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FILME

“4 meses, 3 semanas, 2 dias” de Cristian Mungiu

4 meses, 3 semanas, 2 dias

Foto: divulgação

Um retrato sobre a solidão e abandono em história narrada com crueza

Filme

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

“4 meses, 3 semanas, 2 dias” de Cristian Mungiu

• Numa Romênia impregnada de uma atmosfera opressiva e conservadora, duas jovens estudantes dividem um modesto quarto numa república. Uma delas (Gabita) está grávida e não deseja ter o filho. A única perspectiva é a de abortar. Mas é justamente isso que faz questão. A prática do aborto é ilegal e, mais do que isso, habita uma região de penumbra onde está vedada até mesmo na linguagem cotidiana, causando constrangimento e culpa. É a partir dessa, questão política, que refere o corpo, o direito de poder dele dispor e escolher a destinação ligada ao ato de procriar (ou não) que se colocam as provocações que a trama do filme de Cristian Mungiu exibe sem qualquer pretensão de poupar o espectador de incômodos.

Gabita conta com a companheira de quarto (Otilia) que não poupa esforços para ajudá-la, mas ambas terão de passar pela dura experiência de contato com a clandestinidade e com o “submundo”, instituição que lucra com o “crime” passando por cima de sofrimentos subjetivos e dramas morais. Ela se presentifica numa figura que atende pelo sugestivo nome de Senhor Bebê, cuja frieza e distanciamento se fazem tão mais atormentadores quanto mais nos damos conta (junto com as personagens) de sua força e poder, pela falta de alternativas e exigências estabelecidas pelo tempo de gravidez.

Cativas diante de um técnico experiente e perverso, que usa de seus desesperos tanto quanto de seus corpos, Gabita e Otilia serão convocadas, sem direito a qualquer recurso, a viver o horror do despedaçamento – real no que tange a ausência de qualquer amparo médico mais consistente e simbólico no que se refere à impossibilidade de compartilhar essas vivências com os mais próximos. A única exceção, o namorado de Otilia, não oferece um suporte suficiente. Os diálogos na cena em que Otilia confessa a Adib o mistério de suas ausências e pedidos de empréstimo, além de interrogar sobre qual poderia ser seu destino numa situação idêntica, mostram bem essa impossibilidade.

Mas não é tudo. Após o aborto (afinal bem sucedido) restará dar um destino ao feto, e aí também se apresentarão outros horrores posto que o procedimento indicado obrigará Otilia (cuidadora contumaz) a caminhar mais uma vez na obscuridade, entre o ato criminoso e a experiência redentora da solidariedade, sem que qualquer reconhecimento seja possibilitado. Ao final, Gabita e Otilia parecem concordar que essa vivência seja condenada ao limbo (abortada?) de suas vidas. Como fazer esse luto?

O filme chama a atenção pelo modo de narrar os fatos que se desenvolvem em apenas três dias. Inicialmente, o modo cru e direto como são apresentadas as personagens de Gabita e Otilia – suas vivências cotidianas, sua situação financeira, a naturalização do câmbio negro para comprar cigarros, a magra perspectiva de trabalho proporcionada pela universidade – , especialmente Otilia (Anamaria Marinca, excelente) que conduz a trama com seus questionamentos, despojamentos e uma admirável coragem para lidar com o risco. Também o Sr. Bebê figura monstruosa no seu absoluto desprezo e frieza (Vlad Ivanovic, com uma interpretação forte, responsável por alguns dos momentos mais violentos do filme), é caracterizado sem maiores pudores, supra-sumo da perversão de um sistema que não se compraz em reprimir, mas também cria e legitima a figura do “aborteiro”, como válvula de escape. Por último, o conservadorismo comparece nas cenas do aniversário da mãe de Adib, onde acompanhamos uma Otilia cumprindo angustiadamente o papel de moça de família, a todo o momento avaliada pelos pais e outros convidados da festa. Os diálogos e a brutalidade da cena em que Otilia se vê proibida de fumar, enquanto os comensais referem melancolicamente os tempos em que os jovens não eram tratados com tanta liberdade, é mais uma marca da crueza como opção estética.

Seguindo essa linha, a fotografia aposta no tom lúgubre, carregada de cores escuras, enquanto assistimos os enquadramentos privilegiarem a experiência claustrofóbica que os personagens vivem. Destaque para a seqüência – tipo câmera na mão – em que Otilia caminha pelas ruas desertas com o feto na bolsa. Talvez o ponto mais forte do filme.

Curioso é o lugar do sexo na trama. Necessariamente mencionado como causa de algo que acaba trazendo sofrimento e indicado como meio de praticar a violência via Sr. Bebê. Também ele não escapa da crueza com que as questões são tratadas. As cenas de nudez, relacionadas ao ato de provocar o aborto e ao contexto de “pagamento” ao aborteiro, são rudes e expõe corpos doloridos. Nenhuma referência ao erotismo, como a dizer que na atmosfera em pauta não há lugar para esse tipo de expansão.

4 meses, 3 semanas, 2 dias é um filme para ver com o estômago preparado.
Estômago e afetos.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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