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FILME

“CARAMELO” de Nadine Labaki

CARAMELO Filme de Nadine Labaki

Foto: divulgação

Doçura e sensualidade em comédia com os nervos à flor da pele

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

Direção: Nadine Labaki

Se há algo que não se pode atribuir a “Caramelo”, produção franco-libaneza de 2007, é ser um retrato distante e frio da Beirute que a diretora Nadine Labaki traz para o convívio dos cinéfilos. Aliás, falar em Beirute no sentido genérico já é um equívoco, pois a cidade que comparece nesse retrato é muito bem singularizada, seja pelos personagens que tecem entre si laços cheios de intensidade, seja pelo território – geográfico e afetivo – que serve de entorno às ações que caracterizam a(s) trama(s). De tal maneira que o olhar bem humorado, irônico até, em relação aos sofrimentos e alegrias que atravessam as vidas que estão em jogo (e no jogo!), segue podendo se dar ao luxo de ser ultracarinhoso, sem deixar de ser crítico e até um tanto ácido em alguns momentos.

O filme adentra o universo da classe média menos favorecida, apresentando quatro mulheres (Layale, Nisrine, Rima, Jamale) que transitam profissional e pessoalmente num salão de beleza, lugar alçado a uma condição de excelência por conta das atuais injunções estéticas da pós-modernidade. Todas acalentam seus sonhos e vivem suas vidas no limite de uma certa transgressão aos valores mais tradicionais, ao mesmo tempo em que se deixam levar pela onda dos poderes e tradições que constituem alguns desejos, inclusive aqueles que se mostram mais resignados e obedientes. Layale vive uma relação amorosa clandestina, enquanto espera por outras condições, aquelas pelas quais poderá torná-la oficial para a própria família. Nisrine está mais próxima de seguir a tradição familiar, mas para isso tem que omitir algo que concerne às expectativas de todos e fundamentalmente ao seu corpo. Jamale insiste no sonho do sucesso e da fama, se decepcionando com frequência, inclusive na percepção de seu próprio envelhecimento. Rima, por sua vez, se encontra com escolhas sexuais diferentes das usuais, delimitando seus arroubos a delicadas circunstâncias ligadas a detalhes na relação com algumas clientes. Há ainda uma quinta mulher, Rose, que cuida da irmã mais velha – esta um tipo quase caricato, muito próximo da loucura -, embora ainda discuta, suas possibilidades de mudar de vida e alcançar um enlace amoroso. Todas essas mulheres criam um campo da solidariedade capaz de imantar as relações que se fazem com as pessoas que transitam próximas e/ou comparecem no salão. Onde se faz uma depilação caliente, com um certo creme caramelado...

Trata-se sem dúvida de um filme feminino, menos pelos personagens principais (todas mulheres) do que pelo modo como são trabalhados os afetos que inundam o cotidiano de cada um, ao lado de uma caracterização das expectativas atribuídas às mulheres e de uma discussão do que elas podem e querem fazer com isso. Longe de fazer um moral e de pretender apontar um destino (supostamente) melhor ou mais feliz para as cinco guerreiras (sim, todas trabalham muito no salão e na vida), o filme acompanha as argúrias e gozos que se produzem, fazendo rir sempre que possível. Em algum momento é possível reconhecer um ou outro traço almodovardiano, pela sem cerimônia com que as atitudes são tomadas, sugerindo uma certa desmedida ao lado de um extremo cuidado, paradoxo que faz com que as mulheres em pauta sejam ainda mais admiradas e desejadas, inclusive aqueles (homens/mulheres) com quem se encontram e por quem suspiram.

“Caramelo” é um trabalho delicioso que se notabiliza por primeiros planos muito interessantes, capazes de flagrarem múltiplas idéias e intensidades. Também carrega nas cores e na fotografia esmerada que capta a sensualidade presente no ar, mesmo nos momentos em que o enredo indica outros caminhos. O roteiro (Rodney El Haddad, Jirad Hoeihy e Nadine Labaki) traz alguns diálogos comoventes, tanto quanto situações que se encadeiam de forma hilariante (na linha da tragicomédia). A direção destaca o trabalho das atrizes, todas elas ótimas. A própria Nadine Labaki compõe a linda e apaixonada Layale com destreza. A música é outro ponto forte.

Por tudo isso, o filme traz um encantamento ímpar, conjugando entretenimento agradável e convite ao pensamento. Além de uma gostosa atmosfera feminina e sensual.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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