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Reflexões de um Psicanalista

FANTASIA

Quem saberia perder?

Por Sergio Rossoni

Gostaria de falar um pouco sobre algo que nos acompanha ao longo de toda nossa vida. Trata-se da fantasia e conseqüentemente da frustração! Antes, porém, gostaria de esclarecer que a fantasia à que me refiro é a fantasia inconsciente presente em cada um de nós. Roteiro imaginário em que o sujeito está presente e que representa, de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos, a realização de um desejo e, em última análise, de um desejo inconsciente. (Dicionário de Psicanálise – Laplanche e Pontalis).
Fantasia é o MEU desejo de que tudo na vida aconteça da forma como EU quero! Pronto. Já podemos ter uma boa noção do que chamamos de fantasia.
Até aqui você pode estar concluindo que fantasia é algo ruim, e devemos então exterminá-la de nossa existência e pronto, tudo resolvido! Negativo!
A fantasia pode ser entendida como uma espécie de defesa, cujo objetivo é dar conta de uma ruptura ética em nosso desenvolvimento, ou seja, uma defesa contra nossas ansiedades. Ansiedades estas que têm início ao nascer.
Imaginem um bebê, quentinho e protegido no útero da mãe, recebendo alimento, contando com a presença desta que lhe carrega em seu ventre todo o tempo, desenvolvendo-se dentro do que imaginamos ser uma sensação de plenitude, etc. De repente, escorrega por entre as pernas da mãe em direção ao mundo externo, arrancado do seu mundo quentinho e protegido, passando a sentir estranhas sensações corpóreas e desconhecidas como frio, fome, sede, despertando incertezas e medos que serão confirmados ou não, pela forma como o seu meio ambiente se apresentar.

Bem vindo à vida real! De qualquer forma, algo é sentido como perdido. Aquela sensação perfeita, longe das intempéries da vida real foi perdida. Aquela plenitude uterina....Nunca mais!
O mundo real se apresenta cheio de obstáculos, conflitos, frustrações, gerando medos e angustias, totalmente contrário do mundo outrora vivido sem nada disso, agora desejado e fantasiado.
É preciso fazer alguma coisa com estas sensações de medo e insegurança trazidas pela realidade. Um dos dois princípios que regem o funcionamento mental, segundo Freud, é o principio do prazer. Contrário do principio de realidade que aponta para a vida real, a atividade psíquica tem por objetivo evitar o desprazer e proporcionar o prazer. Através de algo chamado recalque, tais ansiedades permanecerão escondidas no inconsciente, longe de nossa percepção consciente. Mecanismos de defesas como onipotência, cisão, idealização, negação, são criados pelo aparelho psíquico para garantir que tais desprazeres mantenham-se afastados.
São estes mecanismos que nos garantem a ilusão de poder controlar o processo da vida, mantendo as frustrações afastadas, ou simplesmente negando-as, ou ainda idealizando grandes objetos que nos garantam a segurança. Processos estes cuja utilidade é tornar a realidade suportável.

Assim, vivemos protegidos por armaduras rígidas, que nos protegem no combate diário contra o senhor desprazer. Logo, passamos a viver uma realidade, recheada por fantasias que amenizam a dureza da vida. Começamos a entender que o conceito de realidade é singular para cada ser vivo.
Único. Eu percebo a minha realidade através das minhas fantasias. Viver somente na realidade seria algo impossível. As fantasias tornam o viver mais ameno, satisfatório. Fantasiar é sonhar. E sonhar, é necessário. Sonhar é o analgésico da vida. O desejo de realizar um sonho faz o ser evoluir em vários aspectos. O ser humano não se mantém na realidade sem o apoio dos sonhos e esperanças, ou melhor, dos desejos. Até aí tudo certo. Muitos sonhos e desejos devem ser realizados, afinal, são eles que nos impulsionam na direção da criatividade, proporcionando evolução, desenvolvimento, crescimento, etc.
No entanto, existe dentro de cada um, inconscientemente, o desejo de realização de um sonho maior. Alcançar a plenitude! Aquela, outrora perdida.
O retorno ao estado pleno onde não exista a dor, a frustração, a fome, etc. Um estado somente de realizações e segurança. A mesma segurança sentida um dia no útero materno. Um mundo pronto para atender a todas as demandas do ser.

Assim, eu passo a desejar que o mundo real atenda a estas demandas: um mundo pronto para me servir, me reconhecer, me agradar, me acolher, onde tudo TEM QUE SER DO JEITO QUE EU QUERO!
Este desejo torna-se o grande sonho.
Não um sonho qualquer, mas o sonho.
A realização de todos os meus problemas.
Sem ele, eu estarei no limbo da vida cruel e ordinária. Com ele, estarei na plenitude. Na busca por este ideal inconsciente, ocorrerá um deslocamento para objetos e situações diversas, onde a plenitude ou esta sensação maior será agora sentida através da realização ou conquista de algo, que me faça sentir mesmo que temporariamente, vivendo em um mundo pleno.

