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FILME

"Estamos bem mesmo sem você" de Kim Rossi Stuart

Estamos bem mesmo sem você

Foto: divulgação

Uma breve sensação de lição aprendida sobre a vida

Filme

"Estamos bem mesmo sem você" de Kim Rossi Stuart

Por Luiz Felipe Nogueira de Faria

• Num dos momentos mais importantes da trama vemos o menino Tommaso se preparar para uma competição de natação. Ele é um dos favoritos a alcançar a vitória, muito sonhada e desejada por seu pai e indicada pelo seu treinador. Quando ele mergulha na piscina a câmera acompanha seus movimentos colocando-se junto a seu corpo, o que nos obriga a ver a competição da sua perspectiva, olhar para a o alto e visão do fundo da piscina alternados incessantemente, e renovados a cada braçada. Por uma fração de segundo temos uma visão panorâmica que permite perceber que a vitória de Tommi é certa, fácil até. Mas eis que somos surpreendidos pela paralização brusca de seu movimento, e novamente de posse da visão panorâmica, vêmo-lo agarrado a uma das boias, olhar distante. Ele havia desistido de ser bem sucedido na atividade que seu pai havia escolhido para ele – Tommaso preferia jogar futebol. Contemplando-o por instantes isolado e pensativo, gesto significativo de sua trajetória, somos chamados a pensar junto com ele seus dramas e angústias, assim como sua enorme capacidade de enfrentá-los. Esta seqüência não dura mais do que 2 minutos, mas pela sua densidade e arrojo ao caracterizar a situação do menino e também de seu pai (que aguardava a vitória ansiosamente na platéia) merece destaque, até porque serve na media exata para definir a proposta de Kim Stuart: apresentar um drama familiar relativamente comum e banal, analisando os motivos e experiências de cada protagonista – especialmente Tommi - ao mesmo tempo dentro e fora de sua visão mais imediata. Assim, de posse desta perspectiva (como na viagem feita com o menino na piscina) alcançamos sentidos diferenciados para os conflitos e desencontros vividos, diga-se, com grande intensidade.

Aliás intensidade é o que não falta ao longo dos 108 minutos de projeção. Uma família composta de pai e filhos (Tommaso e Viola), vive sem a mãe, posto quem esta se interessou em levar outra vida (já aí um pouco diferente dos clássicos onde é a figura materna que comanda o lar). O pai, duro e angustiado, torna-se ainda mais dilacerado quando vê sua mulher retornar para a casa, quebrando a organização antes alcançada. Trata-se realmente de uma ruptura, até porque os amores e ódios antes apaziguados voltam a comparecer e exigir atitudes e falas. Ningúem fica imune ou impunne a este retorno( e, depois, ao novo abandono), claro, mas aos poucos nos damos conta das peculiaridades das mujitas relações que se constituem nesta família– a cenas onde Renato Benetti (pai) que é câmera, briga com o diretor do filme no qual trabalham por conta de sua fascinação pela expressão de um camelo, diante do testemunho consternado dos filhos e da mulher, para logo depois encontrar um lugar paradisíaco para passarem juntos algumas horas são desse ponto de vista requintadas. Trata-se de relações e modos de existir que nem sempre (ou quase nunca) se complementam com suavidade, dando a entender que o que distingue essa família é justamente esse desequilíbrio, onde todos se fazem, de maneira singular.

Este é um ponto que merece atenção, principalmente porque por aí nos aproximamos de Tommaso. Menino sensível e quieto, algo taciturno, Tommi faz de sua solidão um meio de olhar e aprender com o mundo, criando-o extamente onde este não lhe facilita a aprendizado. Buscando as referências que não encontra nos pais Tommi ousa encontrar (e ser acolhido em) outras famílias e realizar experiências nas quais um toque surreal não está ausente (ver sua aproximações sucessivas dos surdo-mudo que se torna companheiro no colégio). Assim, nas várias situações com os meninos e meninas (sempre ativas no jogo de sedução, especialmente a irmã Viiola) que fazem parte de seu mundo, além das vivências dolorosas que experimenta obrigatoriamente com a mãe enigmática e distante e o pai superegóico ( e muito mala também!), Tommaso nos apresenta aos afetos mais desconcertantes, fazendo-nos testemunhar junto com ele a imensa balbúrdia de sua casa. Mas também nos diz que ela merece seu amor, apesar disso (ou talvez exatamente por isso!).

Então, nesta família que está longe do equilíbrio e certamente não habita o rol das famílias ordenadas e padronizadas pelo ideal da boa convivência (existiria alguma?) habitamos junto com Tommaso um lugar ao mesmo crítico e de compaixão, sem esquecermos de rir com as bizarrices e gafes de cada um. Neste belo modo de pensar sobre as relações pós modernas Kim Rossi Stuart (que também interpreta o pai) aposta na força dos diálogos, na interpretação dos atores (destque absoluto para Alessandro Morace como Tomnasso, mas Barbora Bobulova como a mãe Estefania e o próprio Stuart estão ótimos) e nas imagens produzidas por uma câmera que se põe a “flagrar” as criações de vida do menino de maneira carinhosa.

Ao final, quando Tommaso alcança a permissão para jogar futebol ficamos aliviados e com uma breve sensação de lição aprendida sobre a vida desejante e seus sábios caminhos. Reconhecimento que faz de “Anche Libero Va Bene” uma “consulta” obrigatória.

Luiz Felipe Nogueira de Faria : contato

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