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“ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA” de Fernando Meireles

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA de Fernando Meireles

Foto: divulgação

Perturbador retrato sobre os caminhos sombrios do humano

Filme

Ensaio sobre a Cegueira

Por uiz Felipe Nogueira de Faria

• Baseado no romance homônimo de José Saramago, o mais recente trabalho de Fernando Meireles segue à risca as sugestões contidas na história de um mundo humano que se vê reduzido a mais profunda degradação por conta do impacto causado por um mal que atinge proporções epidêmicas. De maneira inesperada e inexplicável, uma estranha cegueira vai pouco a pouco se alastrando e tomando a todos, colocando a nu a precariedade das relações e dos valores que as estruturam. Diante do horror que se instaura nenhuma ação se faz potente. Sob o signo da morte, restará como destino a exclusão de alguns e abandono de todos. Numa sociedade que prima pelos brasões eufóricos das conquistas e avanços tecnológicos a impotência e o desamparo se impõem com crueza.

Nesta atmosfera trágica apenas uma mulher terá a capacidade de ver e isto será também motivo de muito sofrimento. Isto porque a ela é proporcionada a possibilidade de testemunhar outras cegueiras – as que derivam da perversidade e violência exclusivamente humanas -, além de suportar a visão aterradora da degradação física e espiritual de seus “outros próximos”. Caberá a ela, com sua força e limpidez de caráter, apontar os caminhos de uma redenção possível. Não sem o dilaceramento inevitável de quem foi obrigado a ver mais do que poderia suportar.

O filme de Meireles se apossa dos emblemas que circunscrevem essa fábula trágica – espécie de “iluminismo sombrio” para usar as palavras de um importante pensador – com os recursos próprios ao seu modo de filmar: intensidade e apuro nas imagens, cortes de cena que produzem temporalidades variadas, andamento que alterna momentos de grande velocidade e outros onde a câmera se “fixa” de modo a captar mais delicadamente a afetação de um personagem. Neste filme o maior destaque se refere aos contrastes com que somos chamados a participar do mundo dos cegos e, ao mesmo tempo, testemunhá-lo junto com a protagonista. Os efeitos nos colocam no clima “enlouquecido” que vai se fazendo, experimentando, dos dois lados, as angústias e dispersões.

Além desse balizamento fotográfico, deve-se atentar para a maneira cuidadosa com que o filme contempla falas e dizeres caros à reflexão de Saramago e fundamentais para a compreensão da história (com o recurso, em alguns momentos, de produzir uma narrativa com voz em “off’”). Essa proximidade, porém, se faz com inteligência, isto é, não se detém no mero comentário do livro, afirmando a especificidade da linguagem cinematográfica, especialmente para retratar os muitos afetos que percorrem os personagens.

Os atores também estão ótimos, especialmente Julianne Moore, a “heroína” contemplada com a sabedoria de perceber que em terra de cego quem tem olho não é rei, Gael Garcia Bernal, supra sumo da perversidade que alcança as raias de uma brutalidade mortífera, e Danny Glover, este vivendo com maestria a singeleza contida no percurso de se humanizar pela dor e pelo reconhecimento da importância do amor pela vida.

“Blindness” possui uma inegável pujança e o impacto que causa é enorme. O sentimento claustrofóbico e o “incômodo visual” são inevitáveis, tanto quanto os sustos provocados pela musicalidade incidental. Se o cinema pode e deve inquietar é necessário dizer que este trabalho se situa neste campo. Nem que seja pela ousadia irônica de fazer da imagem em movimento um veículo para falar (e fazer falar) da cegueira.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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