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Cão sem dono de Beto Brant e Renato Clasca

Cão sem dono de Beto Brant e Renato Clasca

Foto: divulgação

Um ensaio sobre as intensidades cotidianas

Filme

Cão sem dono de Beto Brant e Renato Clasca

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Admite-se sem maiores discussões que os trabalhos de Beto Brant costumam impactar não apenas por apresentar estórias não muito (ou muito pouco) convencionais, mas também pelo tratamento bastante provocativo – por vezes até agressivo – dos temas que compõem estas estórias - com uma galeria de personagens curiosos, chegando mesmo a tocar as raias do bizarro, sendo que este bizarro se apresenta como algo ao mesmo tempo íntimo de todos nós, não obstante sua “estrangeiridade”. Quem não se lembra de “Crime Delicado” e a relação apaixonada e despudorada de um crítico de arte com uma mulher que mantém com um artista uma relação que é o objeto maior da crítica e ao mesmo tempo a chama escarpada de seu desvario romântico? O desenlace trágico, com uma ponta de ironia diante do tipo de acusação circula entre os “amantes” mostra bem um olhar que não se quer complacente com a reflexão sobre os encontros e seus destinos, felizes ou não.

Nesse trabalho, em que divide a autoria com Renato Clasca, encontramos uma vez mais a verve de Brant (e também de sua equipe, com a presença do incansável Marçal Aquino na adaptação do livro de Daniel Galera), especialmente no que tange ao modo como o (delicado) encontro de Ciro e Marcela é desenhado pelas imagens, sempre marcadas com um tom lúgubre, com diálogos diretos e secos, cenas de sexo que não se comprazem com o óbvio, cortes que impõe uma inquietante brevidade das cenas e um percurso de câmera pelas ruas da cidade que sugere a nudez da solidão como condição de existência, mais até do que imposição da vida (pós) moderna.

O forte enlace dos dois protagonistas (Júlio Andrade e Tainá Muller com atuações viscerais) é pontuado pelo contraste de suas condições de vida (financeiras, inclusive), pelos desencontros comuns do quotidiano do amor e pela aparição repentina da morte, materializada num tumor cancerígeno de Marcela. Ao mesmo tempo, desempregado e sem perspectivas Ciro – que vê Marcela se afastar para realizar o tratamento – experimenta o horror de uma outra (ameaça de) morte: o abandono e a incerteza sobre o futuro, mesmo o mais próximo e a imersão completa no desespero proporcionado pela falência dos laços que até então sustentavam as possibilidades de vida.

O cão vadio e fiel (acostumado, parece, a executar um trajeto nômade, por que não tem dono, ou será que ele dispensa o dono?) que faz companhia a Ciro é apenas mais um dos tipos inusitados que são flagrados pelos autores: deve-se fazer justiça ao hilariante casal (ele um motoqueiro que atropela Marcela e responde a isso com imensa solidariedade) que os recebe para uma noite simples e afetiva regada a vinho e alguns baseados (não, eles não fumam maconha para espancar os outros) e o pai de Ciro, que na sua patética tentativa de instruir o filho por relação às intempéries da vida, demonstra também seu despreparo e perplexidade, residindo aí, nesta honesta confissão, o maior bem que transmite ao filho (claro, também com casa e comida, que não fazem mal a ninguém).

Em suma, “Cão Sem Dono” obriga a um passeio intenso pelo lado sombrio das trajetórias de vida, as mais comuns e invisíveis, no palco iluminado das cidades. A cena final, repleta de ambigüidades e aberta (mais uma vez o corte inquietante) a todas as construções é apenas mais uma provocação do filme.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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