarão consagrados os princípios da moral do ato de educar.

Ainda em Drummond (2004) aprendemos que a identificação de um rol de valores que possam ser adotados por diferentes pessoas, grupos sociais e povos, terá sempre como premissa que o agir ético significa a consciência da própria existência e a consciência da existência de outras pessoas, que se acham em permanente relação dialética, além da consciência da existência dos demais seres vivos e das coisas. Ser ético é, primeiro, cuidar de si, para promover uma existência digna; depois, cuidar dos outros por meio de uma convivência solidária, exercendo a liberdade como um direito fundamental e a responsabilidade como consciência dos atos praticados, conhecendo e reconhecendo os limites da própria liberdade. Assim, o ser humano ético permanecerá leal a si mesmo, ou seja, coerente e merecedor da dignidade de sua própria vida.

Todo exercício profissional exige técnica (conhecimento teórico) e competência (rol de conhecimentos respeitantes à aplicação prática da teoria). Destarte exige do profissional uma determinada predisposição de caráter, um pendor ou uma vocação que não se restringe apenas às possíveis qualidades técnicas, mas também à uma convicção pessoal e social de quem vai atuar.           Portanto o exercício profissional deverá estar fundamentado em três sustentáculos: (Drumond, 2004):

I – A técnica: aquilo que se assenta na formação científica e cultural, originada de um conhecimento específico ou particular da ciência, que podemos denominar LEXIS ARTIS.

II – Aprimoramento profissional: significa a atualização permanente da técnica, demandada de modo constante pelos avanços do conhecimento da própria técnica.

III – A ética (stricto senso) profissional: constitui um conjunto de valores morais aplicados especificamente à prática de um ofício.

Isto posto, qual a função dos códigos de ética profissionais? Eles passam a constituir, sobretudo, o mínimo de codificação exigível a um âmbito laborativo num determinado contexto social. Visam resguardar pelos princípios da diceologia e da deontologia o bom senso na aplicação das técnicas, condição fundamental para a observância da dignidade humana.

II) Conclusão

A ética não suporta conclusões. Ela é um constante processo de aperfeiçoamento desta continuidade vagante, errante e mutável que é o ser humano. Em Sergio (2004) aprendemos que:
“...o ser humano concentra em si, o corpo, o espírito, o desejo, a natureza, e a sociedade, ele só se torna verdadeiramente humano se é bem mais que a soma das partes, ou seja, se nele o determinismo se transforma numa gestação inapagável de desenvolvimento e liberdade.”

Importa asseverar que ética é um processo humano, e toda a ação e mecanismos dinâmicos que dão-lhe contorno e conteúdo só se tornam possíveis em um contexto de civilização. Santos (2006) infere que a constituição do ser humano ético ocorre na prática cotidiana, a partir da reflexão com o outro (diferente) e da auto-reflexão sobre si, acerca dos valores e princípios que circulam e estruturam o seu mundo. É pelo diálogo com a diversidade de opiniões e valores que o ser humano (educador e educando; professor universitário e aluno) vai desenvolvendo autonomia de ser, pensar e sentir e nesse sentido vai tornando-se ético à medida que se abre à dialogia e nega a reprodução. O ser humano deve se educar no convívio com a diferença e em diferentes espaços sociais que o possibilitem refletir e se auto-produzir no sentido de tomar decisões e adotar os valores que melhor considerar como orientadores de sua conduta. Para isso é preciso que este aceite contribuições reflexivas sobre ações, valores e princípios que organizam a sociedade.

Bibliografia

• Pergoraso, O. A. Ética e Bioética – da subsistência à existência. Petrópolis: Vozes, 2002.
• Santos, A. K. dos. Da condição ético-epistemológica na formação do educador contemporâneo
• in Silva, N. de M. A. e Zaboli, F. (organizadores). Educação e Ética. Blumenau: Edifush, 2006.
• Drumond, J. G. F. A Ética do Profissional de Saúde e a Educação Física in Tojal, J. B. A;
• Da Costa, L. P; Beresford, H. Ética Profissional na Educação Física. Rio de Janeiro:
• SHAPE, 2004.
• Valle, A. L. Ética e Direito. Porto Alegre: Síntese, 1999.
• Vargas, A. L. Ética – ensaios sobre Educação Física, Saúde Social e Esporte.
• Rio de Janeiro: LECSU, 2007.

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