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São Paulo - Printec Notícias

Brinquedos ou livros: qual o melhor presente de Natal para as crianças brasileiras?

Por Luis Eduardo Matta

Mais uma provocação do que propriamente uma pergunta, a resposta a essa questão requer uma apurada reflexão sobre a realidade socioeconômica e cultural do Brasil. Responder se devemos presentear com brinquedos ou livros demanda inúmeras contas e análises de estatísticas que podem aparentemente nos distanciar da questão sentimental que envolve o ato de presentear nossas crianças no Natal. Aceito o risco de ser erroneamente associado a um “materialista sem alma ou pudores” para expor algumas considerações sobre o tema. Arrisco, inclusive, dar sugestões para inserir os livros na celebração do Natal; torná-los parte importante da confraternização familiar – como um convidado que aparece de surpresa para encantar os convivas. Diferente do que possa parecer, os livros têm o poder de resgatar o Natal do contínuo processo de mercantilização. Mas, vamos por partes.

A formação de leitores é, sem sombra de dúvida, item indispensável na agenda de qualquer país que almeje um grau aceitável de desenvolvimento, de inclusão social e de sustentabilidade – sobretudo em uma época cujo principal capital é o domínio da informação e do conhecimento. O Brasil obteve avanços sensíveis nesta área nos últimos anos, mas ainda temos uma longa estrada a percorrer. Vide a edição 2010 do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que coloca o Brasil, oitava economia do mundo, numa desconfortável 73ª posição entre 169 países, abaixo do Irã, Barbados, Cazaquistão e de vários vizinhos latino-americanos. É bem verdade que houve uma melhora na comparação com o relatório de 2009 no qual, mediante uma metodologia menos rigorosa, o país figurou na 75ª posição. Contudo, é desconcertante constatar que a principal responsável pelo atraso, apontada pelo próprio relatório, é a educação. Não por acaso, no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), edição de 2006, obtivemos as vergonhosas 54ª colocação em matemática e 50ª em leitura, entre os 57 países avaliados.

Costumo dizer que de nada adianta manter um aluno em uma escola se ele não tiver fluência no ato de ler. Assim como o professor é a base de todas as profissões – pelo menos das que não prescindem de alguma formação curricular – a leitura é a base de qualquer aprendizado, mesmo o de matérias como a matemática, pois as teorias e explicações sobre cálculos, teoremas e equações estão descritas textualmente nos livros e apostilas. Alguém com baixa capacidade de absorção e interpretação de textos, portanto, terá enorme dificuldade de ir adiante em todas as disciplinas. Esse aluno correrá o risco de chegar às portas do vestibular com uma formação deficiente e com graves lacunas no conhecimento necessário para uma vida profissional satisfatória.

A educação e a cultura sempre foram negligenciadas na agenda brasileira. Nos tempos em que o ensino público era bom, o acesso a ele não era universalizado. A partir do momento em que as escolas se espalharam pelo Brasil, o nível do ensino, salvo exceções, caiu. A cultura, por sua vez, ainda hoje é encarada por muitos como um artefato supérfluo, uma frescura de burgueses esnobes, alienados da dura realidade do povo brasileiro. Mal sabem que a cultura é um dos principais instrumentos para resgatar as pessoas da miséria e da injustiça, dotando-as do conhecimento e do senso crítico necessários para o exercício pleno da cidadania. Um povo sem cultura é um povo refém de interesses espúrios e da manipulação por parte de uma elite econômica e política mal-intencionada que, se não é predominante, é numerosa o bastante para criar enormes obstáculos ao desenvolvimento humano do país.

Pela minha experiência pessoal – e por tudo que observo nas frequentes visitas que faço a escolas como escritor –, sei que leitura fluente é algo que se adquire na prática. É claro que o aprendizado de gramática é importante, mas é a leitura regular que cria em nós a familiaridade com a palavra escrita em sua norma culta, tornando-nos aptos a imergir em qualquer texto. A leitura regular só se sedimenta se for fundamentalmente um ato prazeroso. É o gosto pela leitura que faz o leitor. Eis o grande desafio de professores e, em especial, os de literatura – sobretudo em tempos onde os sedutores apelos tecnológicos e audiovisuais estão por toda parte. É um grande desafio despertar esse gosto nos alunos, sobretudo nos adolescentes, época em que é decisiva a opção ou não pela leitura.

