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FILME

"1958 - O ano em que o mundo descobriu o Brasil” de José Carlos Asberg

1958 - O ano em que o mundo descobriu o Brasil

Foto: divulgação

Emoção e inventividade para retratar a epopéia dos primeiros campeões

Filme

"1958” de José Carlos Asberg

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• As imagens, ao menos algumas, são por demais conhecidas, até a ponto do apagamento na memória mais recente. Os personagens já foram devidamente cantados em prosa e verso e a história devidamente contada e recontada. Na esteira de algumas reportagens e comemorações sobre a conquista da primeira copa do mundo surge um documentário com um título provocativo, ao evocar uma paixão futebolística desmesurada. Mais um filme de futebol, dedicado a aficionados e nostálgicos? Mais um registro de gols, belas jogadas e frases de efeito sobre a beleza e potência do futebol penta campeão do mundo?

O trabalho de José Carlos Asberg desmente de maneira cabal todas as indagações clichês e expectativas pré-conceituosas. Isto porque o que encontramos ao longo dos 90 minutos de projeção (mera coincidência?) é algo que sem deixar de contemplar os amantes do futebol – no caso, do démodé futebol-arte –, convoca a uma experiência cinematográfica de grande importância: aquela que sem deixar de respeitar os fatos e seus significados (afinal, trata-se de um documentário) permite uma abertura para o sentido, presentificado nas muitas afetações que são disparadas a todo o momento. Afetações, diga-se de passagem, menos ligadas aos fatos e depoimentos em si, mas relacionada à captação delicada dos gestos, da atmosfera que compõe a um só tempo estrangeiridade e século passado (a narração original dos principais locutores da época tem um ótimo efeito), das lembranças verbalizadas com intensidades diferenciadas e sempre sinceras. Não parece haver a pretensão de oferecer uma leitura mais adequada e/ou original do que outras, mas fazer, a partir do cinema, uma possibilidade de exercitar os sentidos e criar, a partir do presente, memórias outras, capazes de desconstruir as evidências, inclusive aquelas que se fazem a partir dos ufanismos mais grosseiros.

Assim, somos “novamente” lembrados dos “complexo de vira-latas” (expressão de Nelson Rodrigues) que acompanha o modo racista de conceber o jogador de então (nesta época ser jogador de futebol é ainda bastante desvalorizado, ao menos por uma certa classe social), dos métodos revolucionários empregados pela comissão que passou o cuidar dos jogadores, das amarguras de cada um, dos medos, dos traumas – 1950 à frente de todos. Também escutamos os outros, isto é, os vencidos (eles também têm uma história pra contar, não? Os franceses que o digam...). Postas lado a lado, as falas vão formando um desenho multifacetado, contraditório, e, sobretudo, desidealizador. Os “heróis da Suécia” vão se revelando também em suas fragilidades e incertezas, assim como na paixão e na arte. O já famoso bordão “futebol é uma caixinha de surpresas” recebe aqui outro tratamento.

Por falar em tratamento, cabe registrar a maneira inteligente com que são expostas as imagens dos jogos, entremeadas com depoimentos, claro, mas com um modo narrativo que não se deixa reduzir à mera ilustração de um comentário. Respeitosa com ambos a narrativa usa todos os recursos (especialmente aqueles que caracterizam o cinema com os cortes temporais, flash backs, câmera lenta, etc) para inventar sentidos e significados, afetos e explicações mais acuradas. Do mesmo modo a (bela) música destaca o indizível das experiências, pontuando com força os movimentos próprios do futebol. Tem-se mesmo a impressão de que mais do que fazer um registro sobre os jogos – tanto quanto permitem as imagens disponíveis – Asberg busca apreender o que há de cinematográfico no próprio futebol, com suas “cenas” repletas de uma coreografia dançante (bem, isso vale mais para o nosso time) e rituais corporais quase sempre interpretativos no conteúdo e na forma. Linguagem cinematográfica e linguagem do futebol parecem tecer encontros profundos e interlocuções inesperadas.

Há também breves registros, falados e imagéticos, da realidade nacional, com a presença de nosso “presidente bossa nova” acompanhando o desenrolar dos jogos e realizando suas obras, ao mesmo tempo em que vemos uma Copacabana que não mais existe. Tudo parece possuir um charme especial e a convocação a adentrarmos por instantes que seja esse mundo é bastante carinhosa.

No mais é destacar os atores que ainda hoje encantam quem gosta de futebol: a arte circense de Garrincha, o porte garboso e o toque refinado de Didi, a raça de todo o time, os lampejos de Pelé, para ficar só nestes exemplos (justiça seja feita, os franceses também fazem espetáculo). É muito gostoso ver a “gente bronzeada mostrar seu valor” se me permitem um toque Moraes Moreira e vibrar com a alegria do futebol. Em tempos onde ouvimos dizer que o futebol praticado nessa época é apenas algo ingênuo e ultrapassado, Asberg parece propor algo diverso da polêmica arte versus força: não retornar nostalgicamente a 1958 para celebrar um futebol bonito, mas fazer 1958 retornar hoje com sua pujança e maestria, a lembrar que a arte terá sempre um lugar importante na produção de uma cultura.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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