
Por Luiz Felipe Nogueira de Faria
• “Johnny” é um bem situado rapaz da zona sul do rio de Janeiro, referência obrigatória para os consumidores de cocaína que junto com ele habitam as noites e festas regadas a essa e outras drogas cuja função é “patrocinar” o bem estar performático e prepotente dos corpos/afetos produzidos na cultura pop do espetáculo. “Johnny” diz à sua namorada, com um orgulho cínico, que é muito bom no ofício de não fazer nada. “Johnny” é fascinado pela velocidade e pelos encantos dos laços sociais efêmeros, esculpidos nos encontros furtivos onde se passa o pó, nos risos fáceis da euforia drogadita, na sensação de tudo poder sem tem que prestar contas nem mesmo à própria vida que se escoa em profusão. “Johnny” é consumido diariamente pela maquinaria que o engolfa como viciado-traficante de e da elite, que o torna presa fácil da corrupção policial e de ditames normalizadores tão hipócritas quanto perversos. “Johnny” circula com desembaraço neste mundo pensando dominar os códigos prescritos, embora não faça mais do que caminhar no rebanho dos ”fora da lei”, afirmando permanentemente e sem o saber a força desta mesma lei que, ao final, irá se impor, e de maneira cruel.
“Johnny”, ou melhor, João Estrela, não é apenas um indivíduo. Ele é uma instituição, a instituição garotão-doidão- sem limites- que se perde na loucura das drogas -e que só encontra redenção- quando é punido pelos seus “crimes’, encenando um ritual macabro que se repete ao sabor dos clichês e “verdades” jurídicas, sempre apoiados no velho mote da recuperação para a boa participação na sociedade(tudo isso mostrado em cenas muito bem feitas). Olhando sua trajetória com cuidado, observamos um autômato, que primeiro cai na rede do tráfico para depois cair na rede da justiça, sem que entre esses momentos se esboce a liberdade de um distanciamento crítico sobre este modo de existir. Numa cena emblemática dessa questão João responde ao parceiro de tráfico internacional, que lhe diz ter como meta acumular um milhão de dólares, que quer torrar um milhão de dólares...
Depois, quando a dor se fizer potente e desesperadora e a tarefa de pensar sobre o futuro, inescapável, João, enfrentando as prisões (a comum e a psiquiátrica), já não fará de si alguém fascinado pela velocidade e pelo glamour das nights. Haverá uma pausa onde um cuidado de si poderá se apresentar com real alternativa, em meio à solidão que o atravessa...
O filme de Mauro Lima descreve o percurso de João fazendo com sua história um jogo inteligente e respeitoso. Acompanha a velocidade desarvorada dos momentos “vitoriosos” emprestando à narrativa o mesmo ritmo do protagonista. Isto se percebe nos cortes de cena ágeis, no acompanhamento preciso dos movimentos que aos poucos vão dando à vida de “Johnny” um sentido outro que o de simples consumidor de drogas, nos enquadramentos que ajudam a caracterizar o universo “sem limites”, nos estonteantes movimentos de câmera que convocam-nos a participar da eufórica viagem cotidiana, enfim, nos diálogos graciosos que fazem do protagonista e seus companheiros (anti) heróis simpáticos e amáveis na sua ingenuidade alucinada. Já nos momentos que mostram o horror da derrocada e da violência prisional a construção das imagens privilegia a solidão de João Estrela, seu movimento de encontro com uma realidade dura e de uma violência que ele não conhece (numa dessas ótimas cenas, após participar de um espancamento que praticamente mata um detento suposto delator, um dos prisioneiros diz a João que ali não é hotel e que a doideira ali é outra).
Do mesmo modo, a caracterização do manicômio judiciário obedece a um encaminhamento que mostra um tempo que não passa, colado nas carcaças em que se transformaram os detentos, abandonados de si mesmos (embora realizando alguns atos solidários e de extrema sinceridade). Também aí temos a noção dos contrastes da vida de João, na medida em que ele é chamado a se adaptar a esta realidade sem a ela pertencer inteiramente. Em todos esses momentos somos chamados a estar junto com ele, não apenas testemunhando de longe seu infortúnio e sofrimento, mas vivendo com ele o tempo de uma outra subjetivação.
O único senão por conta da tentativa de dar sentido e explicar o percurso de “Johnny”. Aí primam os velhos clichês psicologizantes que mostram um pai ausente em sua função, doente (embora carinhoso) e desligado do mundo que seu filho produz na mesma casa onde ambos moram, enquanto a mãe, distante e algo aparvalhada, só consegue atinar para as coisas quando vê a foto de seu filho nos jornais. Mesmo assim, deve-se reconhecer que essa visita ao psicologismo é realizada de maneira discreta, sem impregnar de tons excessivamente melodramáticos a trama, esta sim bastante trágica.
Este ótimo filme conta também com uma música excelente, interpretações seguras e bem construídas (Selton Melo mais uma vez dá um show) e uma fotografia capaz de captar as cores e tons próprios dos contrastes da vida de João. Tudo parece ser integrar para nos lembrar que esta sociedade onde João Estrela vive é exatamente a mesma onde experimentamos diariamente as injunções drogaditas que estão sempre “na moda”, sejam elas o culto aos corpos belos e esculturais, ou às muitas performances sexuais, profissionais, num convite permanente ao embotamento e anestesia das afetações e possibilidades de exercício criativo do pensamento.
Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato
Copyright © 2007 • Nossadica • Todos os direitos reservados • Mapa do site • WebMaster • HostDica Serviço de Internet