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COMENTÁRIO DE FILME

"Enquanto o sol não vem" de Agnés Jaoui

"Enquanto o sol não vem" de Agnés Jaoui

Foto: divulgação

Jeito simples de colocar difíceis questões

Filme

"Enquanto o sol não vem" de Agnés Jaoui

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• No debate que se seguiu à apresentação em pré estréia de “Parlez-moi de la pluie” (título original) na Maison de France, a diretora Agnés Jaoui, interrogada sobre o seu modo de construir suas estórias e roteiros (numa parceria bem sucedida com Jean Pierre Bacri), destacou seu interesse em trazer tipos e questões que habitam o cotidiano das relações, partindo das situações reais para a ficção, para construir uma interlocução do cinema com a cena real. O que podemos perceber com esse trabalho é que esta interlocução é via de mão dupla: a partir da ficção, filmada e trabalhada com os recursos exclusivos do cinema, nos voltamos para a cena real e percebemos que ela está enriquecida, ao menos em charme e graça. E porque não?!

Os debates que são trazidos nas estórias e encontros estão na ordem do dia. O Machismo na política, a emancipação da mulher, as ilusões sobre a felicidade no casamento, os traumas e rancores do colonialismo, etc. Todos esses temas comparecem de maneira simples e direta, moldando a consistência existencial dos personagens e caracterizando a narrativa como um passeio pelas contradições de cada um, destacando seu esforço para transitar na difícil arte se caminhar abrindo mão dos códigos mais corriqueiros. Pisando em chão movediço ou até experimentando ficar sem chão algum, todos claudicam e caem. Até aí nada de novo. Tudo muito francês, não? O fato é que as quedas e/ou escorregões são tratados com mão delicada que destaca com simplicidade a comédia que reside nestas travessias. Se a humanidade é tragicômica nada de mais que possamos viver isso com um pouco de suavidade. A ponto de soltar boas gargalhadas. É aí que o filme faz uma grande diferença.

Seja como for, as trapalhadas de Michel (Jean Pierre Bacri, soberbo), na sua tentativa de fazer um filme documentário junto com Karim (Jamel Debbouce, muito expressivo) sobre uma mulher que abraça a política após uma carreira intelectual bem sucedida, a intensa Agathe (interpretada com destreza pela própria Agnés Jaoui), dominam as cenas e a costura das estórias que se encontram sugere um olhar que vai do público ao privado (familiar), mostrando sua diferenças e proximidades, sem a pretensão psicologizante de torna-los simétricos. Agathe tem uma irmã, a frágil Florence (Pascale Ardillot, com momentos deliciosos), insatisfeita no casamento, mas impossibilitada de romper com as comodidades que ele oferece. Ambas discutem antigas queixas familiares e se referem diretamente a uma empregada/governanta, Mimouna (Mimouna Hadji, sóbria), que ajudou na sua criação (e é mãe de Karim) e vive às voltas com o marido que a ameaça. Também Karim, casado, se relaciona de maneira ambivalente com sua companheira de trabalho, a sensual Stephane (Guillaume de Tonquedec, bela e provocativa no ponto exato) e nutre uma certa birra por Agathe, ao mesmo tempo em que Michel busca cuidar do filho e resolver pendências amorosas...

O andamento da trama não supõe grandes viradas dramáticas nem oferece surpresas para o destino dos personagens. Contudo, roteiro e direção alcançam o intento de aprofundar o olhar sobre as redes que vão se tecendo, as resoluções parciais que ousam se fazer, e especialmente, colorem com tiradas super inteligentes os diálogos e com humor desconcertante os gestos e comportamentos. Há momentos hilariantes entrelaçados a outros onde se fazem pequenos retratos das angústias e tristezas de todos. Mas sem melancolia, e com soluções que sem deixarem de ser rascantes encontram uma certa alegria para falar da parceria vida e cinema.

A produção é bem cuidada. As músicas escolhidas são ótimas (inclusive a que dá inspiração para o título do filme) e pontuam muito bem as cenas. A fotografia ressalta os tons mais fortes e consegue ótimas imagens. A destacar ainda os cortes, sempre muito precisos e a maneira como a câmera se volta para os personagens, despindo-os das formalidades e defesas para apreender a vida em seu nascer permanente.

Vale a pena conferir. Agnés Jaoui nos faz um carinho gostoso sem abrir mão da inteligência e do jeito intelectual francês.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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