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"ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO"
de Sidney Lumet

ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

Foto: divulgação

Suspense com a face voltada para o horror

Filme

"ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO"

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Este trabalho de Sidney Lumet nos põe diante de uma experiência afetiva curiosa: na compreensão quase imediata que fazemos dos personagens e das situações que vão se desenrolando - cada vez mais assustadoras em sua previsibilidade macabra -, percebemos que uma densa atmosfera de silêncio vai se apossando, imprimindo uma marca que fascina tanto quanto paralisa. Por aí somos capturados sem apelação e o congelamento que experimentamos ao longo de algumas seqüências apenas corrobora a constatação de que adentramos a região do estranho, na esteira das mais aterradoras vivências dos personagens. Aí não resta outra alternativa senão aguardar cada lance seguinte com a expectativa angustiante com que cada um dos envolvidos na trama encontra o absurdo de suas vidas.

Dizer que este filme conta uma história sinistra (o desfecho mais ainda) é pouco. Na verdade, o que merece destaque é a capacidade de produzir as intensidades há pouco mencionadas sem que o andamento próprio da narrativa prescinda da clareza e objetividade. Não se trata, em nenhum momento, de “esconder o jogo” ou produzir algum efeito de equívoco para a leitura que podemos fazer das mazelas de uma família de classe média americana na era pós-moderna (com o individualismo e o consumismo imperando a ponto de atropelar até mesmo os registros mais fundamentais de respeito ao outro). Ou até, se desejamos insistir numa via que Lumet explorou em outros trabalhos, nos ódios e culpas indizíveis que paradoxalmente aproximam os indivíduos sem que alguma resolução “racional” se faça possível. Tudo isso está lá com toda a precisão.

Mas, e aí está o ponto, as imagens não se esgotam em sua crueza e em seu aspecto sombrio (palmas para a fotografia). Elas nos remetem ao que não se vê diretamente, mas pode apenas ser pressentido: nas relações que se estabelecem há um profundo silêncio que diz respeito à morte que perpassa os encontros, fazendo de cada palavra dita apenas um arremedo de pacto e ligação afetiva. Isto é, os personagens falam muito e discutem bastante entre si, mas o que fazem para além das palavras e ladainhas cotidianas conta mais e coloca verdades inescapáveis que só são pronunciadas no desespero, como gritos enfurecidos, isto quando é possível dizer algo.

Assim, o desencanto das relações entre os irmãos Andy e Hank, a insuportável solidão de Andy (cada vez mais impotente inclusive no casamento) e a fragilidade de Hank, a trajetória “errante” de Gina, capturada na rivalidade destrutiva que “une” Andy e Hank, o desespero do pai Charles, que aos poucos se transforma em crueldade idêntica àquela dos filhos, todos esses pontos sustentam a trama e indicam que o diabólico se faz presente em todos os momentos, sem qualquer concessão.

O clima de suspense é muito bem sustentado, com um roteiro (autoria de Kelly Masterson) que vai aos poucos delineando os personagens, fazendo com que a cada virada atribuamos outros significados e experimentemos novas angústias. As viradas são bem executadas e ajudam a manter o ritmo. As pontuações musicais, a cargo de Carter Burwell, são ótimas. Do mesmo modo as atuações estão excelentes. Destaque para Philip Seymour Hoffman (Andy) e Albert Finney (Charles), soberbos. Marisa Tomei (Gina) e Ethan Hawke (Hank) seguram muito bem a onda.

Para encerrar, digamos que acompanhar a tragédia anunciada de uma família produzida no bojo da cultura de consumo (com direito ao uso de drogas pesadas no lugar um instrumento libertário como a análise, como é sugerido numa cena), onde são forjadas apologias do enriquecimento fácil e do uso do outro como mero artefato de gozo obriga a pensar diretamente no nosso cotidiano. Com uma dose de amargor que o velho Lumet não dispensaria.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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