
Por Ligia Azevedo / Arteplural Comunicação
Influenciada pelo universo do Charles Chaplin, Buster Keaton e Jacques Tati, a companhia encerra trilogia de pesquisa sobre gêneros calcada na comédia com um espetáculo popular e para todas as idades. Inspirados no personagem clownesco Hulot, criação de Tati, os bailarinos improvisam em cima de situações corriqueiras – como trabalhar, dormir, amar – embalados por uma trilha de jazz e pop feita ao vivo.
Tráfego, o novo espetáculo da Cia Nova Dança 4, concebido e dirigido por Cristiane Paoli Quito. Movimento final da Trilogia Influência (2008-2010) – precedido por Influência, primeiros estudos (influenciado por movimento de Steve Paxton e filmes de Hitchock) e O Beijo (inspirado em O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues, além de Paxton e Hitchcock) – em TRÁFEGO, é o cinema que, mais uma vez, influencia. De carona nos filmes de Charles Chaplin e Buster Keaton e na comédia coreográfica do cineasta francês Jacques Tati (principalmente em Trafic, de 1971, e Play Time, de 1967), a base da criação é Hulot, o protagonista inadequado criado e interpretado por Tati. Hulot observa o cotidiano da vida moderna de maneira sutil, crítica e bem-humorada; em seus olhos, o ordinário ganha ares extraordinários.
Os bailarinos vestem a figura clownesca de Hulot, seja nos figurinos de macacões e meias listradas, casacos que lhe eram característicos, ou na própria construção de um corpo clownesco. “Tati tem o desenho corporal dos palhaços que vieram do cinema, como Chaplin e Buster Keaton. E procuramos trazer isso ao corpo dos bailarinos. Aqui, busco o corpo do palhaço no jogo da composição, que também era uma obsessão de Tati sem seus filmes”, comenta a diretora Cristiane Paoli Quito. Já a trilha sonora bebe na música dos anos 70, no jazz e no pop, na música do filmes de Tati e do violinista de jazz Stéphane Grapelli. Um trio de músicos constrói o som em cena – Natália Mallo (no baixo, guitarra e computador), Claudio Faria (no trompete) e Mariá Portugal (na bateria).
A trilogia é finalizada com um “tráfego de influências”. Da crônica social de Nelson Rodrigues, que inspirou O Beijo, é trazido o universo temático: a vida cotidiana, a convivência social, a família e as agruras do trabalho. Acontecimentos ordinários e extraordinários (como em Tati), mas em outras cores, com outro tom. Em Tráfego, faz-se uma metáfora da vida coletiva cotidiana urbana coreografada: ritmos, espaço, tempo, contratempo, linhas, cores, caos e ordem. Os corpos trafegam, vão e vêm: aqui, o que vale é o percurso (e as “lentes” de Hulot).
“Brincamos com a estrutura social e coisas simples do cotidiano – trabalhar, andar pela rua, conviver, se relacionar, dormir, acordar, sonhar. Que são, na verdade, os temas básicos desses palhaços – Buster Keaton, Chaplin, Tati. Playtime, por exemplo, é um filme onde não há assunto, não há acontecimento inicial e final. O protagonista está em um escritório num momento, em outro já encontra amigos, é convidado a entrar em uma casa, vai para uma festa. As coisas vão acontecendo e ele vai sendo levado, e tudo sem palavras. Em Tráfego, trabalhamos também nessa relação de horizontalidade e fluxo”, explica a diretora.
Se nos movimentos anteriores, para sustentar a intensidade dramática do suspense e do melodrama, o cômico – característica marcante do trabalho da Cia. Nova Dança 4 – fora deixado de lado, agora a investigação do grupo se debruçou sobre as possibilidades de convivência entre composições coreográficas cômicas e de suspense. “Na trilogia, estávamos em busca de trabalhar gêneros e, depois de Influências (em que trabalhamos o suspense) e de O Beijo (pautado pelo melodrama), queria que viesse algo mais leve, e agora trabalhamos o corpo da comicidade. Nos debruçamos sobre o humor que está muito presente em Tati, um humor delicado, com um namoro com o patético, tendo como base o crítico do humano que é o palhaço”, comenta Quito.
Tráfego marca também um retorno da companhia à dramaturgia do corpo, como explica a diretora. “Flertamos bastante com teatro em O Beijo, agora nos entregamos um pouco mais à dança. O foco é o jogo entre os bailarinos, a coreografia, e o contato-improvisação, que são duas linguagens primordiais da companhia. “Quando começamos, a improvisação não era aceitável, as pessoas tinham muito preconceito. Há 15 anos, era difícil tanto fazer o improviso chegar ao público quanto dizer que aquilo era improvisado. Nossa batalha era trabalhar isso. Hoje vemos um boom de improvisação”, relembra.
A Cia. Nova Dança 4 nasceu no Estúdio Nova Dança em 1996 como núcleo de improvisação dança-teatro, fruto da parceria entre Cristiane Paoli Quito (direção) e Tica Lemos (pensamento corporal). A Cia. fundamenta seu trabalho de base nos princípios somáticos (Contato Improvisação, BMC e Ideokinesis) e nos princípios de treinamento contemporâneo para o ator (jogo teatral, improvisação, Commedia dell’Arte e da menor máscara teatral, o nariz vermelho do palhaço). A parceria entre Quito e Tica conferiu a autoria de uma forma peculiar de treinamento cênico, no qual a essência do espetáculo está no corpo do intérprete, matéria-prima da dramaturgia cênica.
Ficha técnica:
Elenco: Cia. Nova Dança 4 – Alex Ratton Sanchez, Cristiano Karnas, Diogo Granato, Érika Moura, Gisele Calazans, Lívia Seixas, Tica Lemos. Concepção e direção geral: Cristiane Paoli Quito. Assistência de direção: Maurício Paoli Vieira. Pensamento Corporal: Tica Lemos. Treinamento – le parkour: Diogo Granato. Consultoria de Dramaturgia: Rubens Rewald. Colaboração: Mariana Camargo. Trilha Sonora: Claudio Faria, Natália Mallo e Mariá Portugal. Sonorização: Natalia Mallo. Iluminação: Marisa Bentivegna. Figurinos: Cia. Nova Dança 4 e Larissa Salgado. Fotos: Carolina Mendonça. Projeto Gráfico: Anna Turra. Produção e Administração: Dora Leão – PLATÔproduções. Projeto contemplado pelo Programa Municipal de Fomento à Dança – VII edição.
Estreia dia 1 de julho, quinta, às 21h, no Sesc Santana. Indicação Etária: Livre. Duração: 60 minutos.
Ingressos: de R$ 4 a R$ 16.
Apresentações:
Dias 1 e 2/07, quinta e sexta, às 21h – Sesc Santana.
OBS.: Nos dias 3 e 4/07, das 14 às 17h, o grupo dará uma oficina.
Dias 14, 15, 21 e 22/7, às 21h – Sesc Consolação
Dia 18/7, às 16h – Sesc Interlagos
OBS.: No dia 18/7 das 10h às 21h, o grupo dará uma oficina.
Dia 21/8, às 13h – Sesc Itaquera
Dias 4, 5 e 6/8, às 21h – Viga Espaço Cênico
De 9 a 12/9, quinta a sábado, 20h e domingo, 19h – Galeria Olido
Assessoria de Imprensa
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