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“Bastardos Inglórios” de Quentin Tarantino

“Bastardos Inglórios” de Quentin Tarantino

Foto: divulgação

Entretenimento inteligente e provocativo com estilo épico

Comentário do filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“Bastardos Inglórios” de Quentin Tarantino

Quando vamos ver um filme de Tarantino sabemos que muito provavelmente encontraremos uma história (ou histórias) insólitas (no mínimo), personagens (inclusive os famigerados vilões) que flertam com o heroísmo no limite da insensatez e até do risível, cenas violentas filmadas de forma requintada - conjugando tensão e motivações que parecem perfeitamente plausíveis e efeitos especiais que emprestam um realismo assustador -, diálogos bem humorados (com uma dose de cinismo, que é uma das marcas Tarantino de dizer) e desfechos que surpreendem e chocam os espíritos mais ansiosos. Tudo isso, organizado a partir de um roteiro que articula espaços e tempos diferentes, capaz de costurar histórias individuais que se cruzam dando à trama grande dramaticidade e suspense e produzir diálogos astutos e sedutores (um outro modo de prender a atenção do espectador, mesmo quando o fundamental da cena se passa num ou noutro detalhe).

Em “Bastardos Inglórios” essas expectativas se confirmam. Estão lá os heróis bizarros que habitam o mais extremo exílio (a começar pelo nome) e acionam recursos de justiça pra lá de discutíveis (mas no filme parece tudo óbvio, até desejável), as lindas mulheres que se arriscam e entregam à luta num universo excessivamente masculino e masculinizado, as questões que desafiam os limites e propostas éticas (com um pé no politicamente incorreto), os vilões que escancaram seu cinismo e descaso para com qualquer fidelidade... Também as cenas estilizadas, que funcionam como grandes citações, seja dos grandes Westerns seja dos clássicos de suspense e de guerra. Aqui e ali alguma matéria para reflexão e debate, sempre numa proposta que se afirma no esgarçamento do tecido social e das relações que ousam nele se estruturar. A violência está em toda a parte, por vezes explícita, incidindo na carne e no sangue (e tome sangue!), mas na maior parte das vezes insidiosa, venenosa, minimal e grandiosa nos seus efeitos. Afinal, todos estão numa guerra que dilacera os limites mais simples da dignidade (especialmente no que diz respeito à perseguição dos judeus pelos nazistas).

Tarantino ainda acha espaço para falar do cinema como arte e meio de resistência, incluindo-o na trama através de uma discussão que conjuga a estética nazista e o jogo político das estratégias imanentes ao exercício da vida que não se deixa dominar pelos ideais dominantes. Denso? Nem tanto. Tudo isso é facilmente digerido na trama. O maior apelo se dirige para a ação dos personagens, as tensões dos encontros mais imediatos. Aquela famigerada lentidão, que a muitos horroriza, não se faz.

Então, os “Bastardos...” chefiados pelo capitão Aldo Raine têm como missão matar nazistas, humilhando-os de todas as formas. Conseguem seu intento. Mas por isso mesmo experimentam se expor a várias situações, determinadas pelos chefes que estão no outro lado do front. Eles rivalizam em crueldade com o nazistão perverso Hans Landa, caçador de judeus e também dos rapazes de Aldo. Em meio a isso, uma linda mulher judia, cuida de um cinema (!) em Paris, sendo ela mesmo uma sobrevivente de um massacre contra a sua família, realizado pelo capitão... Landa! Entre uns e outros, as aparições de líderes como Goebells, Hitler e Churchill e de outros desconhecidos que permaneceram na obscuridade da história, mas nem por isso foram menos importantes.

Desnecessário dizer que o roteiro é ótimo e a fotografia muito bem cuidada. A direção permite aos atores uma espontaneidade que assegura o charme das cenas. Brad Pitt está bem, mas Cristoph Waltz (como o capitão Landa) está excepcional e literalmente rouba todas as cenas, exceção talvez àquelas em que contracena com Mélanie Laurent (a dona do cinema, Soshana, sobrevivente do próprio Landa), que além da beleza se mostra muito expressiva, carregando em várias cenas a dor, desespero e sensualidade, tudo na medida certa. Mas todo o elenco é de qualidade, claro.

Então, vá se divertir com Tarantino. Sem pretensões maiores.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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