Filmes: comentários

FILME

“CHE” de Steven Solderbergh

Filme Che

Foto: divulgação

Sobriedade e realismo para falar da ternura e dureza do ato revolucionário

Filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

"Che" o Filme de Steven Solderbergh

• A discussão mais direta que se pode encontrar em “Che” (primeira das duas partes às quais teremos acesso de um trabalho de mais de 6 horas) diz mais respeito aos atos que materializam as ambições do jovem revolucionário - encantado com a possibilidade de combater imperialismo norte americano, transformando as gentes que a ele se submetem – do que aos efeitos mistificadores que de algum modo enfraqueceram sua mensagem e luta, ao longo do tempo. Focalizando o percurso da revolução cubana (acompanhado de Fidel, claro) e entremeando (num estilo documental) seus vários discursos diante de adversários tão temíveis quanto hipócritas, o filme de Solderbergh opta em realizar um tratamento que destitui o mito para realçar a obra, repleta de contradições e riscos, marcas, aliás, inexoráveis de toda obra que mereça esse nome.

É bem verdade que muito do fascínio que o filme exerce deve-se a extraordinário desempenho de Benício Del Toro, encarnando Ernesto Guevara muito além dos gestos e clichês interpretativos do gênero. É também constatável que o roteiro, baseado em parte nas memórias do próprio “Che”, alcança grande precisão, seja nos diálogos que atravessam a trajetória dos revolucionários, seja na maneira concisa e cuidadosa com que figura as muitas batalhas e encontros conflituosos, sem exageros no realismo, nem dramatizações piegas. A direção estabelece enquadramentos que aproximam o espectador dos enlaces mais turbulentos dos protagonistas, com planos que evitam o tom épico. “Che” é respeitoso a ponto de dispensar elogios banais e leituras justificadoras.

Assim, as seqüências possuem um ritmo que permite que nos demos conta de que a luta revolucionária era sincera em seus propósitos, datada historicamente em seus contornos ideológicos, mas profunda nos efeitos produzidos pelo sonho de transformação, o que ainda hoje podemos reconhecer, mesmo com as grandes mutações no cenário do capitalismo, ora globalizado e com outros desafios para os novos “combatentes”. A luta armada, defendida com todo ardor, é mostrada com os argumentos daqueles que se prestaram com valentia ao mergulho no desconhecido, expondo seus corpos/vidas e encontrando o sentido de seus destinos no projeto sempre renovado de permitir aos oprimidos o exercício da fala e da afirmação das (novas) identidades e poderes. Contornando a tentação sedutora de falar de heróis “Che” abre algum espaço para a discussão sobre a atualidade do projeto revolucionário, em tempos onde coisas assim são facilmente capturadas pelos estratagemas do consumismo.

Então, mesmo sem empolgar, o filme de Steven Solderbergh tem o mérito de engrandecer os “personagens” a partir de suas dores e fraquezas, de seu enfrentamento com a morte, de seu despojamento para a luta. Resta aguardar as outras partes. De todo modo, trata-se de algo mais que mero entretenimento. Melhor assim, visto se tratar de um homem cuja vida jamais se enquadrou nas amenidades dos espetáculos (pós) modernos.

Vale a pena ver. E discutir.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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