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“Bons Costumes” de Stephen Elliot

“Bons Costumes” de Stephan Elliot

Foto: divulgação

Fino humor, o melhor costume

Comentário do filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“Bons Costumes” de Stephen Elliot

Baseado numa conhecida peça de Noel Coward, “Easy Virtue” (no original) traça os caminhos desencontrados e conflitantes de uma tradicional e decadente família inglesa com a mulher do primogênito, americana que se faz distante dos rituais e valores da família do marido, mas mesmo assim se põe ao alcance da experiência de conviver com os seus (novos) próximos. As questões abordadas não constituem novidade: uma ácida crítica aos valores hipócritas da aristocracia, capaz de iludir-se no mais alto grau para manter as aparências de unidade e potência; uma discussão sobre o (penoso) processo de independência da mulher, diante das armadilhas da sociedade patriarcal e, last but not least, uma questão sobre os poderes do erotismo, confrontado com as ordenações do jogo opressivo e dissimulado da cultura normalizadora.

Atravessando tudo isso, ao modo de um relâmpago, os efeitos no cotidiano de uma Europa devastada pela primeira grande guerra (a história se passa na década de vinte), fato que se deixa ver através das dores e desencantos do patriarca da família Whittaker (Colin Firth). Ao fim e ao cabo a própria história deste solitário e amargo chefe(?!) de família será a única a fazer ressonância com o trajetória não menos insólita da nora. Aliás, neste enlace reside um dos pontos fortes da trama, tanto que será preciso esperar o final para perceber.

Assim, Larita Whittaker (Jessica Biel), uma mulher viúva e para os padrões da época, liberada, amante da velocidade e competidora de corrida de carros, se deixa arrebatar por John Whittaker (Ben Barnes), jovem aristocrata que a leva para a suntuosa casa de campo de sua família, onde esperam, entre assustados e raivosos com a sem cerimônia do rapaz, suas irmãs, sua mãe, a poderosa Senhora Whittaker (Kristin Scott Thomas) e um sem número de curiosos de outras famílias com quem os Whittaker traçam seus laços de amizade e afirmação de classe. As dificuldades de relacionamento, bem como os afetos (terríveis), vão pouco a pouco aparecendo e minando a vida do casal.

Mas não é apenas o casamento de Larita e John que sofre com este encontro. Também a cultura ultraconservadora da aristocracia campestre vai se fraturando aqui e ali, vivenciando situações que a obrigam a repensar-se. Até mesmo dizer de sua falência (como a Senhora Whittaker faz com o filho) e desespero quanto à ausência de perspectivas futuras. Enfim, um festival de pequenos dramas que vão se mostrando pela ação de uma câmera que visa flagrar os detalhes das expressões e dos muitos afetos, interesses e sombras que acometem os personagens.

Contudo, o que o filme tem de melhor é exatamente o humor inglês, a um só tempo corrosivo e sutil, traduzido em diálogos inteligentes, cenas e cortes de cena super precisos, além de interpretações tecidas com esmero, especialmente quando se trata de colocar o espectador no clima denso das situações, sem abrir mão da comédia e até da caricatura (no sentido de desidealizar os valores burgueses e ressentidos que a todo o momento se presentificam). Desse ponto de vista, “Bons Costumes” é um convite à revisão daquilo que naturalizamos como verdadeiro, insinuando que os ideais que mais acalentamos, muitas vezes não passam de risíveis preconceitos. Risíveis e medíocres.

É neste sentido que o trabalho dos atores merece ser destacado. Desde a exuberância sem clichês da bela Jessica Biel, até a categoria clássica de Kristin Scott Thomas, passando pela sobriedade do também belo Ben Barnes e a sensível composição de Colin Firth para o patriarca desiludido (mas nem tanto) com a vida, há um absoluto compromisso com a verdade que cada um vive ou pensa viver. Ainda que tais verdades se situem, muitas vezes como farsas consentidas, no limite do enlouquecimento. O acompanhamento da direção (com enquadramentos que sugerem um mergulho ousado num universo tão fechado como o que é retratado) e da direção de arte fazem as coisas fluírem com verossimilhança, reconstituindo a atmosfera própria das relações. Desnecessário lembrar a fotografia, com tons fortes e contrastantes, sempre glamourosa.

“Easy Virtue” não chega a ser um primor que merecesse maiores elogios. Mas é um competente trabalho, que faz rir e pensar, mantendo sua principal característica de entretenimento.

Ficha Técnica:
Título Original: Easy Virtue | Gênero: Comédia e Romance | Duração: 97 min. | Origem: Reino Unido e Canadá | Estréia 23 de Outubro de 2009 | Direção: Stephan Elliott | Roteiro: Stephan Elliott e Sheridan Jobbins | Produção: Sony Pictures | Censura: 12 anos | Ano: 2008

Elenco:
Jessica Biel | Ben Barnes | Kristin Scott Thomas | Colin Firth | Kimberley Nixon | Katherine | Parkinson | Kris Marshall | Christian Brassington | Charlotte Riley | Jim McManus | Pip Torrens | Jeremy Hooton | Joanna Bacon | Maggie Hickey e John Warburton.

Vá conferir.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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