Mencionei os professores, porque a escola é o principal território de formação de leitores no Brasil – um país onde a maioria das crianças e dos jovens vive em lares historicamente pouco familiarizados com os livros. No entanto, é arriscado afirmar que mesmo adultos sem maior intimidade com a leitura não possam perceber a  importância dos livros para a educação de filhos, netos, sobrinhos e irmãos. Ao contrário, é cada vez maior entre pessoas de todos os estratos sociais e culturais a noção de que os livros são essenciais na vida de um cidadão. Existe, hoje, uma valorização da leitura como nunca antes houve no Brasil. Vejo, por parte dos pais, uma crescente preocupação com o futuro profissional dos filhos, em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo e exigente. No entanto, muitos não sabem como proceder, como despertar nos filhos a paixão pelos livros.

Com esse cenário, o Natal pode ser uma excelente oportunidade para se começar a investir em livros por duas razões: a família estará reunida – algo raro nesses tempos de cotidiano frenético e muitos desencontros diários – e haverá troca de presentes. Na minha opinião, um bom livro é sempre o presente ideal. Além de ser o objeto que por excelência condensa emoção e conhecimento, não é caro se comparado com brinquedos e vestuário. Mais do que presentear as crianças com livros, acredito que estes devam ser convidados especiais da celebração. Os pais, avós e tios poderiam ler os livros previamente e, durante a ceia de Natal, contar de maneira entusiasmada um pouco da história – sem entregá-la totalmente, é claro! –, a fim de despertar na criança ou jovem a curiosidade sobre o livro presenteado.

Não podemos nos esquecer que o Natal é uma época de fantasia e encantamento, características intrinsecamente ligadas ao universo da literatura. Lembro-me de, quando criança, imaginar que estava celebrando os Natais nas catacumbas da Roma imperial junto aos primeiros cristãos, enquanto os soldados do César nos perseguiam pela cidade. Pura aventura! Eu, é claro, não sabia que os cristãos só começariam a celebrar o Natal séculos mais tarde, depois que o papa São Júlio I transformou a data da festa do Natalis Solis Invicti – comemorada no solstício do inverno –, no dia do nascimento de Cristo, como uma forma de enfraquecer a simbologia pagã. Seja como for, a magia do Natal permanece e aliada à criatividade inerente à infância e adolescência, oferece uma oportunidade preciosa para mostrar aos jovens que a fabulação literária é onde o mundo da fantasia se faz mais presente e da maneira mais arrebatadora possível.

A excessiva mercantilização do Natal é uma das marcas mais deletérias do nosso tempo e transforma uma festa – em que a união abnegada entre familiares e amigos deveria dar a tônica –, em uma verdadeira orgia consumista que deixa as pessoas justificadamente desatinadas. Não apenas elas se veem obrigadas a gastar um dinheiro que, muitas vezes, não possuem, como ainda têm de sentir e demonstrar uma felicidade que pode não estar por perto. Além de divertir, emocionar e instruir, o livro é um poderoso veículo de autoconhecimento. Mesmo histórias consideradas banais podem nos levar a refletir sobre nós mesmos e o mundo ao redor, inclusive, fazendo-nos enxergar com nitidez o quão desvirtuado se encontra o Natal nos dias de hoje. Dessa forma, o livro nos ajuda a enfrentar melhor as cobranças existenciais comuns a todo o fim de ano. Mais uma razão para fazer dos livros o principal presente para todos os Natais.

Por Luis Eduardo Matta

Luis Eduardo Matta

Considerado uma das vozes mais criativas e originais da nova literatura nacional, Luis Eduardo Matta iniciou a carreira literária em 1993, aos 18 anos, com a publicação do livro Conexão Beirute-Teeran (Editora Chamaeleon). A decisão de assumir por ofício a escrita pelo viés ficcional resultou na publicação das obras “Ira implacável: indícios de uma conspiração” (Razão Cultural Editora); “120 horas” (Editora Planeta); “Morte no colégio” (Editora Ática); “Roubo no Paço Imperial” (Editora Ática); “O rubi do Planalto Central” (Editora Ática) e O véu (Primavera Editorial).


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