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“Desejo, Perigo” De Ang Lee

DESEJO E PERIGO

Foto: divulgação

Contato íntimo com o indizível da violência e da crueldade.

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

Direção: Ang Lee

• Nas primeiras imagens de “Lust, Caution” vemos quatro mulheres jogando uma partida de um tradicional jogo chinês, como passatempo e meio de animar a conversa sobre as situações cotidianas de cada uma delas. Discurso um tanto vazio e óbvio no qual as duras consequências da guerra, especialmente a ocupação Japonesa aparecem somente através de breves alusões. Num encontro que funciona como um chá das cinco, todas as participantes parecem estar fazendo seu papel, e a cena funciona como indicação do tédio e da superficialidade impostos e aceitos.

No entanto, a insistência em focalizar o encontro nos seus diversos detalhes, e a oscilação da câmera entre os movimentos próprios do jogo e sua lógica e os olhares e ditos que circulam não tem apenas uma função descritiva. Serve como cartão de visitas para caracterizar a opção estética e ética de Ang Lee, neste drama sobre a segunda guerra, que vai muito além da discussão sobre as contradições e paradoxos da experiência de espionagem e resistência. Parece mesmo que o objetivo é figurar a invisibilidade que sustenta os movimentos de um arriscado jogo, no qual cada participante paga com as dores e excessos permanentes do corpo, e, no limite, com a própria vida. Mas, de qual jogo se trata?

É num clima onde a incerteza mais radical impera que se destaca a história de Wang Jiazhi, jovem chinesa que, menos agraciada com as opções do pai (que vai para a Inglaterra), permanece em Xangai e faz contato com um grupo de jovens participantes de teatro amador, que se voltam para o engajamento em atividades da resistência. Aí ela encontrará um norteamento, claro, na medida em que se fazem códigos possíveis para estabelecer os laços capazes de dar suporte a uma existência sem sentido. Mas ela também será capturada num jogo cruel, que consistirá em expor o mais visceral de seu corpo aos imperativos das estratégias de espionagem. Neste ponto ela habitará territórios desconhecidos e assustadores, sem que algum sentido possa ser construído fora daqueles que delimitam seu engajamento político. Muito pouco para suportar as consequências de um jogo no qual o outro participante é um homem tão sedutor quanto violento, frio no exercício das suas armadilhas, eficaz nas ações que dele fazem peça fundamental no aparato repressivo dominante.

O grande acerto na proposta de Ang Lee ao filmar história de Eillen Chang está em evitar os clichês explicativos (e psicologizantes) da relação entre dominador e dominado, no caso a paixão que explode entre o Sr. Yee e Jiazhi. Não há os tradicionais reducionismos que tratam o desejo como algo subjetivo e interno a cada indivíduo, algo que estaria além ou aquém das experiências políticas e sociais que marcam num dado período a existência e projetos de cada um. Ao contrário, as cenas entre Yee e Jiazhi, inclusive as ardentes e fortíssimas cenas de sexo, marcam os múltiplos afetos que explodem entre os dois e as reverberações disso nos outros encontros, principalmente aqueles que Jiazhi realiza, como peça fundamental do jogo de aproximação entre resistência patriótica e aparato repressivo traidor. Dores, ódios, incertezas profundas sobre as fronteiras do Eu, desesperos renovados, brutalidades que não encontram formas de se dizerem. Ao lado disso, uma espécie de carinho se faz entre eles, mas exatamente isso é a maior violência. Como suportar as diversas e duras expectativas que ambos devem cumprir, de acordo com as convicções que também são sustentadas com ardor? Capturados numa trama perversa, os protagonistas se fragilizarão um diante do outro e ambos diante dos aparatos a que pertencem.

Mas essa queda não terá a visibilidade espetacular das ações de guerra, embora as influencie. Ela se mostrará nos detalhes e sutilezas dos encontros nos quais já não sabemos exatamente que é quem. Mesmo Yee, na sua frieza e poder experimenta ausentar-se de seus emblemas. Isso é esperado, o jogo é esse mesmo, mas e para Jiazhi, com isto funciona?

Dizer mais seria retirar a graça de assistir um filme que impressiona pelas lindas imagens em contraste de cidades que vivem uma louca dissociação: pessoas famintas e errantes se misturando com cafés glamourosos e joalherias, luxo e luxúria lado a lado com a miséria e a opressão. A direção de arte (Joel Chang) e a fotografia (Rodrigo Prieto) são magníficas no auxílio a recriar uma atmosfera ambígua ao extremo, no mesmo diapasão das vidas dos personagens. O roteiro tenta evitar uma certa linearidade didática e na maior parte das vezes acerta. A direção imprime a marca da delicadeza para captar nas situações algo mais do que o esperado e óbvio, com enquadramentos que sugerem sempre o aspecto invisível e indizível do trágico de cada experiência. Proposta que encontra grande ressonância na trilha musical de Alexandre Desplat. O elenco está muito bom, com destaque absoluto para a dupla Tony Leung (Yee) e Wei Tang (Jiazhi). Ambos dão conta de forma ao mesmo tempo intensa e precisa da trajetória perigosa dos personagens.

Então, o filme está super indicado. Mais uma vez Ang Lee traduz com competência o universo das experiências-limite que acompanham e sustentam o humano.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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