Filmes: comentários

FILME

"DO OUTRO LADO" de Fatih Akin

Do Outro lado de Fatih Akin

Foto: divulgação

Parábola sensível sobre a solidão, a morte e os encontros solidários

Filme

Do Outro Lado

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• As histórias e situações deste premiado filme (melhor roteiro, Cannes 2007) são em sua grande maioria de difícil digestão. Desencontros com conseqüências desastrosas, acidentes fatais que não fazem nenhum sentido na vida dos personagens (embora possam ser explicados na trama que se constitui), dores e abandonos intensos como quinhão que cada um carrega de forma mais ou menos resignada. Além disso, há uma atmosfera carregada de angústia, pelas separações inesperadas, mágoas não suportáveis, ódios sangrentos, perdas irreparáveis. Contudo, não se pode dizer que seja um filme depressivo e/ou pessimista. Porque?

A melhor tirada desse encantador trabalho é ser capaz de transitar com a mesma precisão para caracterizar os afetos destrutivos e os construtivos, entrelaçando-os muitas vezes, ou então estabelecendo uma seqüência na qual eles se seguem e se substituem, compondo um cenário de grande riqueza. Trata-se de mostrar as passagens entre Alemanha e Turquia, vividas no cruzamento de histórias que se remetem umas às outras, falando de pessoas se encontram e se desencontram nas idas e vindas entre esses dois países e culturas. Ocorre que as diferenças são destacadas como fator positivo e os acasos mais trágicos servem para o engrandecimento humano, em vez de suscitarem rancores e violência. Claro, eles existem, e não são periféricos! No entanto, a aposta de Akin é na possibilidade do perdão, na transformação das vidas pela ousadia do reconhecimento do desejo do outro, nas ações cotidianas que desbancam as incitações à intolerância. A onipresença da morte (real e simbólica) institui a vida como um bem maior, mesmo que nem sempre ela se faça generosa e pródiga.

Nesta linha, as cenas – quase sempre muito fortes – destacam as paixões, sendo elas que na verdade conduzem as escolhas e destinos dos personagens, delimitando para eles horizontes e caminhos possíveis. Assim, vemos o filho turco que após distanciar-se do pai, se reencontra com ele quando, mesmo na ausência, se dá conta da fundamental presença do pai em sua vida, a mãe alemã que depois de perder sua única filha, empreende uma revisão de sua caminhada, através de uma mudança radical do cenário cotidiano e da proximidade/ajuda da mulher por quem a filha havia se apaixonado e abandonado o conforto da casa materna. Esta última, guerrilheira dura e solitária, demonstra uma extraordinária coragem e riqueza afetiva, inclusive para buscar informações sobre sua mãe, sem saber do destino desta. Essas três histórias e as outras que se fazem no decorrer destes (des) encontros são pontuadas com muita sensibilidade, seja pelo genial roteiro, seja pela interpretação despojada de todo o elenco, ou ainda pelas tomadas de cena (algumas de uma beleza estonteante, apesar de carregadas de muita angústia, como a que encerra o filme) sempre intensas, cores expressivas e ambientes com uma tonalidade que descreve bem a trajetória tortuosa dos personagens.

Quando os personagens da grande diva Hanna Schygulla (ótima, claro) e Baki Davrak (sincero e intenso na medida certa) brindam à morte, nos damos conta de que além dos fatos que são aludidos existe o reconhecimento de que vida e morte não possuem uma relação de exclusão ou mesmo exterioridade. Ao contrário, tem-se mesmo a impressão de que este ato de brindar se dirige à própria vida, renovada a cada momento em que suportamos as perdas e fazemos do inevitável luto que se segue não um motivo de ressentimento, mas uma afirmação de amor à própria vida e ao destino, também na medida em que é possível nele intervir.

Por tudo isso, “Do Outro lado” é um filme belíssimo, capaz de fazer pensar e viver afetos positivos e intensos. Sem amarguras, mas sem os otimismos maníacos que nos assolam nesta pós-modernidade insossa.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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