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"O SONHO DE CASSANDRA" de Woody Allen

O SONHO DE CASSANDRA de Woody Allen

Foto: divulgação

Velho mestre em boa forma reflete sobre a vida
como experiência trágica

Filme

O Sonho de Cassandra do diretor Woody Allen

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Ao contar para o irmão as situações ocorridas no jogo de pôquer – no qual ganhou uma bolada – Terry destaca que a experiência mais forte tinha sido a de “quase perder”, dando a entender que a sensação do risco, necessariamente marcado pelo imponderável e inesperado, seria tão apaixonante quanto poder desfrutar da alta quantia que lhe coube naquela noite. Terry também joga nas corridas de cachorro, e lá também vive a alta e baixa do jogo, a mudança de sorte, bem como suas trapaças, sempre arriscando muito, no limite de suas possibilidades, melhor dizendo, além dos limites. O irmão Ian, por sua vez, não arrisca menos: faz-se passar por um alto empresário do ramo de hotelaria diante de uma linda atriz por quem se apaixona, sustentando diante dela a possibilidade de ser bem sucedido em Las Vegas – mesmo sem saber ao certo suas reais chances. Ao mesmo tempo, desfila, estiloso, com carros retirados da oficina do seu irmão, todos eles muito além de suas posses. Ambos resolvem comprar um barco apostando que conseguirão pagá-lo mesmo sem definir precisamente de que maneira. Desnecessário dizer que os irmãos Terry e Ian afirmam suas vidas no ato soberano do risco, do jogo, apostando alto (e blefando também, claro), produzindo uma idéia de futuro que se confunde com os mais ousados sonhos de jogador. Suas vidas primam mais pelo desperdício do que pelo acúmulo. Qual pode ser o destino que os espera?

Cena capital: Ian conversa com sua amada Ângela Stark após uma peça de teatro que ela protagoniza. Ela pergunta, um tanto perplexa, se a história que encenou não coloca questões relativas ao destino e a pontos enigmáticos das experiências das pessoas. Ian responde resolutamente que cada um faz o seu destino, quase dando fim ao diálogo. Resposta ligeira e firme, que não deixa margem a qualquer argumento. Mas e o inesperado com o qual Ian convive tanto e com o qual conviverá até o final, não conta? Seria o destino uma produção individual e de certo modo racional, ou algo situado além, onde forças outras participam e o acaso se afirma sem trégua?

A discussão que Woody Allen põe diante de nós parece se pautar na proposição de que a tragédia (que vai se anunciando pouco a pouco, para cada um dos irmãos) é imanente à experiência construída por cada um, e isto na exata medida em que é possível localizar, na experiência trágica, não um inimigo externo que se poderia combater, mas um inimigo interno, inescapável. Que o destino é muito mais um lance de um jogo (no qual participamos tentando algum controle), decidido em detalhes inesperados e até sem sentido. Tudo isso nos é contado de maneira simples e direta sem rebuscamentos, numa estória em que a conhecida mordacidade para pinçar os valores naturalizados da sociedade conservadora se faz presente. Com um corte preciso, materializado nas falas que servem muito mais para mostrar o escândalo da linguagem como equívoco e as paixões como arrebatadoras, ainda que recobertas por uma certa “insanidade”, Allen faz um thriller onde não faltam referências aos clássicos de estilo noir (discretas) e tiradas do velho modo de fazer comédia (o humano continua patético, para o mestre).

As situações nos quais os irmãos Terry e Ian vão se metendo, especialmente as que se desenrolam a partir do encontro com o tio Howard, que propõe trocar (poderoso e esperado) auxílio financeiro por um assassinato, se definem cada vez mais pelo absurdo. Mas um absurdo que faz todo sentido (como absurdo). Diante do ato (crime) cometido, ambos vão reagir de maneira muito diferente, mas permanecerão ligados, agora por algo que já não relaciona aos laços de sangue. Essa ligação terá um efeito mortal - permitirá pensar que o erro foi ter ido longe demais, como dizem, esgarçando o tecido onde se ancoravam, ou, para ficar na metáfora do jogo, apostando alto (e blefando) demais.

Mas como saber quando se está no excesso?
Como saber de antemão se poderemos suportá-lo?

As interpretações estão todas soberbas, Colin Farrel (Terry) acima de todos, mas Ewan Mcgregor (Ian) e a bela e sensual Hayley Atwell merecem menção honrosa. O roteiro é inteligente na maneira de caracterizar os personagens e indicar a iminência da catástrofe, sem que o clima de suspense se esvazie. A direção nos brinda com uma sucessão de cortes nas cenas finais absolutamente geniais, demonstrando que Allen não se coloca apenas falando sobre o trágico, mas que o faz tragicamente. O silêncio final, contemplando o sonho-pesadelo é fantástico.

Não se trata de dizer que este Allen é melhor que os outros mais recentes. Como bem observou a woodyalliana Sandra Marques, Match Point (também da fase londrina) não está abaixo e também acompanha com elegância o pensamento que reconhece o cômico e o trágico como dois lados da mesma moeda, inseparáveis, portanto. Mas não se importe demais com essa discussão. Vá ver e constate que o mestre continua a nos fazer pensar, com inteligência.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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