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“Entre os muros da escola” de Laurent Cantet

“Entre os muros da escola” de Laurent Cantet

Foto: divulgação

Lição de arrojo em filme que pensa o ensinar como abertura para as diferenças.

Filme

Entre os muros da escola

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• O filme de Laurent Cantet, palma de ouro em Cannes (2008), traz de imediato a questão de saber o que se faz necessário para sustentar um projeto de trabalho pedagógico com pessoas que se situam à margem de um determinado padrão cultural, e que, por isto mesmo, sofrem de limitações (cognitivas e afetivas) para apreender determinados esquemas propostos pelo regime oficial. Ao mesmo tempo, essas pessoas – adolescentes que são tornados alunos a partir de sua admissão numa instituição escolar – possuem (e afirmam) seus modos próprios de pensar e dizer, produzindo ações que quase sempre se conflitam com um projeto mais normativo. Assim, “Entre lês murs” (original) tenta habitar um território no qual os personagens (professores e alunos) enfrentam o desafio de se refazerem, buscando outras referências para definir a si mesmos e a seus interesses.

É verdade que esta perspectiva é mais assumida pelos professores, em especial François, que leciona francês e se propõe a “meter a mão na massa” criando com os alunos uma proximidade (e até intimidade) que na maior parte das vezes se aproxima da perda dos brasões que forjam uma certa identidade do professor. Não, François não é tolerante e bonzinho, mas assume o propósito ético de suportar a enormes diferenças com seus alunos, circulando pelas difíceis questões disciplinares. Em alguns momentos sai chamuscado, claro. Contudo, consegue construir com seus atos o respeito que os alunos demandam, para além de suas óbvias dificuldades e até bizarrices. Seguindo a máxima da velha canção que afirmava “o homem que diz dou não dá, porque quem dá mesmo não diz”, François vai até o limite de sua ousadia, sem a pretensão de se auto referenciar, deixando aos alunos a possibilidade de devotarem a ele também seus ódios e pequenas injustiças.

Ao contrário do que se possa pensar o filme não destaca nisto nenhum heroísmo. O trabalho de Laurent Cantet tem a sensibilidade de evitar os maniqueísmos de praxe, adotando um estilo que privilegia enquadramentos que trazem o primeiro plano como recurso para destacar as emoções à flor da pele. Com isto, todos estão num mesmo patamar, inclusive o professor, freqüentemente surpreendido pelas tiradas dos alunos (algumas sem nenhuma cerimônia) e construindo suas respostas (seu lugar de professor) no calor do jogo. Errando ou acertando François se inclui neste jogo, aí está sua lição maior, para os alunos e para nós.

Deste modo, o filme caminha entre o documentário e o ficcional, com um ritmo que segue as falas na sua máxima intensidade, seja nas situações que ocorrem na sala de aula seja nas situações que caracterizam os “bastidores”, na conversa dos professores sobre as estratégias de sustentação das leis e convenções da escola. O roteiro (adaptado do livro de François Begaudeau, com diálogos e frases espirituosas que não tiram a atenção para a mensagem silenciosa do mestre) e a fotografia que destaca tons fortes sem glamourizar os personagens, trazem ótimas contribuições.

Muito mais se poderia dizer desse belo trabalho. Mas bastaria a força da última cena para demonstrar a afinação de Cantet com a idéia que atravessa o filme de ponta a ponta: o que justifica o trabalho de um professor, a razão se ser última de seu esforço é o aluno, com suas provocações e peculiaridades. É ele que dá vida a uma sala de aula, e é a vida, em última instância que justifica qualquer projeto ético.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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