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"As melhores coisas do mundo" de Laís Bodanzky

"As melhores coisas do mundo" de Laís Bodanzky

Foto: divulgação

Sóbria incursão na plasticidade do universo adolescente

Comentário

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria. 18/04/ 2010

"As melhores coisas do mundo" de Laís Bodanzky

A abordagem realizada pela dupla Laís Bodanzky/Luis Bolognesi (direção/roteiro), a partir dos escritos de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto, se situa entre uma reflexão mais conceitual sobre as questões da adolescência e algo mais descritivo no que diz respeito à linguagem, modo de viver as situações pós-modernas e aos pontos que caracterizam também um outro universo, rigorosamente adstrito, que é o do adulto, encarnado pelos pais e professores. Assim, a exemplo de outros trabalhos (“Chega de saudade”, por exemplo), percebe-se a tentativa de enfrentar o problema com o recurso de uma linguagem que respeite o que é específico aos personagens e à trama. No caso deste trabalho uma alternância de ritmos – de uma estética mais próxima do vídeo-clip até ao estilo mais costurado, destacando momentos de tensão e virada da trama – e um esmero na concatenação dos diálogos e nos planos (médios e curtos) que destacam as dores  e perplexidades dos personagens. Além disso, o enfoque se faz tomando como referência um determinado segmento da classe média (paulistana), o que demonstra a ausência de pretensão a uma discussão mais generalizante ou até universalizante. Isto dá ao filme uma leveza admirável, sem que isso signifique superficialidade.

Laís Bodanzky conduz com mão ao mesmo tempo firme e delicada uma estória composta de muitas e stórias, nas quais circulam algumas das angústias e ousadias e desconcertos de filhos e pais. Contornando com categoria velhos clichês, os dois universos são mostrados em suas (enormes) diferenças sem que qualquer um deles seja desautorizado. Então, as experiências narradas, no seu conteúdo dramático, alcançam um status mais próximo de um estudo de campo (com um certo ar documental), permitindo que o espectador se identifique sem excessos com as questões que acossam os personagens. 

Mas, o que se vê? Meninos e meninas entre quinze e dezoito anos, às voltas com celulares que publicam fotos íntimas (de acordo com os preceitos violentos, mas aceitos como naturais da sociedade do espetáculo), amores/paixões que consomem a serenidade num piscar de olhos (ou seria piscar de vísceras?), a exigência de compreender os paradoxos do universo adulto (com sua linguagem, escolhas éticas e questões específicas), encontros híbridos onde amizade e sexo se põem como organizadores das ações e, last but not least, medos, vergonhas, ódios, ciúmes, ressentimentos, enfim, tudo aquilo que o reino humano produz e que nossos valentes jovens julgam (em algum momento) poder dominar.

As peripécias dos irmãos Mano e Pedro diante das provocações que lhes são feitas pela separação dos pais (em virtude da opção homossexual de um deles), pelas problematizações que realizam sobre os papéis sociais e que dão contorno identitário e pelos muitos encontros que escapam em da possibilidade de um sentido fixo, servem de material para um fino humor (na maioria das vezes) e uma veia mais dramática (sem exageros, felizmente), que costura as vidas e conflitos de outros muitos que como eles se expõem diariamente, sempre no limite de suas possibilidades. O resultado pode parecer um tanto óbvio no final, mas isso significa que a opção é transitar pela via de um convite menos pesado. Fica de bom tamanho.

Outros regalos desta festa são as ótimas interpretações de todo o elenco, com destaque para Denise Fraga, Caio Blat, Paulo Vilhena e Zé Carlos Machado. Já Francisco Miguez (Mano) e Gabriela Rocha (Carol) conseguem uma empatia imediata, conduzindo com destreza seus personagens à beira de um (gostoso) ataque de nervos. Palmas para a preparação de elenco (a cargo de Sergio Penna). A fotografia é esmerada e a música (Bid) não deixa a desejar às expectativas adolescentes.

Então, um bom programa é levar o seu filho ou sobrinho adolescente para ver e discutir. Se isso não for possível vale uma conferida, mesmo assim. Mais uma vez Laís Bodanzky consegue trazer com simplicidade e inteligência humanidades que buscam sua singularidade com dignidade e garra.

Não deixe de ver!

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