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"FATAL (Elegy)" de Isabel Coixet

FATAL (Elegy) de Isabel Coixet

Foto: divulgação

Classe e arrojo para abordar histórias de amor e morte

Cometário do filme

FATAL - Filme com Penelope Cruz e
Ben Kingsley

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Uma reflexão sobre o tempo. O filme de Isabel Coixet, adaptação do romance de Phillip Roths, traz como principal protagonista esse cruel e inevitável componente da experiência humana. Seja pelas questões suscitadas pelo passar do tempo e seus efeitos visíveis no corpo e na maneira de encarar a vida – isto é, envelhecimento -, seja pelo desconcerto que um acontecimento que não se encadeia na linearidade de uma história provoca, produzindo uma temporalidade que não mais se identifica (e/ou reduz) ao tempo cronológico – no caso, uma paixão amorosa -, o convite do filme é claro: testemunhar o encontro do humano com o tempo, especialmente com aquilo que concretiza a sua finitude: a morte. Nesta estrada, por vezes tão dolorida, caminham os personagens, entre aturdidos e esperançosos, cínicos e críticos, grandiosos em sua ousadia e apequenados em pequenas covardias. E não se trata de retomar velhos clichês sobre a relação homem-mais velho-experiente-liberado e mulher-jovem-linda-descolada. Tanto nas imagens quanto nos diálogos não há concessões ao politicamente correto nem aos psicologismos de ocasião. Não, a aposta é outra.

Elegy diz de um sentimento de pesar pela morte de um outro querido. Ao acompanharmos o desenrolar da trama (por sinal muito bem trabalhada, sem antecipações desnecessárias ou explicações gratuitas, o que respeita a inteligência do espectador) vamos aprendendo que este sentimento pode também ser devotado ao si próprio, em situações inesperadas, sobretudo aquelas que clamam por uma urgente transformação das certezas e comodidades com que apaziguamos nossos clamores. É assim que o professor David Kepesh, tido como hedonista e libertário, crítico contundente da monogamia e dos ideais mais conservadores, se vê capturado pelo ciúme e pelas mais aterradoras fantasias de abandono por parte de sua linda aluna, Consuela Castillo. A partir daí um mar de questões turbulentas irão conduzi-lo a rever, ao menos em parte, seu modo de viver e codificar as relações. Não sem angústias e horrores.

Ao mesmo tempo, observamos outros encontros de David, com o amigo George e com a amante “ideal” Carolyn. Com cada um deles Davis troca confidências e idéias que parecem estar mais adequadas ao tempo, ao seu tempo, velho homem (com amarguras inegáveis, inclusive a de um relacionamento coberto de mágoas com o filho) Mas qual a temporalidade que o habita quando se trata de amar e adorar o corpo de Consuela? Caminhando simultaneamente em tempos heterogêneos, aquele que destaca suas rugas, desencantos com o casamento, e até mesmo, seu distanciamento crítico no tocante às ilusões amorosas, e aquele em que se descobre excessivamente jovem (mais do que sua parceira) e menino, o professor seguro e conquistador se depara em ambos com a figura da morte. O que é mais interessante: ela não tem uma aura negativa, a não ser quando David tenta negar a afetações e fugir dos acontecimentos.

Já com Consuela, as coisas se passam de outro modo: ela é efetivamente jovem e bela. Porém, não se curva diante das evidências dos códigos do senso comum e assume o romance com o parceiro. A ponto de convocá-lo para algo mais, digamos, formal. Aí outros tempos se farão para ambos...

Convocado para ver “Elegy” por uma amiga, cinéfila sensível e atenta aos efeitos do cinema (dito) “cabeça”, vi-me repentinamente testemunhando uma espécie de êxtase, tal a profusão de cenas de grande intensidade e beleza. A plasticidade das imagens, a precisão da fotografia em captar os vários tons e cores que denotam as passagens de estados e tempos, além do vigor na captura sensível das formas de Consuela (elemento fundamental na trama) são de tirar o chapéu! Além disso, quando se trata de captar em Carolyn e George as marcas corporais do envelhecimento, isso é feito com um apuro e um respeito tais que as questões que por si só já se colocam na visualização dessas figuras não perdem a força. Os diálogos são tensos, claro, mas um certo humor trágico os atravessa. A crueldade do humano e de sua existência não é atenuada, mesmo nas seqüências finais, com todas as reviravoltas que se operam. Contudo, resta a marca da solidariedade, não aquela, hipócrita, que reivindica o reconhecimento e o elogio, mas a real e sincera que se apóia no erotismo, dos corpos e dos corações.

As atuações do elenco estão ótimas. Ben kingsley (David) consegue produzir uma interpretação sem estereótipos e com a densidade adequada quando se trata de localizar as passagens do tempo e lugar no personagem; Penélope Cruz, além da beleza estonteante, comparece com uma composição repleta de nuances afetivas, o que torna sua Consuela tão desconcertante para nós quanto para seu partner. Nas cenas finais seu desempenho é excepcional. Do mesmo modo, Dennis Hopper (George) faz na medida certa o amigo cínico, crítico, desconfiado e absolutamente necessário, espécie de alter ego de David. Afetivo e insinuante, George deixas marcas que funcionarão permanentemente. Patricia Clarckson, a amante-confidente e Peter Sargaard, o filho que repete a história, apesar de todas as críticas ao pai, estão muito bem. A direção prima em evitar os recursos fáceis das exclusões binárias, buscando se voltar, com romantismo e acidez, para as várias dimensões de cada ato e afetação, destacando as mutações que põem fim (um destino da morte) a uma certa continuidade dos fatos da vida e as situações que inauguram (outro destino da morte) novas emergências, outros Eus. Não bastasse tudo isso, somos brindados com lindas músicas, de grandes compositores.

É um filme muito bonito, mesmo. Vá conferir o quanto antes.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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