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“As ervas daninhas” de Alain Resnais

“As ervas daninhas” de Alain Resnais

Foto: divulgação

Poesia e humor para falar das pequenas loucuras da vida

Comentário do filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“As ervas daninhas” de Alain Resnais

Baseado no romance “L’incident”, de Christian Gailly, o velho Resnais nos brinda com um trabalho que encanta pelo modo com que descreve as argúrias humanas, sempre a um passo da mais bela criação e, ao mesmo tempo, do mais grave desatino. Momentos há em que ambos, criação e desatino se conectam, mas eles são excessivamente fugazes para a maior parte dos mortais. Em geral as coisas tomam um rumo menos “feliz” e até as pequenas situações corriqueiras tornam-se motivos de sofrimentos e ações desencontradas. No limite, atribui-se ao destino os fatos que parecem ter uma força que causa danos, mais do que fortunas. Seja como for, a questão colocada pelo narrador, no decorrer de uma cena na qual se desenrola uma ação de especial importância para a trama, serve como fio indicador da estória contada: o que fazer com que aquilo que lhe acontece (inclusive quando algo é inesperado e aparentemente sem maiores importâncias)? Questão que nos faz cócegas todos os dias e que o filme mostra com absoluto senso poético.

E, antes de tudo, trata-se de cinema, com sua forma própria de dizer, pensar e afetar. Então, cada gesto, cada diálogo, cada movimento tem proximidade com o sonho, na sua estranheza e intimidade, com a fantasia, com seu nonsense peculiar, com os restos desrazoados capazes de impregnar a vivência mais comezinha de uma ardência que toca as raias do suportável. Há espaço para o riso, claro, mas ele não é gratuito e vulgar. Ele comparece com uma pitada de dor, que desta não nos livramos, mesmo que as neuroses, que tão docemente acalentamos, tentem amenizar. Assim é “Les Herbes Folles” (título original), passeio pelo vazio que marca as escolhas e pelas incongruências que destacam o que chamamos de vida.

Tudo neste trabalho conclama ao deleite do cinéfilo. Da narração, com uma voz verdadeiramente implicada em todas as trilhas que marcam os encontros dos aturdidos personagens (alguns nem tanto), até aos tempos criados pelo vai e vem dos acontecimentos com suas significações esquivas, elípticas e até humorísticas. Os recursos da câmera lenta, dos travelings, das cenas repetidas com detalhes que modificam a compreensão da estória, das passagens bruscas e só depois lentamente compreendidas, são pedaços de falas que sonham e dançam, dançam e riem, riem e choram o fardo humano de carregar em todos os instantes a impossibilidade de saber aonde conduzirão suas escolhas e impulsos. Tudo isso sem esquecer da belíssima trilha sonora, de Mark Snow, que não se contenta em pontuar as cenas, porque conduz o turbilhão afetivo com graça e leveza.

Então, atestar inevitável estranheza das experiências humanas torna-se motivo de expansão e potência, mesmo que no desenrolar da trama os fatos conduzam à morte. Ao final uma fala infantil e sábia nos pergunta como é transitar pelo impossível. Quer mais? Sim, há algo mais. A referência imediata ao corpo, aos muitos detalhes do corpo, sensual, dolorido, constrangido, incontrolável.

O dito incidente é simples. A Senhora Muir (Sabine Azéma, ótima) é assaltada e seus documentos são encontrados por um certo Senhor Palet (André Dussolier, excelente). Ele se interessa de uma maneira um tanto mórbida pela Sra. Muir, e aquilo que seria apenas mais uma banalidade se transforma em um drama que levará ambos e alguns que os circundam a experiências não exatamente comuns. Mas isto é apenas um breve chamado para adentrar num universo repleto de desejos intensos, alguns deles jamais possíveis de dizer (como a maioria dos desejos). Dizer mais seria desrespeitar a curiosidade do leitor. Cabe apenas lembrar que há para este filme uma menção honrosa em Cannes, o que não é pouco.

O roteiro adaptado (Alex Reval, Laurent Herbiet) é primoroso em sua construção, passo a passo dos incidentes (e acidentes) que vão ocorrendo para as pessoas. No elenco, as presenças de Emmanuelle Devos, Mathieu Amalric e Anne Consigni não passam em branco. São excelentes atores e produzem atuações entre o bizarro e o dramático (especialmente os dois primeiros) de grande interesse no desenrolar da trama. A fotografia de Eric Gautier segue o alto nível da produção.

Vá ver “Les Herbes Folles” com o espírito descansado. E viaje, muito.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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