É como se estes objetos agora denominados de objetos bons, garantissem certa segurança inconsciente diante das intempéries da vida. Assim, por exemplo, um carro importado, um cargo alto na empresa, qualificações, MBA, etc, etc, etc, podem representar a plenitude, tornando-se um objeto bom, necessário para que certas pessoas sintam-se plenas, reforçando a fantasia de segurança e poder diante dos medos internos.
Até mesmo a escolha de uma profissão, pode vir junto com a promessa de uma vida plena.
Para piorar, pode vir mediante a fantasia do outro, projetada em cada um de nós.
Um médico certa vez virou-se para mim e disse: “Cheguei à conclusão de que me tornei médico, porque este era o desejo do meu pai”. Além de criarmos nossas fantasias, ainda somos bombardeados pela fantasia do outro, ou seja, neste caso, o desejo do pai, que muitas vezes vive a sua fantasia realizada através de um filho.
No que tange aos relacionamentos amorosos, verificamos verdadeiros desastres regidos pela não compatibilidade entre as fantasias de cada um, uma vez que o parceiro(a), é aquele que deverá assumir a responsabilidade de levar o outro ao estado pleno, correspondendo ao desejo inconsciente.
É bastante comum escutarmos comentários como: “Quando nos casamos, ele era outra pessoa. Agora, tudo acabou”. Muitas vezes, nos casamos com nossas fantasias, sem perceber de fato o ser real por detrás daquele véu ilusório que criamos. É o chamado “sonho de princesa ou príncipe”, casar-se com um ser que nos ame, nos mantenha longe dos perigos reais e imaginários, nos assegure felicidade e riquezas, filhos, etc, etc, etc. No entanto, quando a fantasia vai dando lugar para a realidade, e o príncipe deixa sua capa e cavalo branco de lado, tornando-se um ser humano real, o conto de fadas tende a acabar.
O parceiro até então escolhido não é mais sentido como aquele que seria capaz de resolver o problema interno do outro. Daí, pessoas partem para uma nova tentativa de realizar este desejo, este sonho.
Surge um novo parceiro, e com ele, a promessa de que desta vez, vai dar TUDO CERTO DA FORMA COMO EU QUERO!

Citando outro exemplo, quem nunca vibrou aguardando uma festa tão desejada, e depois de sua realização sentiu uma pontada de decepção? Claro, na imaginação, a festa sempre é perfeita, com a paquera perfeita, com todos os amigos desejados, etc. Na fantasia, a festa já aconteceu plena, perfeita. Na realidade, basta aquele amigo faltar na festa para causar uma ponta de decepção, dizendo: Achei que seria mais legal! Não foi como havia imaginado!
Viver somente na fantasia é frustrante, pois nos impede de curtir o real, da forma como se apresenta diante de cada um de nós. Recentemente, estava eu quase fechando negócio na compra de um imóvel, no bairro que sempre morei, na rua desejada, no andar perfeito, com a vista maravilhosa.
Infelizmente, não deu certo.
Entrei numa pequena depressão, e precisei da ajuda do meu analista para entender que estava vivendo na fantasia. Era como se a cidade de São Paulo se resumisse somente ao bairro desejado.
Naquele momento, tinha a certeza de que não seria feliz em nenhum outro lugar.
Outros imóveis deixavam de existir, sendo aquele apartamento, sinônimo de felicidade e realização plena. De repente, tudo que já havia feito, até mesmo a reforma do imóvel (na minha imaginação), havia ido pro buraco. O sonho havia acabado num simples telefonema.
Trabalhando com meu analista, percebi que aquele bairro, onde por sinal cresci, bem como aquele apartamento, representavam muito mais do que imaginava. Representavam um sonho.
Aquele sonho de alcançar a situação plena, onde tudo estaria resolvido na minha vida inconsciente. Um resgate ao meu passado, revivendo minha infância no hoje.
O apartamento, não era só um apartamento. Era o sonho que precisei dar conta no final. Foi preciso jogá-lo fora, pois na real, ele não traria de volta a sensação da plenitude, buscada na infância, na adolescência, e hoje na fase adulta.

Após viver o luto do sonho jogado fora, o apartamento passou a ser somente um bom apartamento num bairro muito legal. Mas foi preciso um certo trabalho para dar conta disso.
Jogar um sonho fora e viver seu luto é algo doloroso. Daí, nossas frustrações.
A plenitude não existe!
Muitas vezes quando não realizamos nossos desejos, não obtemos o carro, a casa, o cargo desejado, sentimos um imenso vazio, como se o grande sonho tivesse sido perdido. Lembrando que este sonho já foi perdido há muito tempo, somente não nos demos conta. O objeto bom foi perdido. A fantasia foi perdida. Um projeto foi perdido. Caímos então na depressão.
Muitas vezes, reagimos com agressividade, carinhas feias, etc, dando verdadeiros showzinhos mimados, cada vez que o mundo não corresponde a nossa fantasia.
Falta de tolerância em lidar com frustrações. E na fantasia, é o mundo que está errado.
Melanie Klein denominou o estagio do desenvolvimento do ser, onde aprendemos a lidar com a perda deste “sonho” como posição depressiva. Neste estágio, aprendemos a tolerar as frustrações, a perda, vivenciar o luto, assumir responsabilidades diante da vida, lidar com sentimentos de culpa e desejo de reparação. No entanto, a passagem por esta posição nunca é devidamente concluída por nós. Assistimos diariamente homens e mulheres serem lançados à depressão por não saberem lidar com suas perdas.
A vida não necessariamente se ajustará aos seus desejos da forma como você fantasiou!
Para encerrar, lembrei-me de uma música linda chamada “Quem saberia perder”, composta e cantada pela dupla Sá e Guarabira, cujo refrão diz: “Diga quem nunca levanta de noite querendo de volta o perdido”.
Quanto ao apartamento (sonho) que perdi, ainda tenho esperanças de que apareça outro (sonho) a venda naquele mesmo prédio, afinal, a esperança é a última que morre. Porém, ela morre um dia.
No entanto, como nossos queridos poetas cantam: Quem saberia perder?

Sergio Rossoni é Psicanalista, Músico e Escritor
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