Filmes: comentários



FILMES - COMENTÁRIOS

“QUEIME DEPOIS DE LER” de Joel e Ethan Coen

QUEIME DEPOIS DE LER

Foto: divulgação

Mestria na condução de trama que escarnece dos impasses dos ideais contemporâneos.

Filme

“QUEIME DEPOIS DE LER”
de Joel e Ethan Coen

Luiz Felipe Nogueira de Faria

• O cinema de Ethan e Joel Coen nunca foi de fazer concessões aos ideais padronizados da sociedade de consumo. Também não agora. Se é possível reconhecer em sua obra o gosto pelo nonsense e a capacidade de inventar situações que denunciam o grotesco humano -com as boas doses de riso que necessariamente caminham juntas neste percurso -, dessa vez sua argúcia se devota a pensar criticamente os efeitos do saber, melhor dizendo do excesso de saber sobre pessoas que têm suas existências inteiramente capturadas pelos ditames do capitalismo globalizado e conseqüentes “verdades” e valores os quais se apresentam como inevitáveis e inescapáveis. Excesso de saber que só faz conduzir a um desconhecimento ainda maior, aliado a uma carga de pânico e mal estar jamais mitigados, qualquer que seja o arranjo “sintomático” exercido.

E é exatamente neste ponto que começamos a experimentar um certo desconforto na medida em que percebemos a grande proximidade entre o mais aterrador e o mais risível: em meio a uma rede que se forma a partir de encontros meio ocasionais e meio produzidos pela grande rede internáutica que a todos alcança, os personagens vivem situações absolutamente extravagantes e insólitas. Todos possuem certeza de suas condutas, todos desconfiam de todos, todos enganam a si próprios e aos outros, todos estão certos de que suas vidas fazem sentido, mas o que vai se desenrolando diante deles desafia as certezas e os coloca numa posição patética. A partir de algum momento nada mais faz sentido para ninguém e as informações obtidas e/ou que as pessoas pensam obter só servem para confundir e expor o fracasso de cada uma delas. Quanto maiores as certezas que a razão arrogantemente produz maiores os tombos e enlouquecimentos que todos experimentam. Alguma coisa a ver com as neuroses que conhecemos?

As situações vão ganhando maior densidade no decorrer do trajeto dos personagens que se cruzam e se desenham nos afetos de ódio, medo, melancolia, culpa, nos arroubos eróticos formatados pelas academias e sites de encontros e nas perplexidades dos que detém muitas e detalhadas informações sobre todos, sem, no entanto, conseguir alinhavar um conhecimento claro sobre os fatos. Aí o filme alcança o seu momento mais rico: Caracteriza com crueza cada personagem, mostrando seus vazios, angústias, solidões (com algumas formas de produzir amparo em algumas ocasiões, diga-se), fraquezas morais e indeterminações éticas. Não por acaso é o momento em que mais rimos contemplando atitudes que beiram o “ataque de nervos” e ampliam ainda mais os riscos, éticos e de vida.

Quando Osbourne Cox (John Malcovich, excelente) é jogado fora pelos diretores da inteligência americana e decide escrever um livro contando as histórias e seus desencantos, sua vida parece tomar um rumo interessante. Poderia ser assim, mas sua austera mulher Katie (Tilda Swinton, com atuação categórica) se preocupa com as finanças e interesses outros (ela planeja se casar com o amante) e resolve se acercar de informações sobre a conta bancária do marido, se apropriando dela antes que ele a engane (!). De outro lugar um disquete com dados sobre a vida de Osbourne no antigo trabalho vai parar nas mãos do avoado Chad Feldheimer (Brad Pitt, uma grande e ótima surpresa) e sua amiga doidivanas Linda Litzke (Frances Mcdorman, correta como sempre), funcionários de uma academia freqüentada por uma funcionária do advogado de Katie Cox. Bem, eles resolvem chantagear Osbourne, mas qual o valor real daquela informação? A quem ela pode realmente servir? Na confusão que assim se instaura o amante de Katie, Harry Pfarrer (George Clooney, inspiradíssimo), obsessivo e espertalhão se põe involuntariamente nessa trilha e se encontra com Linda, que por sua vez quer o dinheiro de Cox para fazer uma operação plástica de grandes proporções...

No desenrolar dessa intrincada trama emerge uma compreensão que advém da metáfora sobre as informações que servem e não servem: numa época em que ter informação é algo (dito) tão fundamental, qual o uso que o humano faz dela? Seria a abundância de informação e o acesso a ela motivo de terror e mal-estar, mais do que conquista a ser comemorada? Os irmãos Coen deixam em aberto a questão, sugerindo ser mais interessante saber pensar e fazer do que meramente dispor de dados.

De todo modo, do ponto de vista cinematográfico “Queime depois de ler’ pode ser visto como uma aula de roteiro, com as situações, caracterizações dos personagens, diálogos e cortes de cena (visando juntar os fios que se conectam em vários níveis) se apresentando com extrema precisão. Sempre inteligente para indicar ao espectador uma compreensão que não se reduz às imagens mais imediatas, sem que isso signifique fazer da trama em si algo menos importante. Deliciosa a sensação de ir acompanhando, pouco a pouco, as possibilidades de virada que vão se apresentando (não deixa de ter suspense). A trilha sonora a cargo de Carter Burwell é muito gostosa e adequada. No mais a direção e a fotografia seguem o (bom) nível do filme.

Assim, em mais esse instigante trabalho (o primeiro depois da premiação com o Oscar), Joel e Ethan Coen demonstram ainda o vigor necessário para desconstruir as comodidades de nossa sociedade, apontando com malícia venenosa seu aguilhão crítico e bem humorado.

Não deixe de ver.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

Poste um comentário

Navegue por NossaDica

Copyright © 2007 • Nossadica • Todos os direitos reservados • Mapa do siteWebMasterHostDica Serviço de Internet