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Beijo na boca, não! de Alain Resnais

Beijo na boca, não! de Alain Resnais

Foto: divulgação

Musical para divertir com nos velhos tempos

Luiz Felipe Nogueira de Faria

Beijo na boca, não! de Alain Resnais

• “Pás sur la bouche!”, adaptação para o cinema da opereta de André Barde, de 1925, chega até nós com atrazo. Produção de 2003 - anterior ao ótimo “Medos privados em lugares públicos” que assistimos em 2007 – vencedora de três prêmios César, este trabalho do mestre Resnais traz uma deliciosa estória em forma de comédia de costumes, na qual não faltam glamour e inteligência, seja no modo como são costuradas as situações que definem a trajetória dos personagens, seja no clima de sensualidade e provocação aos costumes que as letras imprimem, acompanhando o ritmo ágil das canções e falas. De certo modo, é na agilidade de raciocínio e na movimentação, sempre dançante, dos personagens, que reside a graça do filme, onde não faltam hilariantes tiradas sobre os encontros e desencontros dos sexos.

Outro ponto a destacar é a constante convocação do espectador como participante direto do enredo, chamado a todo o instante a testemunhar e participar das situações através do clássico estratagema do olhar face à câmera. Aí se faz uma ligação entre o aspecto propriamente teatral e a comédia, sugerindo (na linha de um equivalente do distanciamento brechtiano) uma participação ativa e crítica do espectador. Esta estratégia é bem dosada, proporcionando boas gargalhadas (ao lado de momentos de maior reflexão) sem provocar tédio ou apelar para o óbvio.

Assim, os jogos de sedução entre Gilberte Valandray (Sabine Azéma) e Charley Burns (Jalil Lespert), que também é desejado por Huguette Verberie (Audrey Tatou), se cruzam com as rivalidades involuntárias entre Georges Valandray (Pierre Arditt) (marido de Gilberte) e Eric Thompson (Lambert Wilson) “desconhecido” primeiro marido de Gilberte, que por sua vez se encontram com as desajeitadas cantadas de Faradel (Daniel Prevost) a Gilberte. Em meio a tudo isso a simpática Arlette Valandray (Isabelle Nanty), irmã de Gilberte, circula entre todos como uma donzela em busca de um par. Quem se habilitará? Ao final, uma hilariante Madame Foin (Darry Cowl) aparece como agenciadora de uma garçonniére, destino comum dos personagens. Que tal?

A condução de Resnais privilegia o humor mais refinado, deixando nas entrelinhas de cada fala e nas pontuações das músicas uma leveza de espírito que sugere uma crítica às formalidades e supostas exclusividades das relações. O sexual está onipresente, mas de maneira delicada. O efeito é a expansão e um frescor admiráveis. Aliás, a própria estória ligada ao título é uma gostosa brincadeira com certos códigos psicológicos, forma sutil de desnaturalizá-los.

O elenco está todo muito bom (alguns já haviam comparecido em “Medos Privados”) destaque para Darry Cowl (prêmio de melhor ator) e para o triângulo final composto por Sabine Azéma, Pierre Arditt e Lambert Wilson. Audrey Tatou está graciosa, como sempre. As músicas são gostosas, no melhor estilo francês.

Enfim, vale a pena conferir essa jóia do velho Resnais. Nem que seja para (re) descobrir os prazeres e charmes de um cinema que sem deixar de divertir e entreter, reconhece e respeita o pensamento.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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