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“JUVENTUDE” de Domingos de Oliveira

“JUVENTUDE” de Domingos de Oliveira

Foto: divulgação

Discussão sobre a escolha e suas conseqüências éticas

Filme

Luiz Felipe Nogueira de Faria

“JUVENTUDE” de Domingos de Oliveira

• O encontro de três velhos amigos numa casa paradisíaca em Petrópolis serve de mote disparador para a discussão, proposta por Domingos de Oliveira, sobre os encantos e desencantos de uma geração, a “sua” geração, como declara explicitamente logo no início. Das crenças nos poderes transformadores da Psicanálise e do Marxismo aos experimentos – sempre intensos – com os amores, paixões e sexo, os amigos, cada um com sua trajetória, reconstituem e re-significam suas vidas (escolhas), com muitas reminiscências e diálogos engraçados, além de homenagearem o cinema e o teatro, referências que pontuam as cenas/estórias de maneira permanente.

É evidente que se trata de uma leitura – mais uma dentre outras – dos valores, expectativas, conquistas e desilusões de participantes de uma geração que chega hoje aos setenta. Mas o filme passa longe de “intelectualismos”, nem possui a arrogância de dizer verdades últimas sobre a vida e as paixões que a animam (ou desanimam).

As questões que os amigos Davi (Paulo José, o milionário que recebe os “cardeais” para uma ceia regada a generosas doses de etílicos), Ulisses (Aderbal Freire Junior, médico com muitas histórias de conquistas amorosas e um drama familiar adequado aos tempos pós-modernos) e Antonio (Domingos de Oliveira, escritor e artista às voltas com afetações que não descansam, de amores passados e presentes), encaram e desnudam, dizem de vidas que são progressivamente desidealizadas, principalmente porque se trata de assumir as dores/delícias do envelhecimento, simultaneamente condição inescapável e abertura para uma certa sabedoria do corpo e das relações.

Mais dores do que delícias, naturalmente. Amigos da juventude, Davi, Ulisses e Antonio falam, enfocando o ponto de vista masculino, das mulheres perdidas, dos filhos, da morte. Falam também das conquistas amorosas, dos impasses próprios do desejo, dos medos das doenças, das dúvidas e angústias que não se extinguiram, dos ideais que não morreram, ao menos aqueles materializados na amizade que os une e os faz encontrar em meio à solidão um ponto de amparo e acolhimento.

Então, o humor (às vezes negro) com que as falas são singradas não deixa de ser um modo de assumirem sua orfandade diante dos mistérios da vida, além de uma ousadia diante da morte, que a cada momento espreita, sem perdão possível. Então, se não tem a pretensão de dar lições de vida para as novas gerações, “Juventude” estabelece um diálogo afetuoso com elas, consistindo aí seu maior mérito.

Desnecessário seria falar do roteiro e da direção de Domingos de Oliveira (premiados em Gramado), sempre muito fortes e auxiliados de forma brilhante pelo mestre da fotografia Dib Lutfi. As atuações dos três ases estão no ponto exato, especialmente Domingos e Paulo, o primeiro com tiradas cujo tom as faz hilárias, o segundo com a conhecida excelência nos gestos e no modo de encarnar o personagem com alegria, mesmo nos momentos de tensão e sofrimento.

O filme está mais do que indicado. Para todos aqueles que prezam a juventude, qualquer que seja o significado/vivência que se tenha dela.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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