
Por Luiz Felipe Nogueira de Faria
• A discussão sobre as conseqüências trágicas ocasionadas na vida dos indivíduos por conta da intervenção (perversa) da máquina estatal totalitária já foi objeto de muitos argumentos e reflexões no cinema. Mas em geral a leitura deste filmes se compraz em denunciar os aparatos da (dita) máquina, desenvolver a história heróica dos "combatentes" e identificar o poder àqueles que defendem o estado e o controle repressivo encarregado de manter o status quo. Num certo sentido o premiado trabalho do diretor e roteirista Florian Von Donnermarck não foge a este padrão. Vemos uma história que se passa em 1984 na RDA, onde a polícia especial e secreta alastra sua rede de influências e olhares, sempre invasivos, com o intuito de localizar os potenciais inimigos do regime. Mas no drama que vai se desenrolando - com todas as características de um thriller - a famosa equação poder e aparatos repressivos versus cidadãos reprimidos e vigiados dá lugar à outra na qual o poder se transforma numa rede que se alastra por todos os pontos, sendo que num deles especificamente há como que um curto-circuito de funções, valores e até identidades. Como assim?
Para resumir, Gerd Wiesler (Ulrich Hunche) é encarregado pelo ministro e pelo "partido" de vigiar todos os movimentos do casal de artistas Crista Maria, atriz (Martina Gedeck) e George Dreyman, escritor (Sebastian Koch). Ele é um escritor historicamente identificado com as idéias do partido porém atento aos destinos dos seus próximos e ela uma atriz em ascensão que trabalha também numa peça escrita por ele. No seu círculo de amizades se incluem outros artistas que contestam mais explicitamente o regime (alguns já estão numa espécie de lista negra). Mas a idéia de invadir a casa de Dreyman, com tudo o que a tecnologia mais moderna permite, surge de uma circunstância bem característica da crueldade e ausência de medida dos representantes oficiais: Investigar um possível deslize do artista em prol de promoções e incremento dos emblemas de poder. Tudo isso conjugado com o sentimento de impunidade e a excitação prazerosa de brincar com a vida alheia. Contudo, no decorrer dessa missão Wiesler vai se aproximar do casal e de seus sofrimentos de maneira tão intensa, que ele mesmo tomará para si as questões que deveria testemunhar de maneira distante, enquanto membro policial. Então, as redes de poder tomam um rumo inesperado e se cruzam exatamente nas ações e escutas de Wiesler, de agora em diante tornado cúmplice do casal e, mais do que isto, cúmplice dos valores que Crista Maria e Dreyman buscavam afirmar e que por definição Wiesler deveria destruir.
A partir daí o filme vai mostrar os enlaçamentos deste sui generis "triângulo amoroso", destacando os vários pontos onde as lutas do escritor e seus amigos se fortalecem (seja pela ousadas e criativas estratégias, seja pela facilitação que Wiesler cada vez mais proporciona) e as dificuldades que os membros de importantes postos na hierarquia vão experimentando em função da demora em resolver o caso.
Uma das questões colocadas diz respeito ao fato de que a resistência, longe de fazer oposição ao poder, é ela mesma um instrumento importante, já que atravessa toda a rede onde o poder se exerce. Não há quem escape dela - os trabalhos e preocupações de Dreyman e seus amigos são marcados pela afirmação dos valores que afirmam e buscam produzir um outro modo de exercício de poder e utilizam estratégias até refinadas para remeter para fora do país textos falando sobre as estatísticas não reveladas de suicídio, enquanto se discute as contradições e sutis identificações com o totalitarismo que pode haver em cada um. Mas ao mesmo tempo há uma saída para os condicionamentos empobrecedores aos quais os jogos de poder podem induzir: O apaixonamento pela arte e/ou a experiência (erótica) do encontro com uma mulher (Wiesler possui uma vida erótica pouco mais que animalesca, mas se transforma quando olha Crista Maria no teatro ou procura-a para convencê-la a não se entregar à chantagem do Ministro que a pressiona para receber prazeres sexuais, ou mesmo quando rouba um livro de Brecht da casa de Dreyman e se deleita com a escrita poética desse comunista).
Há também a identificação com o sofrimento do outro (num momento em que a fidelidade aos ideais do partido se transforma em consciente solidariedade, Wiesler desiste de entregar um relatório denunciando as atividades de Dreyman quando ouve seu superior dizer sobre os métodos de calar e esterilizar os artistas contrários ao regime, cena forte pelo seu "silêncio" e importância na trama). Ao final, após muitas situações arriscadas, perdas dolorosas e a queda do muro (já estamos então em 1989 e mais um pouco) Wiesler recebe do escritor uma homenagem que se não vai mudar concretamente sua difícil vida, ressitua simbolicamente seus atos. A cena final é mais uma vez silenciosa, mas repleta de emoção e intensidade.
Para realizar este belo filme o roteirista/diretor contou com ótimos atores, todos com interpretações excelentes, destacando Ulrich Hunche que compõe na figura de Wiesler um (anti) herói taciturno e tomado pelo impossível de viver o exato cruzamento de duas redes de poder que se antagonizam, "servindo" a dois senhores que se excluem mutuamente. Sua paixão pela atriz e identificação com o escritor são pontuadas de maneira sutil sem nunca esquecer que Wiesler é homem do estado, da máquina burocrática. Também a bela Martina Gedeck trabalha a frágil Crista Maria sem apelar em nenhum momento para o estereótipo da atriz problemática e amedrontada com tudo. A música de Gabriel Yared e Stéphane Mocha é excelente, pontuando e acompanhando os momentos mais dramáticos da história.
"A Vida dos Outros" é um belo filme, quanto mais não seja pela capacidade de nos encantar sem abrir mão de mostrar com todo o realismo os horrores do estado totalitário. E nos lembrar que a criação de novos modos de existir não é privilégio de iluminados, mas se faz possível e presente em cada experiência silenciosa e quotidiana.
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