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FILMES

“CHEGA DE SAUDADE” de Laís Bodansky

Chega de Saudade

Foto: divulgação

Testemunhando o romance dos corpos

Filme

“CHEGA DE SAUDADE” filme de Laís Bodansky

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Num determinado momento deste novo filme da sempre competente Laís Bodanzky, nos damos conta de que não apenas os casais dançam e se movimentam, na simultaneidade dos espaços concretos de um clube de dança e dos sonhos e lembranças que insistem em atravessá-los, mas que na sua “cola” se faz outro movimento, outra dança capaz de destacar cada gesto e cada olhar, suscitando a atmosfera de sensualidade e entrega apaixonada que todos vivem. Este movimento, espécie de partner ideal para deslizar no salão é o olhar de Bodansky, igualmente dançarino nas idas e vindas da câmera, passeando pelos corpos e suas torções (e contorções!), nos diálogos ricos em sugestões poéticas e no acompanhamento da música visceral que não pára “fustigar” a todos (não estivesse ali Elza Soares). Também a nós que já não estamos imunes às muitas seduções, docemente surgidas.

Apresentar com tantos encantamentos o universo característico de pessoas que se fazem e refazem no intenso habitar dos salões não é o único mérito de “Chega de saudade”. Na verdade, é possível distinguir o tratamento respeitoso pelos mistérios que emanam dos personagens, num tom que destaca a densidade de suas experiências, mesmo que suas falas sejam diretas e simples, seus gestos traduzam emoções conhecidas e reconhecidas e suas expectativas falem do cotidiano mais comezinho.Tratar a complexidade presente nas afetações que circulam entre os participantes da “festa” sem exagerar na dose de glamour atribuída a cada um mostra que a opção de Bodanzky (e seu roteirista/parceiro Luís Bolognesi) é pela delicadeza, longe do histriônico e espetaculoso. O espetáculo fica por conta daqueles que efetivamente vivem e fazem cada palmo do salão ser um real foco de contágio. Testemunhar humildemente esses atravessamentos, sem julgamentos e moralidades parece ser o “jeito” de estar presente (incluindo o espectador, claro) sem ferir a dignidade dos dramas e tragicomédias próprios desse universo.

Assim, o casal Alice e Álvaro (Tonia Carrero e Leonardo Villar, ótimos) com suas, dores, solidariedades e, principalmente, com a grande paixão que os une, o “triângulo” ou “triângulos” Eudes, Bel e Marici e Bel Marquinhos e Eudes (Stepan Nercessian, Maria Flor, Cássia Kiss e Paulo Vilhena, todos muito bem, especialmente Cássia Kiss, capaz de definir as situações e afetações de sua personagem com olhares e movimentos faciais soberbos), o par Hugo –argentino e Rita (Raul Bordale e Clarice Abujamra), erotismo desenfreado, no limite da transgressão e da solidão, a provocadora e insistente Elza (a excelente Betty Faria, cuja fala no fim do filme é de arrancar gargalhadas), o garçom Gilson, figura fundamental e necessária no acompanhamento carinhoso dos fregueses, e tantos outros marcados por pequenas-grandes histórias e estilos, são retratados em sua simplicidade e grandeza, sempre lembrando ao espectador que aqueles artistas são pessoas simples e reais, com as quais esbarramos diariamente. Sua obra de arte só é visível se nos despojamos do preconceito de só conceber a obra como continuidade estrita dos comportamentos ordinários do cotidiano. Ora, a obra de arte se faz nas centelhas e vazios onde se tece o paradoxal e sem sentido, o que torna cada um desses personagens artífices de sua própria transformação, palpável nas falas intensas e (porque não dizer?) musicais.

Por tudo isso e mais alguma coisa que possa escapar - num filme como esse temos sempre a sensação de que muito nos escapou – “Cega de Saudade” é obrigatório. Laís Bodanzky e sua “trupe” de bambas honram o cinema brasileiro e este título, afinal ele também prenhe de importância na história de nossa arte.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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