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FILME

"UM HOMEM BOM" de Vicente Amorim

"UM HOMEM BOM" de Vicente Amorim

Foto: divulgação

Discussão sobre a escolha e suas conseqüências éticas

Filme

"UM HOMEM BOM" de Vicente Amorim

Luiz Felipe Nogueira de Faria

• O enredo é por demais conhecido e foi vivido por muitos intelectuais na Alemanha nazista: a partir de um certo momento o partido inicia um movimento de cooptação de figuras de destaque no meio acadêmico, com vistas a produzir, se não uma adesão completa aos ideais do Nacional-socialismo, ao menos uma proximidade permissiva com os modos de ação e subjetivação de seus dispositivos. Permissividade emblemática de uma postura diante dos fatos que ajudou a sustentar as estratégias nazistas junto às massas, capturadas e manipuladas pela propaganda e o desejo de expansão ilimitada. As conseqüências foram dolorosas para muitos e ainda hoje suscitam questões difíceis cada vez que as feridas são reabertas.

Baseado na peça teatral de C.P. Taylor, o mais recente trabalho de Vicente Amorim materializa esse debate falando da trajetória do professor John Halder (Viggo Mortensen), amante da literatura de Proust e adepto dos valores humanistas, além de marido e filho dedicado. A um certo momento um romance por ele escrito e que defende a eutanásia coloca os ideólogos nazistas de “olho grande”, visto poder ser aproveitado como suporte intelectual para o projeto de eugenia.

A partir daí a vida de Halder vai sendo progressivamente infiltrada e manipulada pelo partido, seja através de ameaças veladas e chamados performativos, seja pela sedução da ordem e da euforia que cada vez mais tomam espaço no campo social. Nem mesmo os questionamentos do psicanalista judeu Maurice Israel (Jason Isaacs), com quem cultiva antiga amizade e sincera, são potentes o bastante para demovê-lo de um certo “sono” no tocante à avaliação dos efeitos contidas na expansão nazista. Para tornar as coisas ainda mais inflamadas, Halder se apaixona e passa a viver com Ana (Jodie Whittaker), bela (ex) aluna que abraça sem pestanejar a estética-política de Hitler e seus comandados – é dela, inclusive, a frase que comparece numa das chamadas do filme, associando a felicidade e alegria das pessoas à valoração do ideário nazista. Títere dos movimentos e imposições nazistas, o professor Halder ainda tentará manter alguma dignidade nos laços que anteriormente estruturavam sua vida (inclusive com o amigo judeu), mas os fatos o soterrarão de maneira inevitável, e sua tentativa de revertê-los será tragicamente infrutífera.

O mais interessante nesse filme parece ser o modo como Vicente Amorim relata as relações de Halder com o que se desenha como inevitável e que ele insiste em negar. Estabelece, como numa relação plano/contraplano, os motivos e a “ingenuidade” do professor e a progressão de acontecimentos que o dirigem para um severo impasse. Sem descuidar de oferecer uma crítica à passividade do personagem (atravessada por um secreto orgulho de também ver a si próprio ascendendo a cargos de poder), mas destacando e acolhendo respeitosamente os dilaceramentos que vão se fazendo quando Halder se dá conta do equívoco que estava cometendo. Entre um e outro plano afirma-se uma perspectiva que alcança tonalidades mais fortes no desfecho da trama, com cenas feitas com firmeza e rigorosamente pungentes. O roteiro de John Wrathall merece elogios.

O elenco faz um excelente trabalho, com destaque para Viggo Mortensen, sensível e rico nas nuances afetivas do professor e Jason Isaacs, o amigo psicanalista que serve como uma espécie de consciência de Halder, e que de algum modo faz com que este não se ponha inteiramente a serviço dos horrores. Também Jodie Wittaker comparece bem, marcando o lado erótico da verve nazista com precisão. Tudo isso embalado pela vigorosa trilha sonora de Simon Lacey, capaz de captar a atmosfera tão glamourosa quanto agressivamente austera dos palácios nazistas e ainda pontuar os laços mais puros da paixão do professor Halder.

“Um homem bom” (Good no original) encontra, sem fazer concessões, um modo de nos fazer pensar sobre as escolhas que fazemos e a responsabilidade que inevitavelmente assumimos por elas. E, por aí, nos conduz a um debate sobre a ética que afirmamos em cada ato de nossa vida. Inclusive aqueles que colocam em risco os ideais que sustentam nosso modo de ser e sentir.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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