Comentários de filmes

FILME

“Budapeste” de Walter Carvalho

BUDAPESTE

Foto: divulgação

Mergulho apaixonado nos mistérios da língua e da ousadia de viver

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

Direção: Muri Bilge Ceylan

Das várias facetas que compõem a trama de “Budapeste” (o livro) destacam-se com maior nitidez aquelas que referem a (re) invenção de si mesmo e a presença da linguagem como instrumento necessário nessa caminhada. De par com essa proposição encontra-se o jogo incessante com o duplo, permanência que marca o destino dos mutantes. Seguir a trajetória do Ghost Writer José Costa significa receber suas inquietações e dispersões com a mesma amorosidade com que acompanhamos seus escritos, fadados a alimentar a fama de terceiros, que por sua vez vivem através das construções desse outro “invisível”. Ao mesmo tempo, a parceria linguagem e invenção de si se faz embebida num caldo de sensualidade, a das palavras para além do significado mais direto e dicionarizado, a construção de outros eus implicando novas corporeidades e encontros intensivos. Aqui e ali as passagens entre países, amores, línguas e territórios inexplorados, com seus inevitáveis vazios, são emblemas de uma vida que não se compraz com os deleites das comodidades, estando por isso aberta aos mais lancinantes caminhos.

Do mesmo modo, “Budapeste” (o filme) busca supreender, nas imagens e seus duplos, o sem nome que sustenta o ato de lançar-se na vida, tornando visíveis sonhos impossíveis, desnudando paisagens desconhecidas, demonstrando corpos no abandono do gozo, sem com isso deixar de contar com cuidado uma estória cujo fascínio não se esgota no entendimento e simpatia com os saltos ousados do protagonista. O trabalho de Walter Carvalho faz uma parceria amorosa entre literatura e cinema, evitando reduzir este a mera ilustração daquela e incluindo como recurso cinematográfico toda a carga de sentidos que a veia literária promove, especificamente.

Assim, o universo onírico e sensual que caracteriza o romance é captado com lentes delicadas, permitindo tomadas de cena que sem deixarem de ser belas apontam para algo mais do que um exercício plástico. Enquadramentos, movimentos de câmera (alguns verdadeiramente estonteantes), contrastes de cores e tempos, (assim como o ritmo das falas em off) constroem para o espectador um painel onde jogos especulares têm seu lugar e positividade – nas fantasias e alucinados projetos de José Costa – tanto quanto os choques onde a realidade explode pedindo sentidos não acessíveis à experiência mais imediata. A intensidade dos encontros (especialmente o encontro com Budapeste e sua língua, esta última trazida por uma mulher belíssima, com uma maternalidade desconcertante) é retratada de maneira muito bonita, com marcações precisas e uma fotografia que sutilmente “fala” aquilo que as palavras só podem sugerir. Talvez a maior virtude desse filme seja exatamente ter conseguido, com suas imagens carregadas de afetos, mostrar aquilo que não tem imagem (ou palavra): o vazio experimentado pelo protagonista no exercício de montar para si uma outra história, esta jamais escrita e vivida.

Nesta obra tão densa e ao mesmo tempo tão próxima na capacidade de nos fazer vibrar com os movimentos, gestos e rostos que dão visibilidade a personagens interessantes na sua estranheza, o roteiro (a cargo de Rita Buzzar) é um dos principais artífices. Ele consegue realizar a transição entre uma escrita cheia de nuances e alusões que não se fixam nas palavras e significados como a de Chico Buarque e as exigências propriamente fílmicas, com os cortes e escolhas de passagens, processo sempre arriscado, especialmente tratando-se de um projeto que não visa apenas ilustrar com imagens a criação literária. As citações são bem feitas e não deixam cair o ritmo da trama, inclusive com as reviravoltas finais. A fotografia de Lula Carvalho também segue um padrão estético que conjuga a criação, feita pelo personagem, de um livro que é sua própria vida com a real existência de um lugar (e que lugar!) onde há uma vida outra, com outras pessoas, outro modo de falar e existir. Belíssima. A música de Léo Gandelman é sóbria na maior parte do tempo, mas nem por isso deixa de captar as angústias, solidões, apaixonamentos que tomam os personagens.

O elenco está ótimo, com destaque para esse excepcional ator que é Leonardo Medeiros, capaz de emprestar a José Costa todo o turbilhão de vivências e destinos, enlaçados finalmente na terna Budapeste e ao mesmo tempo traduzir a graça e a leveza (com um sutil toque de ironia) que o torna encantador. Grabriella Hámori (a deliciosa Kriska) está muito bem, em sua composição de um personagem capaz de dizer a um outro a vivência de sua língua materna e ao mesmo tempo exalar uma extrema sensualidade e volúpia, que capturam José. Giovanna Antonelli encarna com competência a saturada Vanda, bela e aprisionada nos jogos midiáticos dos quais José não pode participar.

Finalizando: o trabalho de Walter Carvalho é exímio na condução das cenas e cortes, além de alcançar uma veia autoral significativa na interpretação que dá de alguns momentos do romance. Ao final, também o filme encarna a questão do duplo (a última cena é deliciosa) e da linguagem, presentificando aos nossos olhos o gesto que torna o encontro com a linguagem e as paixões a condição mesma da vida, ainda que aí a escrita seja sempre errante e incompleta.

Veja o filme e leia o livro, e vice-versa. Ambos são puro deleite.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

Poste um comentário