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FILME

“Deixa ela entrar” de Tomas Alfredson

Foto: divulgação

Com o espírito aberto para a presença do estranho

Comentário do filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“Deixa ela entrar” de Tomas Alfredson

Provocado por uma amiga cinéfila e instado a dar uma opinião sobre “Lat Den rätte Komma in” (título original), produção sueca de 2008, a princípio só pude justificar o fato de não ter visto esse elogiado filme por conta da muitas ofertas ocorridas nos últimos tempos e que optei em ver e comentar. Mas a cobrança calou fundo, como se diz, e arrumei um tempo. E não me arrependi! O trabalho de Tomas Alfredson, baseado no romance de John Aguide Lindvist (com roteiro do próprio) surpreende bela beleza plástica, pela condução sensível ao clima sombrio e de muito suspense, pela exuberante fotografia e pela trama que compõe a estória, espécie de conto de fadas (ao avesso), prenhe de referências aos contos fantásticos (Hoffmann, Maupassant, Poe, por exemplo) que no século 19 produziram a possibilidade de incluir o extraordinário como matéria de reflexão diária e encontro com dimensões da existência que um certo racionalismo pretendeu varrer para baixo do tapete.

Numa apreensão mais imediata é uma simples estória de vampiro (mais uma!), na qual se apresenta a famigerada mensagem sobre a solidão deste ser condenado a viver nas trevas, gozando e sofrendo com sua sina, alimentando-se do sangue das pessoas que vitimiza com sua voracidade (em permanecer vivo, diga-se) e crueldade. Só que aqui se põe a questão de saber até que ponto esse outro assustador não é também constitutivo das experiências dos comuns e pertencentes à norma. Se tomarmos pelo exemplo do protagonista, o menino Oskar, esse outro desconhecido que diz de desejos, fantasias e ações que se marcam pelo paradoxo de admitirem em simultaneidade a estranheza e a proximidade íntima, essa presença é fundamental. Mais do que isto, capaz de oferecer uma proteção, lá onde outra forma de solidão – a da ausência de amizades e o confronto/derrota com os meninos mais “fortes” e violentos, com todas as humilhações características – ameaça tornar-se mortífera maneira de existir. A pequena e bela vampira Eli, que compõe sua aparição na vida de Oskar em resposta aos chamados de algumas fantasias (de Oskar), único meio por onde ele se permite viver e aceitar sua própria agressividade é fator de transformação e expansão do menino. Potencializado e cada vez mais amparado pela entrada dessa velha-nova amiga, Oskar vai se permitir outras ousadias e coragens.

É claro que o filme centra seu argumento no impossível encontro de um mortal com um vampiro e na amizade e paixão que os une de tal maneira, que ambos vão com suas maneiras expecíficas expor à morte. E mostra que o erotismo que em algum momento explode é fator de sobrevivência na aridez gelada onde vivem. No entanto, o que se destaca na paisagem dura e sanguinolenta (claro!) é o que se tece no silêncio dos encontros, nas entrelinhas dos diálogos, nos detalhes dos olhares e pedidos, na sutileza das ofertas, enfim, nesse jogo de sedução entre o “monstro” e o “bom” menino. Jogo que é capaz de embaralhar os lugares e figurações, de tal modo que vamos encontrar em ambos atos que os destituem dos significados prévios, lançando-os em caminhos que deverão aprender, juntos. Ambos se protegem e ambos percebem a necessidade de estarem juntos. Sem isso se enfraquecerão e perecerão. Eis aí uma bela metáfora para a possibilidade de viver a estranheza que nos acompanha no dia a dia sem o horror e o pânico que por vezes experimentamos.

Além disso (ou justamente por isso), há humor, bom humor, nos diálogos dos dois, em algumas situações insólitas e nas surpresas que o magnífico roteiro prepara. Inclusive pela maneira poética de mostrar pelos contrastes, a solidão e a desafetação que marca a maior parte dos personagens, isso quando não se trata de brutalidade, e o carinho que acontece entre Oskar e Eli. A própria idéia de deixar entrar tem uma função afetiva reveladora dos laços que demandam acolhida e fortalecimento.

O que dizer mais? A atuação de Kare Hedebrant (Oskar) e Lina Leandersson (Eli) é deslumbrante e, por este motivo, palmas também para a direção de elenco a cargo de Anna Zakersson. A música de Johan Soderqvist é serena e capta com acordes bem construídos as múltiplas cenas que conjugam horror e delicadeza, violência e amor, sempre com o toque de solidão e busca que são marca maior do filme. Em tempos onde a brutalidade em relação ao outro corre o risco de tornar-se uma espécie de emblema de sucesso e poder, “Deixa ela entrar” sugere que a expulsão sumária da estranheza que nos compõe e alimenta, mais do que enfraquecer nosso poder de criação, é motivo de produção dessas mesmas brutalidades, as quais impossibilitadas de ter um lugar na vida simbólica, só podem se manifestar no horror concreto que cultura contemporânea oferece e estimula. Além disso, aposta no encontro das diferenças e dos diferentes como meio de afirmar a vida.

Se você foi tão relapso como eu, não perca mais tempo, vá ver (correndo). Se não foi veja de novo. Vale a pena.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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