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COMENTÁRIO DE FILME

"CASAMENTO SILENCIOSO" de Horatiu Malaele

CASAMENTO SILENCIOSO de Horatiu Malaele

Foto: divulgação

Ironia rebelde e fantasia para espantar os males totalitários.

Comentário

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

CASAMENTO SILENCIOSO

• O trabalho de Horatiu Malaele consegue conjugar uma discussão histórico/política sobre os efeitos trágicos da truculência stalinista e uma veia cômica, banhada no realismo fantástico, ao contar o destino dos integrantes de uma pequena aldeia romena que ousaram produzir uma existência não submissa às ordens e ameaças do poder constituído. Mais do que isso foram capazes de afirmar a alegria e a força de seus costumes, mesmo correndo o risco da represália e da morte. Aliás, se há uma mensagem que se pode apreender mais diretamente desse filme é que afirmar a dignidade própria e o direito ao pensamento é a condição para produzir vida no sentido mais positivo, longe da passividade e das pobres e ilusórias garantias que ela promete.

A narrativa funciona como uma fábula: numa aldeia do interior, pessoas simples vivem em contato com a natureza, produzem seus próprios alimentos, comprazem-se em cuidar dos rituais que sustentam sua cultura e conflitam-se tanto quanto se solidarizam nas argúrias cotidianas, inclusive aquelas que referem a dominação e espoliação russa. Neste pedaço de mundo tão folclórico, não faltam as figuras que quase universalmente compõem nosso imaginário: os beberrões que passam a vida no bar a jogar e fazer piadas e fofocas, o louco que diverte a todos e se diverte nos assuntos que circulam na vila, a puta que acompanha a trupe e atende a (quase) todos com solicitude, as mães e donas de casa que efetivamente seguram o rojão, os jovens que descobrem os prazeres do sexo e da paixão sem demasiadas culpas e com uma apimentada irreverência.

Há também o anão inteligente e observador, as crianças sempre ávidas e curiosas, o prefeito caricato, involuntariamente ridículo em sua pretensão de seguir e impor os preceitos comunistas e a menina-duende que mesmo depois da morte permanece visível para as pessoas, anjo que fascina pela beleza e capacidade de prever o futuro. Figuras fellinianas (em muitas cenas podemos reconhecer a influência do mestre, inclusive na passagem do circo pela cidade) que habitam sonhos insólitos e nos apresentam insólitos gestos, muitos deles genialmente engraçados.

Mas a trama alcança maior força quando os soldados stalinistas ordenam que o casamento de Mara e Iancu não seja comemorado por conta do luto pela morte do ditador. As imposições e ameaças são claras e a desconsideração pelo momento de todos da aldeia é evidente. Aí seus habitantes irão criar os momentos mais hilariantes, em sua divina resistência. Estas cenas, com o riso e a imediata identificação que provocam, mostram-se potentes armas, capazes de fazer a truculência totalitária ser objeto de um merecido escárnio, ainda que as consequências sejam cruéis, especialmente para as mulheres. Contudo, a história se faz mais forte do que os vencedores de então e após muitos anos, jornalistas e cineastas em busca de situações fantasmagóricas chegam a essas ruínas... Contar mais diminui o efeito que o filme tenta trazer. Mas as cenas das sobreviventes da aldeia são impressionantes!

Para construir esse lindo filme, Malaele conta com uma fotografia de alto nível (Vivi Dragan Vasile), interpretações deliciosas de todo o elenco e um roteiro que prima pela simplicidade para descrever os fatos e contar o que esses fatos não alcançam: a afetação dos personagens, seus corpos inebriados e pulsantes, as alegrias e dores, os movimentos de cada dia, os tempos na fala e na respiração. Neste aspecto direção e direção de elenco (Floriana Grapini) se afinam na produção de um absoluto comprometimento dos atores com a especificidade dos personagens e seu modo de viver. Os movimentos de câmera, mais afeitos à captura das emoções e do fantástico que perpassa a todos, seguem um estilo de plano-seqüência todas as vezes que se trata de caracterizar esses efeitos, deixando os planos gerais para momentos de maior impacto dramático e poético. A música, superdelicada, é outro ponto a destacar.

Em suma, "Casamento silencioso" é um filme que mostra a força da ironia como instrumento de crítica e como algo capaz de quebrar a anestesia e passividade que muitas vezes nos são impostas, seja pelas ameaças de violência, seja pelos sedutores convites cotidianos para obedecermos as regras de bem estar e felicidade. Simplesmente sensacional.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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