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Copa do Mundo e política

Por João Pedro Roriz - publicado em 03/05/2010

BRASIL, MENINO TRAVESSO POR CIMA DO TRAVESSÃO

Eu estava assistindo ao Filme Oficial da Copa de 94 pela milésima vez e repassando em minha cabeça cada uma daquelas emoções. Aquele título representou tanta coisa... Estávamos abatidos com tamanha inflação, desesperançosos com a política após a péssima gestão de Collor... tínhamos aquela síndrome de patinho feio... humilhados diante da indústria de países desenvolvidos, tímidos em nossa política externa, céticos em relação às possibilidades de um dia sediar uma Copa do Mundo ou uma edição das Olimpíadas... Estávamos possessos com os vinte e quatro anos de espera por um título mundial; extasiados com a força de vontade de Zagallo e preocupados com o pragmatismo de Parreira.

Vinte e quatro anos... Quantos não nasceram e morreram nesse meio tempo? Eu ouvia os velhos falando sobre a Copa de 70 e me sentia escravo de uma tradição que não conhecia muito bem. Esse "Brasil sil sil" tão comentado não me apetecia! Pra "piorar", em 92, o país sagrou-se campeão olímpico de voleibol. Pronto! Pra desespero de nossos pais, íamos para a praia praticar "esporte jogado com mão". Esquecíamos cada vez mais do futebol... falar essa palavra era até pecado! Estávamos magoados, sem saber o que fazer com aqueles "estrangeiros": Tafarell ("Vai que é sua, Tafarell"... que medo!) Raí, Branco, Zinho (perfeito em qualquer time), Dunga (que, nossa senhora, ressurgiu das cinzas!), Mazinho, Aldair, Marcio Santos (ele adorava fazer graçinha perto da área)... Jorginho, Leonardo, Cafú, Bebeto e... ele! Romário! O ídolo maior... quase não foi pra Copa por causa de seu gênio.

Mas... para felicidade geral da nação, o melhor do mundo da época, Roberto Baggio, chutou aquela bola com força por cima do travessão. Ninguém parecia acreditar... Galvão Bueno gritava feio louco... eu só me lembro de olhar para os lados e ver os membros carrancudos da minha família chorar. Nós reaprendíamos a comemorar um título mundial, algo tão comum nos dias de hoje. Nos rendíamos novamente à emoção de sermos brasileiros e esquecíamos de nossas mazelas, chorávamos por aqueles que não estavam mais entre nós e sentíamos que estávamos no topo do mundo.

De lá pra cá, as coisas só melhoraram... Eu cresci e vi um verdadeiro desfile de craques: vieram os Ronaldinhos, Caca, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. O país pôs-se de pé, pagou sua dívida externa, controlou sua inflação, diminuiu a pobreza e o analfabetismo, foi finalista em mais duas Copas, conquistou o Penta, se consagrou na Ginástica Olímpica (com Daiane dos Santos e cia.), no Vôlei, (com Bernardinho e cia.), na Vela (com Robert Scheidt), na Natação (com Cesar Cielo) no Hipismo (com Rodrigo Pessoa), no Tênis (com Guga) e se tornou cara de pau: sentou-se ao lado da Rainha da Inglaterra, exportou artistas para Hollywood, meteu o bedelho nas principais discussões mundiais, encontrou petróleo, emprestou dinheiro pro FMI, realizou eleições eletrônicas, disse não à ALCA, controlou as estribeiras de seus vizinhos xiitas, conquistou a organização da Copa e das Olimpíadas numa mesma década e mostrou que geograficamente, somos um imenso coração.

Hoje, olho para aquele chute por cima do travessão e percebo que tudo começou naquele momento... a arrancada começou ali. Meu irmão mais novo não era nascido e hoje escuta essas histórias chatas cheias de sentimentalismos e sente-se escravo de uma tradição que, felizmente, ele conhece muito bem.

Agora, que venha o HEXA!

João Pedro Roriz é Escritor e jornalista
Rio de Janeiro
www.jproriz.blogspot.com