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“Crimes de Autor” de Claude Lelouche

Crimes de Autor

Foto: divulgação

Para apreciar suspense e romance à moda antiga

Filme

Filme Crimes de Autor

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• “Roman De Gare” (título original), último trabalho do Claude Lelouche, aposta numa velha maneira de seduzir o espectador ávido de uma diversão inteligente e provocativa: oferece uma trama repleta de mistérios e surpresas, pontuada com humor ácido e com uma história romântica muito bem costurada nos seus encontros e desencontros característicos. Tudo isso embalado pela música charmosa de Gilbert Becaud. Ao longo de todo o filme somos transportados para um ‘universo” elegante e encantador, com belas paisagens e personagens tão estranhos quanto interessantes. Então, garantia de um programa leve e descompromissado.

Leve e descompromissado? Nem tanto. O filme conta a história de Pierre Laclos (Dominique Pinon) ghost-writer de Judith Ralitzer (Fanny Ardant) conhecida escritora de best-sellers. Numa de suas andanças conhece Huguette numa loja de conveniência de um posto de gasolina. Esta havia acabado de ter uma briga com seu namorado que a deixou sem o seu carro exatamente no momento em que se dirigiam para oficializar seu noivado diante dos seus pais. Daí em diante ambos se vêem tomados por várias situações a ponto de Laclos se passar pelo noivo fujão diante dos familiares (em seqüências hilariantes) e aos poucos vamos conhecendo essas figuras um tanto solitárias e muito insatisfeitas com suas vidas e escolhas. Judith por sua vez alcança inegável estrelato com seus romances, especialmente um, sugestivamente intitulado “Dieu c’est um autre” e que desenvolve uma trama onde comparece Huguette, retratada por Laclos a partir do encontro que tiveram. Mas Judith será também acusada de assassinar Laclos, misteriosamente desaparecido do barco onde se encontravam tecendo os capítulos finais do livro...

O que chama atenção é o modo como as temáticas do duplo e do engano comparecem, fornecendo o estofo onde se apóia o entrelaçamento cinema/literatura, como estilos de linguagem que ao mesmo tempo equivocam e revelam. As idas e vindas das histórias que vão se atravessando a todo o momento suscitando grande suspense, demonstram a intenção de brincar com o espectador (seus afetos tanto quanto sua compreensão) no ponto onde se trata de afirmar uma espécie de jogo de esconde-esconde: todos os personagens mentem (para si, para os outros), todos assumem para si histórias que também são escritas por outros. A própria condução da trama (com um roteiro muito bem construído) esconde até as cenas finais o desfecho das situações principais. Numa das cenas mais significativas Judith é interrogada por um policial que busca num trecho de seu livro (que não havia escrito!) uma prova de suas intenções assassinas. Diante disso, a escritora lhe diz que isso é... literatura.

Literatura e cinema. Também as imagens (como as palavras) iludem, posto que não há nelas nenhuma transparência que nos permitisse fixar um sentido dado e último (ao contrário do que se apregoa na atualidade, com a abundância de imagens a que somos expostos, que elas não mentem!). Somos sempre conduzidos pelo mistério das relações e se numa cena pensamos encontrar uma direção para a trama que acompanhamos é somente para na cena seguinte encontrarmos outra direção, outro sentido. O jogo é bom, sem dúvida.

Mas há também a via romântica. Esta perpassa o filme de maneira vagarosa, sugerindo mais do que afirmando, dando a entender que também aí não escapamos do engodo, mas que este engodo é uma condição mesma do romance e não o seu oposto. A própria música (deliciosa) de Gilbert Becaud parece trazer essa questão. Em algum momento escutamos “croit moi, croit moi, ça durera” para adoçar os encontros mais felizes, digamos. Acreditar? Sim, mas com a condição de compreender a brincadeira aí implicada (no filme algumas brincadeiras são bastante macabras).

Na última cena, o casal formado se pergunta: “Para onde iremos?” e isto numa tomada de cena onde não os vemos mas apenas a estrada a frente com a velocidade característica de quem vai ao encontro de outros lugares (câmera colocada da perspectiva de quem dirige). Bela imagem a nos propor que um certo abandono das certezas é não apenas salutar, mas necessário para o existir. No mais, é falar do óbvio. As interpretações são ótimas, a fotografia muito bonita. A direção tem dentre outras virtudes o (grande) mérito de não nos poupar das afetações (e enganos!) necessários a um thriller com este.

Vá conferir e relembrar as românticas canções dos anos 50/60, como é dito logo no início. Sim, porque além de tudo há o glamour, o velho glamour francês.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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