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FILMES

“FELIZ NATAL” de Selton Mello

FELIZ NATAL filme de Selton Mello

Foto: divulgação

Dura exposição dos dramas e feridas familiares

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“FELIZ NATAL” de Selton Mello

Luiz Felipe Nogueira de Faria

•O trabalho de Selton Mello, primeiro como diretor e roteirista, impressiona pela capacidade de captar a solidão e as angústias que atravessam os encontros familiares, enfocando sua incidência num contexto onde sua aparição é ao mesmo tempo necessária e insuportável: a festa de natal. Até aí nada de novo. Todos sabem que a mais familiar das tradicionais festas de fim de ano também é capaz de reunir dores, ódios e dilaceramentos suficientes para assustar os mais ingênuos, e constranger os hipócritas. O que faz desse trabalho algo digno de nota é o tratamento dado às sabedorias que habitam nosso imaginário mais comum: sem concessões ao clima de consumismo, cruel na abordagem dos destinos dos personagens, lúcido ao enfocar com destreza os vários “olhares” que compõem a festa, desde a ternura infantil até a paixão ardida, mergulhada em profundas culpas e improváveis remissões.

É da possibilidade de conjugar diversos pontos de vista, marcados pelo modo próprio como cada personagem vive o natal, que se encontra a força dramática da história. Todos têm suas razões e motivos, todos demandam acolhimentos e carinhos que não encontram a recepção esperada e necessária, todos circulam no silêncio dos fragmentos e da ausência de sentido para estarem juntos. Ao mesmo tempo, todos buscam estabelecer (ou re-estabelecer) algum laço, algum sentido, alguma paixão mais suportável, ainda que essa busca só encontre alguma ancoragem na exterioridade dessas relações. No ponto mais extremo dessa provocação surge, como num fio invisível e insistente, a idéia de que a construção de uma verdadeira rede familiar prescinde da formalidade do “clã”, alcançando maior consistência nas miúdas ações que, à margem do instituído, produzem amizade e conforto.

Então, temos o retorno de Caio, uma espécie de filho pródigo às avessas, ao seio de sua família (justamente na noite de natal!), após uma longa ausência. Afogado em culpas e reminiscências que não descansam, sua aparição dispara ambivalências terríveis, tão terríveis quanto aquelas que emanam da violência consentida expressa na decadência de Mércia, sua mãe. Para completar esse panorama sombrio, um irmão sofrido, esmagado por um casamento que não mais suporta e pelas demandas que deve atender, da mãe e do pai, este um poço de mágoas e ódios, drenados pela proximidade de alguns amigos e a conquista sexual de uma jovem mulher, às custas de próteses químicas, fato alardeia com um certo orgulho. Caio também se encontra com velhos amigos, também solitários e decadentes. Aí alguma solidariedade acontece, mas o abismo que há entre eles se afirma a cada instante. É pouco? Bem, no meio de tudo isso, há o olhar curioso e brincalhão das crianças, generosas, únicas a extrair, neste cemitério de ilusões, algo verdadeiramente lúdico. Mas entre elas mesmas, não pelos adultos.

Falar do famigerado “espírito de natal?” Sim, mas para receber a dor de cada um destes personagens, fazê-los próximos a nós, humanizando-se em suas tentativas de escapar da mera sobrevida. Para lembrar, também, que a tarefa de transformar a vida e refazer os laços é urgente. Antes que tudo não passe de “ferro velho”, onde Caio trabalha e vive, e que é uma das interessantes metáforas que o filme propõe sobre o (possível) destino das relações e afetos. (Claro, também é possível encontrar algo nos restos. A última cena do filme indica isto).

O filme de Selton Mello é de ótima qualidade, artisticamente falando. A começar pela direção de fotografia e câmera (Lula Carvalho), perfeitas na caracterização do clima lúgubre e no modo fragmentado das vivências dos personagens. Os atores que formam o quinteto principal – Leonardo Medeiros, Darlene Glória, Graziella Moretto, Paulo Guarnieri e Lúcio Mauro - estão excelentes, destacando-se Leonardo Medeiros (Caio), Darlene Glória (Mércia, a mãe sofrida e cada vez mais enlouquecida). Sem esquecer de Fabrício Reis (o menino Bruno) que leva em momentos importantes a suavidade e sabedoria da estória. A direção e o roteiro de Selton (o último em parceria com Marcelo Vindicatto) articulam de maneira inteligente os (des) encontros de cada personagem, destacados nem tanto pelos diálogos (rascantes, explicitamente agressivos), mas pelos gestos feitos em silêncio e no silêncio dos transbordamentos que todos experimentam. É aí que a música de Plínio Profeta entra magistralmente, pontuando e até desenvolvendo contextos de lembranças e situações indizíveis.

“Feliz Natal” tem a pretensão de construir uma narrativa mais autoral, menos voltada para os enquadramentos da narrativa clássica e melodramática. Consegue de maneira suficiente. Selton Mello declarou que buscava expiar alguns fantasmas e afetações próprias de sua experiência do natal. Deve-se reconhecer que seu filme tem o poder de realizar isso também conosco.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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