Filmes Comentados

COMENTÁRIO DO FILME

“Vincere” de Marco Bellocchio

“Vincere” de Marco Bellocchio

Foto: divulgação

Revisitando com arte a história para pensar a atualidade

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria. Em 19/08/ 2010

Numa das sequências mais emblemáticas de “Vincere” (uma das pérolas que compareceram ao Fest Rio 2009) vemos um homem e uma mulher fazendo amor. Amor? Ah, sim, para a mulher trata-se de uma intensa entrega a um homem muito desejado. Todo o seu corpo é tomado pela volúpia de mulher apaixonada, no ato mesmo de realização de seu intento. Seus murmúrios de prazer e “pedidos” se fazem cada vez mais fortes, atestando o abandono em direção ao gozo e ao homem. Já o homem se mostra com um olhar distante, frio, controlador, e logo após o ato ele se dirige à janela na fria madrugada européia para devanear uma grande massa a lhe dirigir vivas, siderada pela grande silhueta de força
que ele encarna.

Aqui, como em outros momentos, a sexualidade, com todo o seu aparato disruptivo só se faz para a mulher. Para o homem, há apenas a expectativa do controle e a realização paranóide da auto-referência absoluta, ambas cravadas no olhar de superioridade e desprezo. O futuro líder fascista Benito Mussolini sonha com o domínio das massas e do mundo enquanto Ida Dalser, sua amante, tenta proteger seu corpo nu com um lençol. Isso ocorre em meio a uma atmosfera lúgubre, seja pelo fato histórico que está por vir (a 1° grande guerra) seja pela disparidade entre os corpos e as experiências que eles abrigam e expõem. Eles se conjugam com a história de brutalidade e horror que naquele momento germinava.

Tudo isso faz pensar que o fluxo “libertador” do desejo sexual nada tem a ver com a fantasia (nazi) fascista de domínio dos corpos e subjetividades. Ao contrário, no ponto mais extremo deste projeto o que se encontra é a proposta de extermínio. Este é, aliás, o destino de Ida Dalser, cuja voz será calada e esquecida pelos vários dispositivos que articulam a maquinaria que permitiu a feitura de Mussolini. Extermínio “branco”, materializado no exílio manicomial e na sistemática perseguição a que se viu implicada, em sua luta de reconhecimento, para si e seu filho Benitino, também ele submetido a um cruel desfecho de vida.

E além do mais, Mussolini alimentou-se de uma grande soma em dinheiro, proporcionado por Ida, para se projetar num jornal que aos poucos permitiu sua projeção. Duplamente seduzida (pelo homem e pelo estilo político) Ida apostou a totalidade de suas economias para financiar aquele que logo depois se tornou o pai de seu único filho. Ilusão atroz, o casamento tão sonhado não aconteceu (ou ao menos não foi documentado) e sua fala reinvidicatória silenciada, até o limite de suas forças. Enquanto isso, Mussolini foi se agigantando até realizar o seu sonho de liderar as massas, apresentando o projeto dominador que conhecemos.

A questão é saber quais as lições que podemos hoje tirar disso. “Vincere” pinta em cores fortes um quadro onde a violência não está somente nas espetaculares manifestações do poder, do controle e da guerra, mas principalmente nas circunstancias que produzem o apagamento institucionalmente legitimado das forças que visam combater a brutalidade e se diferenciar da homogeneidade imposta. Mostra também a força do medo que sugere a adesão à maioria e, last but not least, a sutil identificação com os ideais de potência que excluem as diferenças e empobrecem o pensar. No limite, até mesmo Ida Dalser se deixou levar pela fantasia de ocupar um lugar princeps na trajetória de seu amante. Este encontro trágico lhe custou a vida, antes mesmo que a morte viesse ceifá-la definitivamente.

Mas não há apenas questões graves e uma história contada com precisão. Há cinema de alta qualidade, que dispensa qualquer remetimento aos fatos históricos, tal a força poética com que apresenta os afetos que tomam conta dos personagens no decorrer da história. Não bastasse isso, há uma belíssima homenagem ao cinema como veículo que induz ao pensar e permite a catarse das dores, fazendo falar o indizível – a cena inclui Chaplin, mas descrevê-la seria indelicado com a curiosidade do leitor. Há também, discussões não conclusivas (o que é ótimo!) sobre a função da psiquiatria e psicanálise como instrumentos capazes de libertar tanto quanto aprisionar as subjetividades, sobre o papel da igreja no amortecimento da indignação. Enfim, a generosidade de Bellocchio é grande. Suas provocações seguem este diapasão.

A direção e o roteiro (Bellocchio e Daniela Ceselli) privilegiam a possibilidade de trazer a história para o aqui e agora, para o nosso tempo, não relegando as coisas a um passado que já estaria (supostamente) exumado. Ao todo momento estamos convocados a tomar partido, afetados pelos diálogos, pelos olhares, pelo andamento das cenas com suas superposição de tempos e expectativas. As metáforas são postas evitando o distanciamento que anestesia, induzindo a sonhos/pesadelos que insistem e ainda pedem compreensão. A fotografia (Daniele Cipri) e a direção de arte (Briseide Siciliano) se articulam para oferecer o clima sombrio que perpassa todo o filme, com uma reconstituição de época precisa. A trilha sonora (Carlo Criveli) pontua com destreza vários momentos importantes.

Do elenco, todo ele afinado, destaca-se a bela Giovanna Mezzogiorno. Sua Ida Dalser – e o filme trata principalmente de sua trajetória – é carregada de nuances lindas que destacam seu desejo de mulher, de mãe, de poder, de contestação (por vezes até involuntária) ao fascismo. Ousada, elegante, desesperada, patética, lutadora, enlouquecida, Ida sintetiza de certo modo as angústias e incertezas de uma época, ao mesmo tempo em que se faz potente na sua feminilidade abrasiva. Uma composição genial.

Finalmente, cabe lembrar que nos dias de hoje, encharcados de fundamentalismos (não apenas no Irã, diga-se) e boçalidades culturais que se alçam ao patamar de grandes ideais de felicidade, a função da arte e da poesia como matéria de reflexão e desconstrução das verdades que se querem naturais se põe de maneira ainda mais pungente. Bellocchio sabe disso, e inventa uma cena na qual Ida, isolada num hospício, de posse de muitas cartas, escritas para o filho, para os familiares, para as instituições, para o duce, se lança às grades para lançá-las ao vento. É uma linda noite de natal, e pendurada nos ferros ela encontra como única testemunha de suas cartas a neve que cai e o céu que paira acima de seu infortúnio. Como para dizer que no auge da trajetória fascista, do Vincere, não há lugar para o acolhimento da dor e da escritura que recebe a carne dilacerada dos excluídos.

Pura poesia para provocar o pensamento e incendiar o espírito. Simplesmente imperdível.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : Comentar